O Flamengo ganhou de três, mas o futebol não cabe na conta
19 de outubro de 2026
Não me entendam mal. O Flamengo mereceu vencer. Criou oportunidades, insistiu quando a bola parecia ter firmado um acordo particular com Ronaldo e terminou a partida com uma superioridade que o resultado não exagera. O problema é que o futebol não se resume à fotografia tirada depois do apito final. Se alguém olhar apenas para o 3 a 0, poderá imaginar uma tarde sem sobressaltos, uma daquelas partidas em que o time entra, cumpre a obrigação e vai embora. Quem assistiu aos primeiros 45 minutos sabe que não foi bem assim. O placar foi confortável; o caminho, nem tanto.
Ronaldo, o goleiro do Bahia, merece uma menção que não seja apenas protocolar. Fez defesas importantes, resistiu a finalizações que já pareciam destinadas à rede e manteve sua equipe respirando quando o Flamengo rondava a área adversária com insistência. Há noites em que o goleiro perde por três e sai diminuído. Outras em que perde por três e deixa a impressão de ter evitado um desastre maior. Ronaldo esteve mais perto da segunda situação. O futebol, que distribui glórias com generosidade e injustiças com uma eficiência quase administrativa, nem sempre oferece ao goleiro a recompensa que o seu trabalho merece.
Do outro lado, Pedro teve oportunidades que um centroavante do seu tamanho gostaria de rever com menos carinho. Não precisa transformar cada chance desperdiçada em julgamento público, nem fingir que um atacante deixa de ser bom porque não acertou tudo numa tarde. Mas também não precisamos dourar a pílula. O Flamengo poderia ter chegado ao intervalo em vantagem, e a falta de precisão deixou a partida aberta por mais tempo do que deveria. A diferença entre uma tarde tranquila e uma tarde de nervos à flor da pele, às vezes, está justamente naquela bola que passa perto, naquela defesa que parece impossível ou naquele chute que sai sem a força necessária.
E houve o susto de Agustín Rossi. Uma saída de bola mal executada quase ofereceu ao Bahia aquilo que o Flamengo não conseguia produzir para si: uma oportunidade de mudar a história da partida. Erick Pulgar precisou interromper a jogada e recebeu cartão amarelo. O lance terminou sem gol, mas não merece desaparecer sob a sombra generosa do placar. Goleadas também têm rodapés. O erro não condena Rossi, assim como as defesas de Ronaldo não o transformam em herói absoluto. Apenas lembra que, no futebol, a confiança é uma coisa útil até o momento em que começa a dispensar o cuidado.
Jorginho tratou de aliviar a inquietação. Quando Carrascal sofreu o pênalti, o Flamengo recebeu a chance de colocar alguma ordem naquela tarde. O volante cobrou, marcou e fez o que precisava ser feito. Não foi um gol para entrar em antologias, mas foi daqueles que mudam o humor de uma partida. Há cobranças que valem pelo movimento da rede e outras pelo peso que retiram dos ombros de um time. A de Jorginho pertenceu à segunda categoria. O empate que começava a parecer teimoso virou vantagem, e a vantagem permitiu que o Flamengo respirasse de outra maneira.
E então Lucas Paquetá resolveu que a noite precisava de uma assinatura. Entrou, recebeu a bola e fez o que não cabe direito numa planilha de desempenho. Um chapéu de cabeça, o drible seguinte, a finalização e a rede. Foi um daqueles lances que fazem até o torcedor adversário esquecer por um instante a obrigação de não gostar. Não é necessário transformar Paquetá em personagem de epopeia, nem anunciar que um gol resolveu todas as questões que o cercam. Basta reconhecer o que se viu: talento, improviso e uma execução que devolve ao futebol algo que a discussão permanente sobre resultados às vezes nos faz esquecer — o prazer de assistir.
Tenho certa desconfiança de quem assiste a uma partida apenas para conferir se a sua tese estava certa. O Flamengo ganhou e, por isso, muita gente vai tratar cada decisão como acertada e cada problema como detalhe sem importância. Se tivesse empatado, os mesmos lances talvez servissem para provar que nada funciona. O resultado influencia a memória, mas não deveria governá-la por inteiro. A vitória na Fonte Nova foi importante, bonita em sua construção final e valiosa para a disputa do Brasileiro. Também foi uma partida em que o Flamengo perdeu chances, sofreu um susto evitável e demorou a transformar a superioridade em vantagem. Uma coisa não anula a outra.
A liderança recuperada tem seu valor. O Flamengo chegou aos 67 pontos, passou novamente à frente do Palmeiras e manteve a disputa nacional apertada. Mas a tabela é uma fotografia tirada no fim de uma rodada; a temporada, essa senhora pouco impressionável, continua andando. Na quinta-feira, o Maracanã recebe o Estudiantes para a decisão da semifinal da Libertadores, depois do empate sem gols na Argentina. A Fonte Nova oferece confiança, não garantia. É bom levar os três gols na bagagem, sobretudo o de Paquetá, mas seria prudente deixar espaço para a concentração e para a memória dos erros que não terminaram em castigo.
O torcedor rubro-negro conhece essa mistura. Já saiu do estádio celebrando uma vitória e passou a viagem de volta discutindo o que quase deu errado. Já viu o Flamengo transformar uma noite comum em lembrança duradoura e também aprendeu que nenhum escudo dispensa o trabalho de todos os domingos. Talvez seja essa a parte mais honesta de gostar de futebol: a gente comemora sem precisar declarar perfeição, critica sem precisar decretar o fim do mundo e guarda os lances bonitos porque sabe que eles não aparecem por encomenda.
Na Fonte Nova, o Flamengo fez três, retomou a liderança e ofereceu ao torcedor uma noite de alívio. Paquetá deixou um daqueles gols que merecem ser revistos; Ronaldo lembrou que até numa derrota há quem sustente a dignidade do jogo. Entre uma coisa e outra, ficaram os sinais de que a temporada não se resolve numa goleada, assim como não se perde numa tarde de dificuldades. O placar já está escrito. O que o Flamengo fará com o que aprendeu é a parte que ainda falta jogar.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
Publicidade
728x90




