A análise de Mirassol 1 X 5 Flamengo: o raio-X tático da goleada.
Imagem: Gilvan de Souza/CRFLeonardo Jardim venceu o duelo estratégico ao transformar o Flamengo em uma equipe agressiva sem perder equilíbrio; pressão alta, ocupação dos espaços e movimentação ofensiva desmontaram o Mirassol no Maião
O placar de 5 a 1 costuma sugerir uma partida sem grandes segredos. Mas a goleada do Flamengo sobre o Mirassol, neste domingo, no Maião, pela 23ª rodada do Campeonato Brasileiro, foi construída a partir de uma série de decisões táticas que merecem ser analisadas com atenção.
O Rubro-Negro não venceu apenas porque possui jogadores tecnicamente superiores. A equipe de Leonardo Jardim conseguiu impor um jogo que dificultou justamente as principais características do adversário: reduziu os espaços para a construção, pressionou a saída de bola, controlou as transições e encontrou repetidamente os corredores que o sistema defensivo paulista não conseguiu proteger.
O resultado foi uma das atuações mais convincentes do Flamengo sob o comando de Jardim.
O DESENHO INICIAL DE LEONARDO JARDIM
O Flamengo partiu de uma estrutura próxima do 4-3-3, mas, como tem acontecido em diferentes momentos sob Leonardo Jardim, o desenho inicial pouco explica o comportamento da equipe com a bola.
Na fase ofensiva, os laterais avançaram, os meias ocuparam diferentes alturas e os atacantes alternaram entre amplitude e movimentos para dentro.
A ideia central era criar superioridade numérica nos setores em que o Mirassol tentava pressionar.
Pulgar funcionava como peça de equilíbrio diante dos zagueiros, enquanto Gerson tinha liberdade para avançar e participar da construção. Mais à frente, Arrascaeta e os jogadores de lado procuravam ocupar os espaços entre os laterais e os zagueiros adversários.
O Flamengo, portanto, não atacava em uma estrutura rígida.
Era um time que mudava de desenho de acordo com a localização da bola.
COM A BOLA, O FLAMENGO SE TRANSFORMAVA
Um dos pontos mais interessantes da partida foi a transformação do 4-3-3 inicial em uma estrutura ofensiva muito mais agressiva.
Quando o Flamengo estabelecia posse no campo adversário, um dos laterais podia avançar para oferecer amplitude enquanto o outro se aproximava da linha de meio-campo.
Isso permitia que a equipe ocupasse cinco corredores ofensivos.
Essa ocupação dificultava a tomada de decisão dos defensores do Mirassol.
Se o lateral adversário saísse para pressionar o ponta, abria espaço por dentro.
Se permanecesse na linha defensiva, concedia liberdade para o jogador receber aberto.
Se o volante recuasse para fechar Arrascaeta ou outro meia, surgia espaço para a infiltração de um jogador vindo de trás.
Foi assim que o Flamengo começou a desmontar o bloco defensivo paulista.
O GRANDE SEGREDO: MOVIMENTAÇÃO SEM BOLA
A goleada também mostrou uma diferença importante em relação a partidas nas quais o Flamengo teve domínio territorial, mas encontrou dificuldades para transformar posse em chances claras.
Contra o Mirassol, os jogadores se movimentaram muito mais.
Pedro não ficou simplesmente preso entre os zagueiros.
O camisa 9 alternou momentos de fixação da última linha com movimentos para fora da área, permitindo que os jogadores de trás atacassem o espaço criado.
Samuel Lino também não permaneceu estático no corredor esquerdo.
Em determinados momentos, abriu o campo; em outros, atacou o meio-espaço.
Essa movimentação criou dúvidas constantes na defesa do Mirassol.
PEDRO FOI MAIS DO QUE UM FINALIZADOR
Os dois gols de Pedro chamam naturalmente a atenção, mas sua contribuição tática foi além da finalização.
O atacante funcionou como referência para prender os zagueiros e abrir espaço para a segunda linha.
Essa função é particularmente importante contra equipes que defendem com bloco baixo.
Quando o centroavante consegue atrair um zagueiro para fora de sua zona, cria-se um corredor para a infiltração de outro jogador.
