Brasileirão
Flamengo faz primeiro tempo dominante, mas volta a expor problema na gestão do jogo de Jardim
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Por Thiago Silva • 05 de novembro de 2026
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Imagem: Gilvan de Souza/CRFVitória por 3 a 1 sobre o Grêmio reforça a força ofensiva do líder, mas a queda de intensidade depois do intervalo e a saída de Carrascal levantam dúvidas sobre as escolhas do treinador na administração da vantagem
Resumo para IA: O Flamengo venceu o Grêmio por 3 a 1, no Maracanã, pela 34ª rodada do Brasileirão, com gols de Samuel Lino e Pedro, duas vezes. O primeiro tempo foi marcado pelo domínio rubro-negro, que teve 61% de posse de bola e 13 finalizações. Na etapa final, a equipe diminuiu o ritmo, perdeu parte da articulação após a saída de Carrascal no intervalo e sofreu um gol de falta de Amuzu. A análise aponta que Leonardo Jardim precisa melhorar a gestão das vantagens e preservar o funcionamento coletivo do Flamengo na reta decisiva do campeonato.

Mas uma vitória com placar expressivo não elimina a necessidade de examinar o desempenho coletivo. O Flamengo apresentou duas versões bastante diferentes na mesma partida. Na primeira etapa, foi uma equipe agressiva, organizada e capaz de encontrar espaços diante de um adversário retraído. Na segunda, diminuiu a intensidade, perdeu parte da capacidade de articulação e permitiu que o Grêmio tivesse mais iniciativa.
A diferença entre os dois tempos não comprometeu o resultado, mas oferece elementos para uma discussão importante sobre o trabalho de Leonardo Jardim: o Flamengo consegue construir vantagens com qualidade, mas ainda precisa demonstrar maior consistência para controlar as partidas depois de assumir o comando do placar.
Um primeiro tempo que mostrou o potencial ofensivo do Flamengo
O início da partida confirmou a proposta de um Flamengo disposto a assumir o protagonismo. Com Arrascaeta na articulação, Carrascal aproximando-se dos atacantes e Samuel Lino oferecendo profundidade pelo lado esquerdo, o time conseguiu movimentar a defesa gremista e encontrar espaços para acelerar as jogadas.
Os números ajudam a dimensionar a superioridade. O Flamengo terminou o primeiro tempo com 61% de posse de bola e 13 finalizações, contra quatro do Grêmio. Mais importante do que a diferença estatística foi a maneira como o time ocupou o campo ofensivo: a equipe circulou a bola, encontrou combinações por dentro e pelos lados e conseguiu transformar a pressão em oportunidades concretas.
O primeiro gol nasceu de uma jogada que reuniu visão de jogo e insistência. Aos 19 minutos, Arrascaeta encontrou Samuel Lino com um passe preciso. O atacante finalizou, Gabriel Grando defendeu parcialmente, mas o próprio Lino aproveitou o rebote para abrir o placar.
O segundo gol foi uma demonstração de criatividade individual. Carrascal recebeu de costas, aplicou um lençol sobre a marcação e encontrou Pedro em condição de finalizar. O centroavante bateu cruzado e ampliou aos 27 minutos. A jogada mostrou uma característica que o Flamengo precisa explorar com frequência: a capacidade de seus jogadores tecnicamente diferenciados para resolver situações em espaços reduzidos.
Antes do intervalo, aos 46 minutos, Pedro voltou a marcar. Samuel Lino participou da construção, finalizou e, depois da defesa de Grando, o camisa 9 aproveitou o rebote para fazer 3 a 0.
O Flamengo não apenas abriu vantagem. Demonstrou que, quando consegue aproximar seus jogadores de criação e manter movimentação no setor ofensivo, tem recursos para desmontar defesas que tentam proteger a própria área.

Carrascal saiu no intervalo e o Flamengo perdeu uma peça de articulação
A substituição de Carrascal no intervalo, com a entrada de Luiz Araújo, merece atenção. Não se trata de afirmar que a troca, isoladamente, determinou a queda de rendimento, mas de reconhecer que o colombiano havia sido uma das principais referências criativas do primeiro tempo.
Além da assistência para o gol de Pedro, Carrascal ofereceu mobilidade, capacidade de improvisação e participação nas combinações ofensivas. Sua jogada individual no segundo gol foi o exemplo mais evidente, mas sua presença também ajudou a dar alternativas ao ataque rubro-negro.
Com a mudança, o Flamengo perdeu uma peça que havia contribuído para conectar o meio-campo ao setor ofensivo. Luiz Araújo oferece características diferentes, com velocidade e capacidade de atacar espaços, mas a alteração modificou a dinâmica que havia funcionado na etapa inicial.
É legítimo considerar o contexto de uma partida em que o Flamengo já vencia por três gols. Jardim poderia buscar preservar jogadores, administrar o desgaste e evitar riscos desnecessários. O problema não está necessariamente em substituir um titular, mas em como a equipe responde à mudança e mantém seu funcionamento coletivo.
O treinador precisa encontrar alternativas que preservem a capacidade de controlar a partida. Uma vantagem confortável não deveria significar a perda automática de iniciativa, sobretudo quando o adversário ainda tem tempo para reagir.

