Flamengo vive janela frustrante: grandes alvos, longas novelas e nenhum reforço para a Libertadores
Imagem: Gilvan de Souza/CRFRubro-Negro apostou em nomes de peso, mas chega ao fim da primeira parte da janela sem conseguir concretizar as principais negociações; perda de Almada e impasse por Luiz Henrique expõem problemas de planejamento e execução
O Flamengo chegou à janela de transferências cercado por expectativa. Depois de construir um dos elencos mais fortes do futebol sul-americano e investir pesado nos últimos mercados, a torcida esperava que a diretoria aproveitasse o período para corrigir as últimas deficiências do elenco.
O cenário, porém, ficou muito distante do esperado.
Até este momento, o Flamengo não conseguiu anunciar os reforços de impacto que buscava para a reta decisiva da temporada. A negociação por Thiago Almada terminou com o argentino escolhendo o River Plate, enquanto a tentativa por Luiz Henrique, que parecia ter se transformado no novo grande alvo do clube, também encontrou obstáculos importantes.
O resultado é uma janela que, pelo menos até agora, pode ser considerada frustrante — não necessariamente pela falta de dinheiro, mas pela dificuldade de transformar poder financeiro em contratações.
A expectativa era por soluções, não apenas por nomes
O Flamengo não entrou no mercado sem planejamento.
Leonardo Jardim identificou algumas necessidades no elenco, especialmente nos setores ofensivo e de criação. A diretoria, por sua vez, procurou jogadores capazes de chegar ao clube e imediatamente aumentar o nível técnico da equipe.
O problema foi a execução.
O Flamengo concentrou grande parte de sua energia em negociações extremamente complexas, envolvendo jogadores valorizados no mercado internacional e clubes pouco dispostos a facilitar as operações.
Almada virou o símbolo da janela
A negociação por Thiago Almada talvez seja o melhor exemplo da frustração rubro-negra.
O argentino era considerado um dos principais alvos para reforçar o setor de criação. O Flamengo avançou nas conversas, discutiu valores e apresentou seu projeto, mas acabou derrotado pelo River Plate.
O desejo do jogador de retornar à Argentina teve peso decisivo.
Para o Flamengo, ficou a sensação de que todo o esforço realizado durante semanas não produziu resultado esportivo.
O erro foi insistir demais em uma única alternativa?
É justamente nesse ponto que começa a discussão sobre o planejamento da janela.
Uma negociação longa pode fazer parte do mercado. O problema surge quando o tempo consumido por uma operação reduz o espaço disponível para trabalhar outras alternativas.
A novela Almada avançou durante semanas. Enquanto isso, o Flamengo precisava continuar procurando soluções para um elenco que já apresentava necessidades conhecidas.
Quando o argentino decidiu pelo River, o clube precisou acelerar a busca por outro nome.
Luiz Henrique virou o plano de emergência — e também uma novela
Com a negociação por Almada praticamente encerrada, Luiz Henrique ganhou força como principal objetivo do Flamengo.
O atacante do Zenit passou a ser tratado como uma alternativa capaz de solucionar uma das carências apontadas por Leonardo Jardim: a necessidade de maior poder ofensivo pelos lados do campo.
O jogador teria dado sinal positivo ao projeto rubro-negro, mas a negociação entre os clubes esbarrou em valores e condições de pagamento. O Flamengo chegou a trabalhar com uma proposta que poderia alcançar 35 milhões de euros, enquanto o Zenit buscava receber uma parcela significativa à vista.
A situação chegou a um ponto ainda mais delicado quando surgiram divergências internas sobre o limite financeiro da operação.
O prazo da Libertadores chegou — e o Flamengo ficou sem reforços
A frustração da janela ganhou um peso ainda maior com o encerramento do prazo para inscrições nas oitavas de final da Libertadores. Pela programação da CONMEBOL, os clubes tinham até 18h de sexta-feira, 7 de agosto, no horário do Paraguai, para apresentar o formulário de substituição de jogadores para a próxima fase, com direito a até cinco alterações.
Na prática, o Flamengo chegou ao fim desse prazo sem conseguir registrar nenhum dos grandes reforços que buscava. O Rubro-Negro terá de enfrentar o Cruzeiro nas oitavas com o elenco que já estava disponível para a competição, enquanto eventuais contratações realizadas posteriormente só poderão ser aproveitadas nas fases seguintes, dentro das regras da competição.
O detalhe é importante porque o Flamengo não começou a janela sem saber que precisava reforçar o elenco. Leonardo Jardim havia manifestado publicamente a necessidade de novas peças, e a diretoria passou semanas trabalhando em nomes como Thiago Almada e Luiz Henrique. Entretanto, o calendário da Libertadores impunha um limite objetivo: não bastava contratar; era necessário concluir a operação a tempo de inscrever o jogador.
A perda desse prazo transforma a frustração do mercado em um problema também esportivo. Mesmo que o Flamengo consiga fechar uma grande contratação nos próximos dias, o jogador não estará disponível para as oitavas de final da Libertadores. A janela de transferências brasileira, por outro lado, permanece aberta até 11 de setembro, o que permite ao clube continuar buscando reforços para o restante da temporada.
