Leonardo Jardim reage às críticas, defende trabalho no Flamengo e aponta caminho para a Libertadores
Imagem: Reprodução - FlamengoTVApós vitória sobre o Vitória, treinador português destaca evolução da equipe, lembra críticas sofridas por Filipe Luís e vê período de treinamentos como fundamental para a reação rubro-negra
Leonardo Jardim decidiu responder.
Depois da vitória por 2 a 0 sobre o Vitória, neste domingo, no Maracanã, o técnico do Flamengo aproveitou a entrevista coletiva para defender o trabalho que vem realizando no clube e rebater parte das críticas recebidas nas últimas semanas.
Mais do que comentar a atuação que recolocou o Rubro-Negro no caminho das vitórias, Jardim procurou contextualizar o momento da equipe. Para o treinador português, a evolução apresentada contra o Vitória não aconteceu por acaso. Ela foi consequência direta do período de preparação que o Flamengo teve antes da partida.
E, para explicar sua visão, Jardim recorreu justamente ao antecessor que deixou o clube no topo: Filipe Luís.
“Eu acredito no treino”
Uma das principais mensagens deixadas por Jardim na coletiva foi a defesa do treinamento como ferramenta para explicar a evolução de uma equipe.
O treinador destacou que o Flamengo teve um período maior para trabalhar e que os efeitos desse processo apareceram contra o Vitória. A equipe apresentou mais intensidade, melhor ocupação dos espaços e maior controle da partida, exatamente alguns dos pontos que vinham sendo questionados nas semanas anteriores.
A declaração também revela uma convicção importante do português: para Jardim, não existe evolução instantânea. O treinador acredita que uma equipe precisa de tempo para assimilar conceitos, corrigir comportamentos e transformar aquilo que é trabalhado durante a semana em ações dentro do campo.
O problema é que o calendário do Flamengo raramente oferece esse tempo.
Por isso, o intervalo de aproximadamente dez dias entre o empate com o Internacional e a partida contra o Vitória ganhou um peso enorme no planejamento da comissão técnica.
O Flamengo precisava de tempo — e Jardim teve
A vitória sobre o Vitória serviu como a primeira resposta prática ao trabalho realizado durante a pausa.
O Flamengo começou a partida com intensidade, pressionou o adversário, recuperou a bola no campo ofensivo e passou grande parte do primeiro tempo instalado no território adversário.
A equipe também mostrou maior proximidade entre os setores e conseguiu alternar momentos de posse com acelerações. O resultado foi uma atuação mais controlada e segura do que algumas das apresentações anteriores.
O próprio clube destacou que o time criou oportunidades, dominou as ações e confirmou a vitória com dois golaços, marcados por Erick Pulgar e Bruno Henrique.
Mas Jardim sabe que uma atuação contra o Vitória não encerra os questionamentos. Ela apenas abre uma possibilidade de mudança.
Filipe Luís entrou na discussão
Foi ao falar sobre a pressão externa que Jardim trouxe Filipe Luís para a conversa.
O treinador português lembrou que o atual comandante do Mônaco também enfrentou questionamentos durante sua passagem pelo Flamengo antes de conquistar títulos importantes e construir uma trajetória de sucesso no clube. A comparação foi utilizada para mostrar que avaliações precipitadas podem ignorar o processo de construção de uma equipe.
A referência é especialmente significativa porque Filipe Luís deixou o Flamengo depois de conquistar a Libertadores e o Campeonato Brasileiro, tornando-se uma figura de enorme identificação com a torcida.
Jardim, portanto, parece pedir algo que nem sempre combina com a realidade do futebol brasileiro: tempo para que o trabalho seja avaliado pelo resultado final, e não apenas por recortes de algumas partidas.
“É melhor mudar de trabalho”
Em determinado momento da coletiva, Jardim foi ainda mais direto ao comentar a pressão e as críticas.
O português deixou claro que não pretende modificar sua maneira de trabalhar simplesmente para atender às expectativas externas. A mensagem foi de convicção: se o treinador mudar suas ideias a cada resultado negativo ou crítica, dificilmente conseguirá construir uma identidade consistente.
