O Flamengo deu três motivos para sorrir, mas deixou a festa pela metade
05 de novembro de 2026
Depois do Apito: O Flamengo deu três motivos para sorrir, mas deixou a festa pela metade
O Maracanã tem uma característica curiosa: quando o Flamengo começa a jogar bem, a torcida não se contenta com o resultado. Quer mais um gol, depois outro, e, se possível, uma noite daquelas que ficam guardadas na memória. Nesta quarta-feira, contra o Grêmio, o time entregou quase tudo isso em 45 minutos. O problema é que o futebol resolveu ir embora para o intervalo antes da arquibancada.
O primeiro tempo foi daqueles que fazem a gente lembrar por que continua frequentando estádio, mesmo depois de tantos domingos, quartas-feiras e decepções acumuladas. Havia velocidade, aproximação, talento e uma equipe que parecia saber exatamente o que fazer com a bola. Arrascaeta encontrou Samuel Lino, que precisou de duas tentativas para abrir o placar. Depois, Carrascal resolveu transformar uma jogada comum em uma pequena obra de arte: um lençol, um passe e Pedro, com a frieza de quem conhece o caminho das redes, fez o segundo.
O terceiro gol veio antes do intervalo, novamente com Pedro, aproveitando o rebote de uma finalização de Samuel Lino. Três a zero. A conta parecia generosa, mas não injusta. O Flamengo tinha sido superior, havia encontrado espaços e oferecido ao torcedor um repertório que não se compra em loja de material esportivo: criatividade, improviso e a sensação de que alguma coisa especial poderia acontecer a qualquer momento.
É justamente aí que mora a contradição da noite. O Flamengo voltou para o segundo tempo como quem já tinha cumprido a obrigação e precisava apenas assinar o recibo. O Grêmio, que até então pouco havia conseguido fazer, encontrou espaço para respirar. O time rubro-negro diminuiu a intensidade, perdeu parte da capacidade de criar e deixou o adversário acreditar que ainda havia alguma coisa em disputa.
É verdade que havia motivos para administrar o esforço. Carrascal e Ayrton Lucas foram substituídos no intervalo, e Leonardo Jardim explicou depois que os dois apresentavam sobrecarga. Arrascaeta também deixou o campo sentindo fadiga. O calendário não costuma perguntar se o jogador está cansado; simplesmente apresenta a próxima partida. Há uma responsabilidade em preservar o elenco, sobretudo nesta altura da temporada. Mas administrar o físico não precisa significar abandonar o jogo.
No fim, ficaram os três pontos, os 76 na tabela e a vantagem provisória de seis sobre o Palmeiras. Ficou também a imagem de Pedro fazendo dois gols, de Carrascal inventando um passe que merecia aplauso e de Samuel Lino insistindo até encontrar a rede. Não é pouca coisa. O Flamengo fez o que precisava no campeonato e deu uma resposta importante depois da vitória sobre o Vasco.
Mas há uma diferença entre cumprir a missão e aproveitar a viagem. O torcedor que saiu do Maracanã levou para casa a vitória, a liderança e a lembrança de um primeiro tempo muito bom. Também levou a sensação de que aquela noite poderia ter sido ainda maior. Talvez seja uma cobrança exigente, mas é a cobrança que acompanha um clube que aprendeu a conviver com grandes times e grandes expectativas.
Miguel Sampaio já viu muita coisa naquele estádio para confundir uma vitória segura com uma atuação perfeita. O Flamengo não precisava transformar o segundo tempo em outro espetáculo, muito menos colocar a saúde dos jogadores em risco. Precisava apenas conservar um pouco da ambição que havia exibido antes do intervalo. Porque, quando o Maracanã começa a acreditar que está diante de uma noite especial, três gols podem ser suficientes para vencer — mas nem sempre são suficientes para encerrar a festa.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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