É justamente essa combinação que aumenta a pressão sobre Bap e José Boto: o Flamengo ainda tem tempo para corrigir o elenco, mas já perdeu a oportunidade de apresentar novidades no momento mais imediato da temporada. A Libertadores não espera o mercado — e, desta vez, o Rubro-Negro chegou ao prazo sem conseguir entregar a Jardim as peças que procurava.
Boto e Bap: o mercado também expôs uma diferença de visão
A negociação por Luiz Henrique revelou uma questão que vai além do jogador.
O diretor de futebol José Boto trabalha para encontrar soluções esportivas para as necessidades identificadas pela comissão técnica. A presidência, por outro lado, precisa controlar o orçamento e estabelecer limites para operações de valores muito elevados.
Quando essas duas necessidades entram em conflito, o mercado trava.
E o Flamengo acabou chegando a uma situação desconfortável: um jogador interessado no projeto, um clube vendedor disposto a negociar e, mesmo assim, a operação sem conclusão.
O problema não é gastar pouco
Existe uma crítica que precisa ser feita com cuidado.
A frustração da torcida não nasce necessariamente da ausência de investimentos.
O Flamengo já demonstrou que possui capacidade financeira para realizar grandes contratações. Lucas Paquetá, Samuel Lino e outros investimentos recentes mostram que dinheiro não é o principal obstáculo para o clube.
A questão é outra: o Flamengo está conseguindo utilizar sua capacidade financeira de maneira eficiente?
As carências continuam
Enquanto as negociações de Almada e Luiz Henrique dominavam o noticiário, algumas necessidades do elenco permaneciam sem solução.
A lateral esquerda continua exigindo atenção. A equipe também precisa administrar a idade e o desgaste de jogadores importantes do meio-campo.
No ataque, a dependência de Pedro continua sendo uma questão relevante quando se pensa em uma temporada com três competições simultâneas.
Ou seja: o mercado buscava jogadores de grande impacto, mas nem todas as prioridades necessariamente estavam concentradas nas posições que mais preocupavam a torcida.
O risco de reforçar o que já é forte
Essa é outra questão importante.
O Flamengo já possui Arrascaeta, Paquetá, Jorginho, Samuel Lino e outros jogadores de alto nível. Contratar mais um nome de enorme valor para uma posição criativa pode aumentar a qualidade do elenco, mas não necessariamente resolve todos os problemas estruturais da equipe.
O mercado ideal deveria combinar impacto técnico com correção de deficiências.
Não basta contratar o melhor jogador disponível. É preciso contratar o jogador que melhor resolve o problema do time.
A Libertadores ficou fora da janela
A frustração ganhou um componente adicional porque o Flamengo chegou ao prazo para alterações na lista da Libertadores sem conseguir incluir os grandes reforços que buscava.
Isso significa que as possíveis contratações feitas posteriormente só poderão ser utilizadas nas fases seguintes da competição, conforme as regras de inscrição.
Para uma equipe que pretende disputar o título continental, perder essa oportunidade representa um custo esportivo real.
Não contratar também é uma decisão
Existe, porém, outro lado da discussão.
O Flamengo não pode contratar simplesmente para satisfazer a pressão da torcida.
Se os valores forem considerados excessivos, recuar de uma negociação pode ser uma decisão responsável. A administração financeira precisa estabelecer limites, principalmente em operações que podem comprometer o orçamento futuro.
O problema aparece quando o clube passa semanas negociando e termina sem o jogador e sem uma alternativa equivalente.
O que a diretoria precisa fazer agora?
A primeira medida deve ser abandonar a lógica de "tudo ou nada".
O Flamengo precisa trabalhar simultaneamente com diferentes alternativas. Se o alvo principal não estiver disponível, o plano B precisa estar suficientemente amadurecido para ser executado imediatamente.
Também será necessário separar desejo de necessidade.
Se o objetivo é aumentar o poder ofensivo, a diretoria precisa definir exatamente qual característica Leonardo Jardim deseja: velocidade, drible, profundidade, capacidade de jogar por dentro ou poder de finalização.
A partir disso, o scouting deve encontrar jogadores com características semelhantes, e não simplesmente nomes famosos.
O relógio continua correndo
A primeira parte da janela terminou deixando uma imagem difícil para a diretoria: o Flamengo foi atrás de jogadores importantes, movimentou cifras gigantescas, envolveu-se em negociações de grande repercussão, mas ainda não conseguiu entregar à comissão técnica os reforços esperados.
A janela, entretanto, ainda não acabou.
E é justamente aí que está a oportunidade de Bap e Boto mudarem a narrativa.
Frustração não precisa virar fracasso
Uma janela de transferências deve ser avaliada pelo resultado final, não apenas pelas negociações que deram errado no caminho.
O Flamengo ainda pode encontrar soluções no mercado e corrigir parte das deficiências do elenco. Mas, para isso, será necessário agir com mais velocidade, ampliar o leque de alternativas e, principalmente, alinhar definitivamente a estratégia esportiva com a financeira.
A perda de Almada já faz parte do passado. A novela Luiz Henrique mostrou que o clube precisa encontrar respostas mais rápidas.
A partir de agora, cada dia de mercado terá peso.
Porque o Flamengo não precisa apenas de grandes nomes.
Precisa de jogadores que cheguem a tempo de fazer diferença quando os títulos começarem a ser decididos.
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