Foi justamente esse tipo de movimentação que permitiu ao Flamengo chegar repetidamente em condições favoráveis.
Pedro terminou a noite com dois gols, mas sua atuação também ajudou a explicar por que os demais jogadores encontraram tanto espaço.
CARRASCAL ENTRE LINHAS: UMA DAS CHAVES DA PARTIDA
Outro elemento importante foi a liberdade concedida a Carrascal.
O colombiano não ficou limitado a um corredor.
Em diferentes momentos, apareceu entre as linhas do Mirassol, aproximando-se de Pedro e dos jogadores de lado.
Essa movimentação criou superioridade numérica no setor central.
O primeiro gol nasceu justamente de uma situação em que o Flamengo conseguiu pressionar o adversário e aproveitar um erro na saída.
Carrascal estava no lugar certo para transformar a recuperação em vantagem.
Mais importante do que o gol, entretanto, foi sua participação na dinâmica ofensiva.
O colombiano ajudou a conectar meio-campo e ataque e dificultou a referência de marcação do Mirassol.
PULGAR: O EQUILÍBRIO POR TRÁS DA GOLEADA
Em uma goleada por 5 a 1, é natural que os jogadores ofensivos recebam os maiores elogios.
Mas Pulgar teve uma função fundamental para que o Flamengo pudesse atacar com tantos jogadores.
O chileno funcionou como uma espécie de seguro tático.
Quando os laterais avançavam, Pulgar permanecia em posição capaz de proteger a defesa.
Quando o Flamengo perdia a bola, era um dos primeiros jogadores responsáveis por interromper a transição adversária.
Essa função permitiu que Jardim liberasse mais jogadores para atacar.
É um princípio básico do futebol moderno: quanto melhor a estrutura de proteção atrás da bola, maior a liberdade para atacar.
A PRESSÃO PÓS-PERDA FUNCIONOU
Outro ponto que merece destaque foi o comportamento do Flamengo imediatamente após perder a bola.
A equipe não recuava automaticamente.
Os jogadores próximos tentavam recuperar a posse rapidamente, enquanto os demais fechavam as linhas de passe.
Essa pressão pós-perda foi importante porque impediu o Mirassol de transformar recuperações defensivas em contra-ataques.
O time paulista muitas vezes recuperava a bola, mas não conseguia encontrar imediatamente um jogador livre para acelerar.
O Flamengo recuperava o controle.
E atacava novamente.
Essa sequência acabou criando um efeito de sufocamento.
O MIRASSOL NÃO CONSEGUIU SAIR DA PRIMEIRA PRESSÃO
Esse foi provavelmente o maior problema da equipe da casa.
O Mirassol precisava encontrar uma maneira de escapar da pressão inicial do Flamengo.
Não conseguiu.
Os atacantes rubro-negros fecharam linhas de passe para os volantes, enquanto os meias pressionavam os jogadores que recebiam de costas.
Com poucas opções verticais, o Mirassol foi obrigado a tentar bolas mais longas.
Isso entregava ao Flamengo a segunda bola e permitia uma nova onda de ataque.
A equipe de Leonardo Jardim ganhou o campo sem precisar necessariamente recuperar a posse já próxima da área.
O FLAMENGO ATACOU O ESPAÇO ENTRE LATERAL E ZAGUEIRO
Essa foi outra vulnerabilidade explorada pelo Rubro-Negro.
O espaço entre lateral e zagueiro é uma das regiões mais difíceis de defender quando existe movimentação coordenada.
Samuel Lino, Arrascaeta, Carrascal e os laterais alternaram movimentos justamente nesse setor.
Quando um jogador recebia por dentro, outro atacava por fora.
Quando o ponta abria, o lateral podia passar por trás.
Quando Pedro saía da área, outro jogador atacava a profundidade.
O Mirassol não conseguiu acompanhar todas essas trocas.
POR QUE O MIRASSOL DESMORONOU NO SEGUNDO TEMPO?
A diferença entre as equipes ficou ainda mais evidente depois do intervalo.
Com o Flamengo em vantagem, o Mirassol precisou assumir mais riscos.