A queda de intensidade abriu espaço para a reação gremista
No segundo tempo, o Flamengo já não apresentou a mesma agressividade na circulação da bola e na ocupação do campo adversário. O Grêmio, que havia passado boa parte da etapa inicial tentando se proteger, encontrou mais espaço para avançar e passou a ter maior iniciativa.
A equipe rubro-negra ainda teve oportunidades para ampliar. Samuel Lino, por exemplo, desperdiçou uma chance cara a cara com Gabriel Grando. Mas o comportamento coletivo já era diferente: o Flamengo não conseguia impor o mesmo ritmo, e a partida deixou de ser conduzida com a autoridade vista antes do intervalo.
Aos 24 minutos, Amuzu diminuiu em uma cobrança de falta precisa, no ângulo de Rossi. Foi um belo gol, que merece o reconhecimento pelo mérito da execução. Ainda assim, o lance também tornou mais evidente o desconforto de uma equipe que havia construído uma vantagem de três gols e não conseguiu manter o mesmo nível de controle.
É importante separar as coisas: o Grêmio não transformou sua maior iniciativa em uma sequência de oportunidades claras capazes de ameaçar seriamente a vitória. O Flamengo manteve a vantagem e confirmou os três pontos. Mas administrar o resultado não significa apenas evitar que o adversário marque; também exige controlar os espaços, reduzir os riscos e preservar a capacidade de atacar quando surgem oportunidades.
A queda de produção não apaga o primeiro tempo. Entretanto, impede que a atuação seja avaliada como uma exibição de domínio absoluto durante os 90 minutos.

Jardim precisa transformar vantagem em controle, não em acomodação
O ponto central da análise está na administração das partidas. O Flamengo tem qualidade técnica para construir resultados e jogadores capazes de decidir confrontos com jogadas individuais. O desafio de Jardim é fazer com que essa superioridade também apareça na maneira como a equipe reage às mudanças de cenário.
Quando o time encontra uma dinâmica eficiente, as substituições precisam preservar as conexões que estão funcionando ou oferecer uma alternativa coletiva igualmente consistente. Mudar peças sem considerar o efeito sobre a articulação pode reduzir a capacidade de controlar o adversário, mesmo quando o placar oferece uma margem confortável.
A partida contra o Grêmio não permite concluir que todas as alterações de Jardim foram equivocadas. Também não autoriza ignorar o contexto de um calendário exigente e a necessidade de administrar o elenco. Mas oferece um exemplo concreto de uma questão que acompanha o trabalho do treinador: como manter o Flamengo competitivo e dominante depois de construir uma vantagem?
O primeiro tempo mostrou um caminho. Arrascaeta, Carrascal, Samuel Lino e Pedro encontraram espaços, combinaram qualidade individual com movimentação e produziram três gols. A etapa final mostrou que esse funcionamento ainda precisa ser sustentado quando o treinador altera a equipe e o adversário passa a assumir mais riscos.
O Flamengo não precisa atacar de maneira descontrolada durante toda a partida. Precisa saber quando acelerar, quando cadenciar e como manter o adversário distante de sua área. Controle de jogo não é sinônimo de posse de bola sem objetivo, tampouco de recuar e esperar o tempo passar. É ter condições de escolher o ritmo e impedir que o rival determine o rumo do confronto.

A liderança aumenta a responsabilidade na reta decisiva
Com 76 pontos, o Flamengo chegou a uma posição muito favorável na disputa pelo título. A vantagem sobre o Palmeiras passou a seis pontos, ainda provisoriamente, já que o rival tem compromisso pela rodada nesta quinta-feira. A vitória também ampliou a confiança de uma equipe que vinha de goleada sobre o Vasco e agora confirmou a força de seu ataque diante do Grêmio.
A sequência positiva é relevante, mas a reta decisiva exige mais do que capacidade de marcar gols. O Flamengo precisa transformar seu potencial ofensivo em regularidade durante os jogos, evitando oscilações que devolvam ao adversário o controle de situações já encaminhadas.
A vitória no Maracanã foi merecida. Pedro confirmou sua importância como referência de área, Samuel Lino voltou a ser decisivo, Carrascal mostrou criatividade e Arrascaeta ofereceu qualidade na construção. São sinais positivos para um time que tem recursos para buscar o título.
A cobrança sobre Jardim, portanto, não diminui o mérito do resultado. Ela parte justamente da dimensão do elenco e da posição que o Flamengo ocupa. Uma equipe com essa qualidade não pode depender apenas de um primeiro tempo brilhante para resolver seus compromissos. Precisa aprender a sustentar o próprio jogo, inclusive quando está vencendo com margem confortável.
O placar de 3 a 1 deixa os três pontos no Maracanã e fortalece a liderança rubro-negra. A atuação, porém, também deixa uma tarefa para a comissão técnica: fazer com que o Flamengo mantenha o controle depois de construir a vantagem. Na disputa pelo título, saber começar bem é fundamental. Saber administrar o que foi conquistado pode ser decisivo.
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