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08 de outubro, 202619:30
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Opinião

Sem Arrascaeta, o Flamengo terá de descobrir se é time ou dependência

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Por Miguel Sampaio

02 de outubro de 2026

71 acessos

Existem jogadores que vão além de meramente fazer parte de uma lista de escalação. Arrasceta, no caso, pertence ao seleto rol de jogadores que estão no imaginário que o torcedor tem de um time.

Pensou no Flamengo que vai jogar no domingo, já vem logo à mente o uruguaio ostentando o número 10 nas costas.

Por isso, a notícia de sua lesão doeu um pouco mais no Flamengo. Não foi apenas a confirmação de uma fratura no punho esquerdo, nem a cirurgia realizada nesta quinta-feira. Foi a sensação de que, justamente quando a temporada começa a pedir respostas definitivas, alguém tirou uma das perguntas mais fáceis da prova.

Quem resolve quando o jogo aperta?

Durante anos, o Flamengo teve uma resposta quase automática.

Arrascaeta.

O uruguaio pode não ter sido o jogador que mais correu, o que mais gritou ou o que mais apareceu nas fotografias de cada partida. Mas havia nele uma qualidade que o futebol moderno, tão apaixonado por números e intensidade, às vezes esquece de medir.

A capacidade de entender o jogo antes dos outros.

Aquela bola que chega meio segundo antes.

O passe que parece simples depois que acontece.

O movimento entre dois adversários.

A pausa quando todo mundo queria acelerar.

O chute quando ninguém esperava.

É esse jogador que o Flamengo perdeu temporariamente.

A cirurgia foi concluída com sucesso, segundo o clube, e a previsão inicial é de seis a oito semanas de recuperação. Na prática, Arrascaeta deve ficar fora de uma parte enorme da sequência decisiva do Flamengo, incluindo as semifinais da Libertadores contra o Estudiantes.

E aí começa uma história muito mais interessante do que a simples procura por um substituto.

Porque Arrascaeta não tem substituto.

Pode haver outro meia.

Outro camisa 10.

Outro jogador talentoso.

Mas não existe uma peça que entre em campo e simplesmente receba a missão de ser Arrascaeta.

Futebol não funciona assim.

Ainda bem.

O Flamengo perdeu um jogador. Agora precisa descobrir uma solução

A tentação, nesses momentos, é procurar imediatamente o nome do substituto.

Quem joga?

Carrascal?

Paquetá?

Samuel Lino?

Jardim muda o desenho?

Alguém ganha mais liberdade?

Alguém recua?

Alguém passa a fazer o que antes era dividido entre dois?

São perguntas legítimas.

Mas talvez a principal seja outra.

O Flamengo vai tentar substituir Arrascaeta ou vai tentar substituir aquilo que Arrascaeta fazia pelo time?

Parece a mesma coisa.

Não é.

Substituir o jogador é procurar alguém para ocupar sua posição.

Substituir sua função é fazer o time encontrar outras maneiras de criar, acelerar, respirar e decidir.

E talvez seja exatamente isso que Leonardo Jardim precise fazer.

Porque colocar outro homem na mesma região do campo não significa reproduzir o futebol que o uruguaio oferece.

Há jogadores que ocupam espaços.

Arrascaeta não só ocupa como também interpreta espaços.

Essa diferença não aparece necessariamente na estatística.

Aparece no momento em que o torcedor olha para o campo e pensa:

“Agora vai sair alguma coisa.”

Durante muito tempo, o Flamengo soube para quem entregar a bola

Eu acompanhei gerações inteiras de jogadores.

Vi o Flamengo aprender a jogar sem Zico.

Vi grandes times perderem seus melhores jogadores.

Vi craques chegarem e craques partirem.

E existe uma coisa que aprendi nesses anos todos:

todo grande time precisa, em algum momento, aprender a sobreviver à ausência de seu melhor jogador.

Não porque o craque deixou de ser importante.

Mas porque a dependência absoluta de um único talento costuma aparecer justamente quando a temporada mais exige um coletivo.

O Flamengo está entrando em outubro com cinco jogos pelo Brasileirão e duas semifinais da Libertadores contra o Estudiantes. A sequência começa contra o Santos, em 8 de outubro, e passa pelo clássico com o Fluminense, pelo confronto continental em La Plata, pelo Bahia, pela volta da semifinal no Maracanã, além de Atlético-MG e Vasco.

Não é uma sequência qualquer.

É o trecho do campeonato em que cada escolha começa a carregar consequência.

E Arrascaeta estará olhando tudo de fora.

Talvez seja a hora de parar de procurar outro Arrascaeta

Eu desconfio que Jardim fará um favor ao Flamengo se resistir à tentação de procurar uma cópia.

Porque cópias quase sempre saem piores que o original.

O treinador precisa encontrar outro caminho.