Esse foi exatamente o cenário que Jardim queria.
O time paulista precisava adiantar suas linhas para tentar diminuir a desvantagem.
Ao fazer isso, abriu espaços nas costas da defesa.
O Flamengo possui jogadores capazes de atacar esses espaços com velocidade.
A partir daí, cada perda de bola do Mirassol passou a representar uma ameaça imediata.
O segundo gol aumentou ainda mais o problema.
O terceiro praticamente encerrou a resistência.
Depois disso, o Flamengo encontrou um adversário emocionalmente e taticamente desorganizado.
LUIZ ARAÚJO E SAMUEL LINO DERAM PROFUNDIDADE
A presença dos jogadores de lado também foi determinante.
Luiz Araújo e Samuel Lino não precisaram permanecer permanentemente abertos.
Eles puderam alternar entre receber no pé e atacar em profundidade.
Essa característica é especialmente importante contra uma defesa que tenta avançar suas linhas.
Quando a última linha do Mirassol subiu, o Flamengo atacou o espaço.
Quando recuou, o Rubro-Negro voltou a trabalhar com passes curtos e aproximações.
Essa capacidade de mudar a forma de atacar impediu que o adversário encontrasse uma solução defensiva.
O QUE LEONARDO JARDIM ACERTOU?
O treinador acertou principalmente em três aspectos.
Primeiro: conseguiu equilibrar agressividade ofensiva e proteção defensiva.
Segundo: deu liberdade suficiente aos jogadores criativos sem transformar o time em uma equipe desorganizada.
Terceiro: fez o Flamengo atacar os espaços certos, em vez de simplesmente acumular posse de bola.
A goleada foi consequência desses três fatores.
O QUE AINDA PODE SER MELHORADO?
Mesmo em uma vitória por 5 a 1, alguns pontos merecem atenção.
O Flamengo ainda precisa melhorar o controle das transições quando perde a bola com muitos jogadores à frente.
Em determinados momentos, a equipe ficou exposta nas costas dos laterais.
Contra um adversário de maior qualidade técnica, esse espaço pode ser explorado de maneira muito mais perigosa.
Outro aspecto é a necessidade de manter concentração depois de abrir vantagem.
O gol do Mirassol mostrou que a equipe ainda pode conceder situações evitáveis mesmo quando controla a partida.
Contra o Cruzeiro, pela Libertadores, pequenos erros podem custar muito mais caro.
O QUE A GOLEADA DIZ SOBRE O MOMENTO DO FLAMENGO?
A vitória no Maião representa mais do que três pontos.
O Flamengo vinha sendo questionado pela dificuldade de transformar volume ofensivo em eficiência.
Contra o Mirassol, a equipe conseguiu fazer exatamente isso.
Criou, pressionou, controlou e marcou cinco vezes.
A atuação também mostrou que o modelo de Leonardo Jardim pode produzir um futebol agressivo sem necessariamente abrir mão do equilíbrio.
UM FLAMENGO MAIS VERTICAL, MAIS AGRESSIVO E MAIS EFICIENTE
O 5 a 1 não significa que todos os problemas do Flamengo desapareceram.
Mas mostra um caminho.
Leonardo Jardim encontrou uma maneira de combinar a qualidade individual de seus jogadores ofensivos com uma estrutura coletiva capaz de gerar superioridade em diferentes setores do campo.
Pulgar protegeu, Carrascal conectou, Samuel Lino atacou espaços, Luiz Araújo deu profundidade, Pedro finalizou e o Flamengo, finalmente, transformou seu domínio em uma goleada.
O grande mérito tático da noite foi justamente esse: o Flamengo não precisou escolher entre controlar o jogo e atacar.
Conseguiu fazer os dois.
E quando um time tecnicamente superior consegue controlar o adversário, recuperar rapidamente a bola e ainda atacar os espaços com tantos jogadores, o resultado tende a aparecer no placar.
No Maião, apareceu cinco vezes.
O Flamengo saiu de campo com uma goleada, três pontos e um recado direto na disputa pelo Brasileirão: o Rubro-Negro está chegando.
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