É uma postura que pode ser interpretada de duas maneiras.
Por um lado, demonstra personalidade e confiança no próprio método. Por outro lado, coloca ainda mais responsabilidade sobre o treinador, porque defender o processo significa aceitar que os resultados precisam aparecer em campo.
No Flamengo, discurso e resultado caminham juntos.
O treinador também reconhece que ainda há problemas
A defesa do trabalho não significa, entretanto, que Jardim considere o Flamengo pronto.
A própria vitória contra o Vitória mostrou pontos que continuam exigindo evolução. O Rubro-Negro teve volume ofensivo, controlou a partida e venceu por 2 a 0, mas desperdiçou oportunidades que poderiam ter transformado o jogo em uma vitória mais tranquila.
Esse problema de eficiência já havia aparecido em outras partidas e continua sendo uma preocupação antes dos jogos decisivos.
A diferença é que, diante do Vitória, o Flamengo apresentou uma estrutura mais organizada para criar essas oportunidades.
Agora, o próximo passo é convertê-las.
Paquetá amplia as possibilidades
Outro aspecto que favorece o trabalho de Jardim é a recuperação gradual de jogadores importantes.
Lucas Paquetá voltou a atuar contra o Vitória e mostrou, ainda que por poucos minutos, o impacto que pode ter na dinâmica ofensiva da equipe.
Sua entrada acrescenta qualidade técnica, capacidade de condução e chegada à área. Para Jardim, isso significa ganhar uma alternativa capaz de modificar o ritmo da partida sem necessariamente alterar toda a estrutura tática.
A questão agora será encontrar a melhor maneira de encaixar Paquetá ao lado de jogadores como Jorginho, Pulgar, Arrascaeta e Carrascal.
É um problema positivo, mas que exige uma solução rápida.
Da defesa das ideias à prova definitiva
Se Jardim utilizou a vitória contra o Vitória para defender seu trabalho, a Libertadores oferecerá o cenário perfeito para testar suas convicções.
O Flamengo enfrenta o Cruzeiro na quarta-feira, no Mineirão, pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores. O adversário representa um nível de exigência muito maior e deverá oferecer menos espaços do que o Vitória ofereceu no Maracanã.
Será justamente nesse contexto que a evolução apontada por Jardim precisará aparecer novamente.
Não basta controlar a posse. Será necessário controlar o jogo.
Não basta criar chances. Será necessário aproveitá-las.
E não basta apresentar intensidade durante determinados períodos. O Flamengo precisará sustentar seu modelo durante os 90 minutos.
A Libertadores será o verdadeiro termômetro
O discurso de Jardim ganha força se o Flamengo conseguir repetir contra o Cruzeiro os comportamentos apresentados diante do Vitória.
Caso contrário, a discussão sobre o trabalho continuará aberta.
Essa é a realidade de comandar o Flamengo: o treinador pode pedir tempo, explicar processos e defender suas convicções, mas o calendário oferece poucas oportunidades para convencer a torcida apenas com argumentos.
A cobrança existe porque a expectativa também existe.
Jardim comprou a briga
Leonardo Jardim não parece disposto a fugir da pressão. Ao citar Filipe Luís, defender o treinamento e responder diretamente aos críticos, o português deixou claro que acredita no caminho escolhido para o Flamengo.
Agora, porém, começa a parte mais difícil.
O Flamengo terá pela frente uma sequência na qual cada erro pode custar uma eliminação ou pontos importantes na disputa pelo Brasileirão. O treinador ganhou uma vitória para trabalhar com mais tranquilidade, recuperou jogadores e encontrou sinais de evolução.
Mas a margem para experimentação diminuiu drasticamente.
O discurso está dado. Agora, é hora de provar em campo.
A vitória contra o Vitória mostrou que existe evolução. A coletiva mostrou que Jardim acredita nela.
A Libertadores dirá se essa evolução já é suficiente.
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