O Flamengo voltou a ganhar. Mas será que voltou a convencer?
01 de setembro de 2026
Há vitórias que terminam no apito.
E há vitórias que continuam na cabeça do torcedor durante a semana.
O 3 a 0 sobre o Botafogo pertence à segunda categoria.
Não porque tenha sido uma vitória complicada. Pelo contrário. O Flamengo fez três, poderia ter feito quatro, cinco, talvez seis, e passou boa parte do primeiro tempo jogando com a sensação de que o gol seguinte era apenas uma questão de tempo.
Mas futebol não é matemática.
E o Flamengo, ultimamente, parece ter desenvolvido uma relação curiosa com a matemática.
Cria muito. Finaliza muito. Domina muito. E, às vezes, marca menos gols do que deveria.
É um problema antigo por aqui. Tão antigo que já ganhou intimidade com a arquibancada.
O torcedor vê a bola atravessar a pequena área sem encontrar ninguém e já sabe. Fecha os olhos. Respira. Olha para o sujeito ao lado.
"Vai fazer falta."
É quase um ritual.
Contra o Botafogo, por sorte, não fez.
O primeiro tempo poderia ter terminado com uma vantagem maior. E talvez esse seja o detalhe mais interessante da vitória: o Flamengo fez uma partida suficientemente boa para ganhar por 3 a 0, mas não suficientemente perfeita para que ninguém encontrasse um defeito depois.
É o preço de jogar no Flamengo.
Aqui, três a zero não encerra a discussão.
Às vezes, começa.
Eu me lembro de quando uma vitória por três gols de diferença era capaz de deixar o torcedor satisfeito por alguns dias. Hoje, dependendo do adversário e da maneira como o jogo aconteceu, ainda sobra gente procurando o quarto gol que não veio.
Não é necessariamente ingratidão.
É expectativa.
O Flamengo cresceu tanto nos últimos anos que acabou criando um problema que os outros clubes provavelmente adorariam ter: ficou difícil surpreender o próprio torcedor.
Ganhar virou obrigação.
Dominar virou obrigação.
Jogar bem virou obrigação.
E, se possível, fazer tudo isso sem sofrer.
É uma conta alta.
Mas há outra conta que precisa ser feita.
O Flamengo caiu de rendimento no segundo tempo.
E isso não desaparece porque o placar terminou bonito.
Durante alguns minutos, o Botafogo encontrou espaços, o Flamengo perdeu intensidade e aquela partida que parecia resolvida começou a lembrar que futebol tem o péssimo hábito de não respeitar roteiro.
Foi aí que Leonardo Jardim mexeu.
E a entrada de Carrascal trouxe novamente uma dose de movimento que o time havia perdido.
Não é apenas sobre o jogador que entra.
É sobre aquilo que muda quando ele entra.
O Flamengo voltou a encontrar caminhos, voltou a incomodar e recuperou parte da energia que havia desaparecido.
É uma característica de times grandes: eles não precisam jogar noventa minutos da mesma maneira.
Precisam saber sobreviver quando não conseguem.
Talvez essa seja uma das diferenças entre um bom time e um time que pode ganhar coisas importantes.
O Flamengo ainda está aprendendo isso.
E talvez seja justamente por isso que eu prefira não transformar cada oscilação em crise.
Há uma ansiedade no futebol de hoje que me incomoda.
O sujeito ganha na quarta e precisa provar que é campeão na quinta.
Perde no domingo e já precisa explicar por que o projeto acabou.
O futebol virou um lugar onde ninguém pode simplesmente estar no meio do caminho.
Ou é gênio. Ou é fracasso.
Ou é craque. Ou é pereba.
Ou o treinador descobriu tudo. Ou não sabe nada.
Calma!
Futebol não costuma funcionar assim.
Um time pode vencer e ainda ter problemas.
Pode jogar mal e continuar sendo bom.
Pode estar em evolução. Pode ter defeitos. Pode até melhorar.
Essa última possibilidade, curiosamente, anda esquecida.
O Flamengo venceu o Botafogo por 3 a 0.
É uma boa notícia.
Muito boa.
Mas a notícia melhor talvez esteja em outro lugar.
O Flamengo voltou a mostrar que pode controlar um clássico, criar oportunidades, pressionar o adversário e transformar superioridade em resultado.
Ainda precisa aprender a matar alguns jogos antes que eles voltem à vida. Precisa aproveitar melhor as chances. Precisa sustentar intensidade.
Precisa, principalmente, entender que nem todo jogo precisa ser uma demonstração de força durante noventa minutos para ser uma grande vitória.
O torcedor vai continuar cobrando.
E deve.
Porque cobrança também é parte da nossa grandeza.
Mas há uma diferença entre exigir mais e nunca reconhecer o que já foi feito.
Eu vi muitos Flamengos diferentes durante toda a minha vida.
Vi times melhores e vi times piores.
Vi times que encantavam e não ganhavam.
Vi times que ganhavam sem encantar ninguém.
E aprendi uma coisa que talvez o futebol moderno tenha esquecido:
Há noites em que a gente pode simplesmente ir para casa feliz.
O Flamengo ganhou de 3 a 0.
Jogou bem em boa parte do tempo. Criou chances, perdeu chances, se descontrolou, mas, conseguiu corrigir os problemas.
Teve seus defeitos.
E saiu do Maracanã com três pontos e uma certeza razoável de que ainda pode melhorar.
Não é pouca coisa.
No Flamengo, ganhar nunca foi suficiente.
Talvez esse seja o nosso maior defeito.
Ou, quem sabe, a razão pela qual continuamos crescendo tanto.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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