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Brasileirão - 4 rodada

02 de setembro, 202619:30
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Opinião

O Flamengo voltou a ganhar. Mas será que voltou a convencer?

MI

Por Miguel Sampaio

01 de setembro de 2026

19 acessos

Há vitórias que terminam no apito.

E há vitórias que continuam na cabeça do torcedor durante a semana.

O 3 a 0 sobre o Botafogo pertence à segunda categoria.

Não porque tenha sido uma vitória complicada. Pelo contrário. O Flamengo fez três, poderia ter feito quatro, cinco, talvez seis, e passou boa parte do primeiro tempo jogando com a sensação de que o gol seguinte era apenas uma questão de tempo.

Mas futebol não é matemática.

E o Flamengo, ultimamente, parece ter desenvolvido uma relação curiosa com a matemática.

Cria muito. Finaliza muito. Domina muito. E, às vezes, marca menos gols do que deveria.

É um problema antigo por aqui. Tão antigo que já ganhou intimidade com a arquibancada.

O torcedor vê a bola atravessar a pequena área sem encontrar ninguém e já sabe. Fecha os olhos. Respira. Olha para o sujeito ao lado.

"Vai fazer falta."

É quase um ritual.

Contra o Botafogo, por sorte, não fez.

O primeiro tempo poderia ter terminado com uma vantagem maior. E talvez esse seja o detalhe mais interessante da vitória: o Flamengo fez uma partida suficientemente boa para ganhar por 3 a 0, mas não suficientemente perfeita para que ninguém encontrasse um defeito depois.

É o preço de jogar no Flamengo.

Aqui, três a zero não encerra a discussão.

Às vezes, começa.

Eu me lembro de quando uma vitória por três gols de diferença era capaz de deixar o torcedor satisfeito por alguns dias. Hoje, dependendo do adversário e da maneira como o jogo aconteceu, ainda sobra gente procurando o quarto gol que não veio.

Não é necessariamente ingratidão.

É expectativa.

O Flamengo cresceu tanto nos últimos anos que acabou criando um problema que os outros clubes provavelmente adorariam ter: ficou difícil surpreender o próprio torcedor.

Ganhar virou obrigação.

Dominar virou obrigação.

Jogar bem virou obrigação.

E, se possível, fazer tudo isso sem sofrer.

É uma conta alta.

Mas há outra conta que precisa ser feita.

O Flamengo caiu de rendimento no segundo tempo.

E isso não desaparece porque o placar terminou bonito.

Durante alguns minutos, o Botafogo encontrou espaços, o Flamengo perdeu intensidade e aquela partida que parecia resolvida começou a lembrar que futebol tem o péssimo hábito de não respeitar roteiro.

Foi aí que Leonardo Jardim mexeu.

E a entrada de Carrascal trouxe novamente uma dose de movimento que o time havia perdido.

Não é apenas sobre o jogador que entra.

É sobre aquilo que muda quando ele entra.

O Flamengo voltou a encontrar caminhos, voltou a incomodar e recuperou parte da energia que havia desaparecido.

É uma característica de times grandes: eles não precisam jogar noventa minutos da mesma maneira.

Precisam saber sobreviver quando não conseguem.

Talvez essa seja uma das diferenças entre um bom time e um time que pode ganhar coisas importantes.

O Flamengo ainda está aprendendo isso.

E talvez seja justamente por isso que eu prefira não transformar cada oscilação em crise.

Há uma ansiedade no futebol de hoje que me incomoda.

O sujeito ganha na quarta e precisa provar que é campeão na quinta.

Perde no domingo e já precisa explicar por que o projeto acabou.

O futebol virou um lugar onde ninguém pode simplesmente estar no meio do caminho.

Ou é gênio. Ou é fracasso.

Ou é craque. Ou é pereba.

Ou o treinador descobriu tudo. Ou não sabe nada.

Calma!

Futebol não costuma funcionar assim.

Um time pode vencer e ainda ter problemas.

Pode jogar mal e continuar sendo bom.

Pode estar em evolução. Pode ter defeitos. Pode até melhorar.

Essa última possibilidade, curiosamente, anda esquecida.

O Flamengo venceu o Botafogo por 3 a 0.

É uma boa notícia.

Muito boa.

Mas a notícia melhor talvez esteja em outro lugar.

O Flamengo voltou a mostrar que pode controlar um clássico, criar oportunidades, pressionar o adversário e transformar superioridade em resultado.

Ainda precisa aprender a matar alguns jogos antes que eles voltem à vida. Precisa aproveitar melhor as chances. Precisa sustentar intensidade.

Precisa, principalmente, entender que nem todo jogo precisa ser uma demonstração de força durante noventa minutos para ser uma grande vitória.

O torcedor vai continuar cobrando.

E deve.

Porque cobrança também é parte da nossa grandeza.

Mas há uma diferença entre exigir mais e nunca reconhecer o que já foi feito.

Eu vi muitos Flamengos diferentes durante toda a minha vida.

Vi times melhores e vi times piores.

Vi times que encantavam e não ganhavam.

Vi times que ganhavam sem encantar ninguém.

E aprendi uma coisa que talvez o futebol moderno tenha esquecido:

Há noites em que a gente pode simplesmente ir para casa feliz.

O Flamengo ganhou de 3 a 0.

Jogou bem em boa parte do tempo. Criou chances, perdeu chances, se descontrolou, mas, conseguiu corrigir os problemas.

Teve seus defeitos.

E saiu do Maracanã com três pontos e uma certeza razoável de que ainda pode melhorar.

Não é pouca coisa.

No Flamengo, ganhar nunca foi suficiente.

Talvez esse seja o nosso maior defeito.

Ou, quem sabe, a razão pela qual continuamos crescendo tanto.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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