Talvez o Flamengo tenha de dividir entre três jogadores aquilo que antes passava, em determinados momentos, pelos pés de um só.

Talvez Pedro precise receber mais bolas em condições diferentes.

Talvez Paquetá tenha de assumir uma responsabilidade maior na construção.

Talvez Carrascal ganhe mais liberdade.

Talvez Samuel Lino tenha de participar mais por dentro.

Talvez o Flamengo precise acelerar em alguns momentos e controlar em outros.

Não sei qual será a solução.

E, sinceramente, prefiro não saber antes de ver.

Porque é justamente aí que começa o trabalho de um treinador.

A lesão de Arrascaeta não deveria obrigar Jardim a inventar um novo Arrascaeta.

Deveria obrigá-lo a descobrir um novo Flamengo.

Há uma ironia cruel nisso tudo

Arrascaeta se machucou pela seleção uruguaia, durante um amistoso contra a Coreia do Sul, depois de cair e apoiar o peso sobre o punho esquerdo. A fratura exigiu cirurgia.

É dessas coisas que o futebol não explica.

O Flamengo passou semanas esperando a Data Fifa como quem espera uma pausa para respirar.

O calendário finalmente parou.

O elenco ganhou descanso.

Jardim ganhou tempo para preparar a reta final.

E então o futebol devolveu uma das suas ironias mais antigas: quando você acha que ganhou tempo, ele pode cobrar o preço da espera.

Agora o Flamengo terá de seguir sem seu camisa 10.

E isso acontece justamente quando o calendário fica mais pesado.

O torcedor vai precisar ter memória — mas também paciência

Arrascaeta virou uma referência tão grande que existe um risco de julgamento injusto.

Se o Flamengo criar pouco, alguém dirá que é porque Arrascaeta não está.

Se alguém perder um gol, lembrarão do uruguaio.

Se uma jogada não sair, alguém perguntará onde está o camisa 10.

E assim o ausente começa a jogar mesmo sem poder jogar.

É uma armadilha.

O Flamengo precisa respeitar a importância de Arrascaeta sem transformar sua ausência em desculpa permanente.

Porque o futebol não devolve jogador por nostalgia.

E o campeonato não espera.

Talvez esse seja o verdadeiro teste de Jardim

Treinador costuma ser cobrado quando perde.

Mas há outro tipo de teste, mais silencioso.

É quando o treinador perde uma peça fundamental e precisa convencer o time de que o futebol continua existindo.

Jardim terá de fazer isso agora.

Sem Arrascaeta.

Sem a possibilidade de simplesmente repetir o que vinha funcionando.

E com uma semifinal de Libertadores esperando logo ali.

O Flamengo pode lamentar a ausência do uruguaio.

Deve lamentar.

Mas não pode jogar olhando para o banco à espera de alguém que não estará lá.

Terá de olhar para o campo.

Para os outros.

Para aquilo que ainda tem.

Porque um grande time também se mede pelo que faz quando perde o craque

Há uma frase que o futebol gosta de repetir:

“Todo time precisa de um craque.”

É verdade.

Mas existe outra, menos bonita e talvez mais importante:

todo grande time precisa continuar sendo um time quando o craque não está.

É aí que a temporada ganha outra dimensão.

Se o Flamengo conseguir atravessar outubro competitivo, continuar brigando pelo Brasileirão e chegar à final da Libertadores sem Arrascaeta, ninguém poderá dizer que o uruguaio deixou de ser importante.

Será justamente o contrário.

A ausência dele terá mostrado o tamanho daquilo que ele representava.

Mas também poderá mostrar o tamanho do Flamengo que existe ao redor dele.

E talvez seja essa a grande pergunta que outubro deixou sobre a mesa.

Não “quem será o novo Arrascaeta?”.

Essa pergunta não tem resposta.

A pergunta certa é outra:

quem será o Flamengo sem Arrascaeta?

Depois de tantos anos vendo o uruguaio resolver jogos, criar espaços e colocar ordem onde parecia haver apenas confusão, chegou a hora de descobrir se o Flamengo construiu uma equipe capaz de sobreviver ao silêncio do seu camisa 10.

Eu gostaria de acreditar que sim.

Mas o futebol me ensinou a desconfiar de certezas antes do apito inicial.

Então deixemos a resposta para o campo.

Porque quando a bola voltar a rolar, Arrascaeta estará em casa.

E o Flamengo estará sozinho.

Pela primeira vez em muito tempo, sem poder entregar a bola ao uruguaio e esperar que ele invente alguma coisa.

Talvez seja ruim.

Talvez seja doloroso.

Mas pode também ser o momento em que outros jogadores descubram que o Flamengo não termina quando Arrascaeta sai de cena.

Craques fazem história.

Times sobrevivem a ela.

E agora, mais do que nunca, Jardim terá de provar que construiu um time.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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