Justiça dá nova vitória ao Flamengo na disputa pela Taça das Bolinhas e reacende uma das maiores polêmicas da história do futebol brasileiro
Imagem: Arte Fla10Decisão revoga ordem de entrega do troféu ao São Paulo e mantém aberta uma disputa que atravessa quase quatro décadas e envolve o controverso Campeonato Brasileiro de 1987
Uma das disputas jurídicas mais antigas e simbólicas do futebol brasileiro ganhou um novo capítulo nesta semana.
A Justiça Federal de São Paulo aceitou um recurso apresentado pelo Flamengo e revogou a decisão que determinava a entrega da histórica Taça das Bolinhas ao São Paulo Futebol Clube, mantendo o troféu sob custódia da Caixa Econômica Federal até uma definição definitiva do caso.
A decisão, tomada pela 12ª Vara Cível Federal de São Paulo, também reconheceu que a competência para decidir o destino da premiação pertence à Justiça Federal do Rio de Janeiro, onde o processo continuará sendo analisado nos próximos meses.
Para o Flamengo, a decisão representa uma importante vitória jurídica e mantém viva a possibilidade de finalmente receber um dos símbolos mais emblemáticos da história do Campeonato Brasileiro.
Mas afinal, o que é a Taça das Bolinhas?
Criada em 1975 pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a Taça das Bolinhas foi concebida para homenagear o primeiro clube que conquistasse três títulos brasileiros consecutivos ou cinco títulos alternados do Campeonato Brasileiro.
Na época, a ideia era criar um troféu permanente que simbolizasse a supremacia nacional, nos moldes do que acontece em algumas competições europeias.
Durante muitos anos, parecia apenas uma questão de tempo até que algum clube alcançasse a marca necessária para levá-la definitivamente para sua galeria.
O problema é que ninguém imaginava que o destino do troféu acabaria esbarrando justamente em uma das maiores controvérsias da história do futebol brasileiro.
O Flamengo afirma ter conquistado a taça em 1992
O entendimento rubro-negro é relativamente simples.
O clube considera válidos os títulos brasileiros conquistados em 1980, 1982, 1983, 1987 e 1992.
Dessa forma, o título nacional conquistado sobre o Botafogo, em 1992, teria representado o quinto campeonato brasileiro alternado do Flamengo, garantindo automaticamente o direito à posse definitiva da Taça das Bolinhas.
Durante anos, essa interpretação foi inclusive respaldada pela própria CBF, especialmente após a entidade reconhecer oficialmente, em 2011, o Flamengo como campeão brasileiro de 1987 ao lado do Sport.
Foi justamente esse reconhecimento que reacendeu a disputa pelo troféu.
1987: o ano que mudou a história da Taça das Bolinhas
A origem de toda a polêmica está no Campeonato Brasileiro de 1987.
Naquele ano, em meio a uma grave crise financeira e organizacional da CBF, os principais clubes do país criaram o Clube dos 13 e organizaram a chamada Copa União, vencida pelo Flamengo após a histórica final contra o Internacional.
Paralelamente, o módulo organizado pela CBF teve o Sport como campeão.
Posteriormente, a entidade determinou um cruzamento entre os campeões e vice-campeões dos dois módulos para definir oficialmente o campeão nacional daquele ano.
Flamengo e Internacional se recusaram a disputar o quadrangular final, alegando que a Copa União já representava o verdadeiro Campeonato Brasileiro daquela temporada.
Sport e Guarani disputaram então a decisão organizada pela CBF, com o clube pernambucano ficando com o título reconhecido oficialmente pela entidade e posteriormente pela Justiça brasileira.
Foi exatamente esse impasse que transformou a Taça das Bolinhas em um dos maiores objetos de disputa simbólica do futebol nacional.
O São Paulo entrou na história em 2007
Com o reconhecimento judicial do Sport como único campeão brasileiro de 1987, o Flamengo deixaria de possuir cinco títulos nacionais até 1992.
Nesse cenário, o primeiro clube a alcançar cinco títulos brasileiros passaria a ser o São Paulo, campeão nacional em 1977, 1986, 1991, 2006 e 2007.
Foi justamente após a conquista do Brasileirão de 2007 que o clube paulista reivindicou formalmente o direito ao troféu.
A partir daquele momento, a disputa deixou definitivamente os gramados e passou a ser travada nos tribunais.
STF fortaleceu a posição do Sport e do São Paulo
Um dos capítulos mais importantes da disputa aconteceu em 2018, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu manter o Sport como único campeão brasileiro de 1987.
A decisão representou um duro golpe para a estratégia jurídica rubro-negra, já que enfraquecia diretamente o principal argumento utilizado pelo Flamengo na disputa pela Taça das Bolinhas.
Mesmo assim, o clube carioca jamais abandonou a disputa pelo troféu e continuou buscando novas interpretações jurídicas sobre a posse da premiação.
A decisão desta semana muda o cenário, mas não encerra a disputa
A decisão anunciada nesta segunda-feira não entrega a taça ao Flamengo nem retira definitivamente o direito reivindicado pelo São Paulo.
O que ela faz é suspender a ordem anterior que determinava a transferência imediata do troféu ao clube paulista e devolver a discussão à Justiça Federal do Rio de Janeiro.
Na prática, a Taça das Bolinhas continuará guardada sob responsabilidade da Caixa Econômica Federal enquanto o mérito da disputa segue sendo analisado.
Mais do que um troféu, uma questão de identidade histórica
Para torcedores de Flamengo e São Paulo, a disputa ultrapassa em muito o valor material da premiação.
Ela envolve reconhecimento histórico, legitimidade esportiva e, principalmente, a narrativa sobre quem foi o primeiro grande dominador do Campeonato Brasileiro moderno.
Talvez por isso a Taça das Bolinhas continue despertando paixões quase quarenta anos depois do campeonato que originou toda a controvérsia.
Enquanto não existir uma decisão definitiva, o futebol brasileiro seguirá convivendo com uma curiosa situação:
O troféu criado para celebrar um campeão definitivo continua sem dono oficial.
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