O que mudou nas últimas três partidas?
Imagem: Adriano Fontes/CRFDepois de um período de instabilidade, Rubro-Negro mostra evolução contra Cruzeiro, Vitória e Mirassol; mudanças no comportamento sem a bola, maior mobilidade ofensiva e melhor aproveitamento dos espaços indicam que o time começa, enfim, a assimilar as ideias do treinador
Durante semanas, uma das principais perguntas envolvendo o Flamengo de Leonardo Jardim era simples: quanto tempo o time precisaria para entender o que o treinador queria?
A resposta começou a aparecer nas últimas partidas.
O Flamengo ainda está longe de ser uma equipe perfeita, mas os três jogos mais recentes apresentam sinais claros de evolução. Contra Cruzeiro, Vitória e Mirassol, o Rubro-Negro mostrou comportamentos que não apareciam com a mesma frequência nas partidas anteriores: maior compactação, pressão mais coordenada, ocupação mais racional dos espaços e, principalmente, uma equipe mais confortável para alternar entre posse e ataques verticais.
A goleada por 5 a 1 sobre o Mirassol foi o ponto mais evidente dessa transformação.
Mas a mudança não aconteceu de uma hora para outra. Ela começou a ser construída antes.
DO DOMÍNIO SEM EFICIÊNCIA AO CONTROLE COM AGRESSIVIDADE
Um dos problemas que acompanharam o Flamengo durante o início do trabalho de Jardim foi a dificuldade de transformar domínio territorial em vantagem real.
O time tinha posse, trocava passes e empurrava o adversário para trás. Mas muitas vezes terminava os ataques de maneira previsível.
A circulação acontecia de um lado para o outro, sem que a equipe conseguisse gerar superioridade suficiente para entrar na área.
Nas últimas três partidas, isso começou a mudar. O Flamengo passou a acelerar mais quando encontrava espaço. A equipe deixou de tratar a posse de bola como um objetivo e passou a utilizá-la como ferramenta para encontrar o momento certo de atacar.
É uma diferença aparentemente pequena, mas enorme do ponto de vista tático.
CRUZEIRO: O PRIMEIRO SINAL DE MATURIDADE
O empate por 1 a 1 com o Cruzeiro, no Mineirão, talvez não tenha produzido o impacto visual da goleada sobre o Mirassol, mas foi importante para entender a evolução do Flamengo.
Era um jogo de Libertadores, fora de casa, contra um adversário organizado e em um ambiente de enorme pressão. Mesmo assim, o Flamengo conseguiu competir sem abandonar completamente sua proposta.
A equipe teve momentos de controle com a bola, pressionou em determinados setores e encontrou caminhos para atacar a defesa mineira.
Mais importante: não se desorganizou emocionalmente depois de sofrer o gol.
O empate mostrou um Flamengo mais maduro e essa maturidade seria fundamental nos dois jogos seguintes.
VITÓRIA: MAIS PRESSÃO E MAIS CONTROLE
Contra o Vitória, o comportamento já apresentou outra característica.
O Flamengo passou a recuperar a bola mais rapidamente no campo ofensivo.
A pressão pós-perda se tornou mais coordenada.
Em vez de cinco jogadores atacarem simultaneamente a bola, a equipe passou a utilizar os jogadores mais próximos para tentar impedir a saída adversária enquanto o restante recompunha as zonas.
Isso é importante porque uma pressão eficiente não significa simplesmente correr atrás da bola.
Significa controlar as opções do adversário.
Quando o Vitória recuperava a posse, muitas vezes encontrava poucos caminhos para sair e, assim, o Flamengo recuperava a bola e começava a construír novamente.
Essa sequência permitiu ao time permanecer mais tempo no campo ofensivo.
MIRASSOL: QUANDO AS IDEIAS FINALMENTE APARECERAM NO PLACAR
Se contra Cruzeiro e Vitória os sinais apareceram no comportamento coletivo, contra o Mirassol eles apareceram também no placar.
E mais importante do que a quantidade foi a maneira como eles foram construídos.
O Flamengo encontrou espaços entre lateral e zagueiro, atacou em profundidade e utilizou os jogadores entre linhas.
Movimentou Pedro e conseguiu fazer os jogadores de lado participarem constantemente das jogadas.
O Mirassol não encontrou uma resposta para esse conjunto de movimentos e o resultado foi a goleada.
PEDRO DEIXOU DE SER APENAS UM FINALIZADOR
Uma das mudanças mais interessantes está na utilização de Pedro. O camisa 9 continua sendo a principal referência dentro da área, porém não permanece o tempo inteiro preso entre os zagueiros.
Em determinados momentos, recua para participar da construção. Em outros, abre espaço para a infiltração de jogadores que vêm de trás.
Quando a bola chega ao último terço, entretanto, Pedro volta a ocupar a zona em que é mais perigoso.
Essa alternância dificulta a marcação, já que o zagueiro precisa decidir se acompanha o Pedro ou mantém sua posição.
Qualquer uma das escolhas pode abrir espaço para outro jogador. Contra o Mirassol, o mecanismo funcionou perfeitamente.
CARRASCAL ENTENDEU ONDE PODE SER MAIS ÚTIL
Outro exemplo é Jorge Carrascal. O colombiano passou boa parte da temporada tentando encontrar seu espaço. Agora, parece mais confortável na estrutura de Jardim.
Em vez de precisar organizar todo o jogo, Carrascal recebe liberdade para atuar entre linhas e acelerar as jogadas, e essa função favorece suas principais características.
Ele ganhou liberdade para receber de frente, conduzir a bola, driblar, combinar e atacar a área. Contra o Mirassol, marcou um dos gols da goleada e teve participação importante na dinâmica ofensiva.
É um exemplo de como a evolução individual está ligada à evolução coletiva.
PULGAR VIROU UMA PEÇA AINDA MAIS IMPORTANTE
Se os jogadores ofensivos estão aparecendo mais, existe um motivo para isso. O Flamengo passou a proteger melhor a região central e o Pulgar tem papel fundamental nesse processo.
O chileno funciona como ponto de equilíbrio: enquanto os laterais avançam, ele protege; e, quando os meias sobem, ele oferece cobertura.
Quando o Flamengo perde a bola, é uma das referências para a primeira reação defensiva. Isso permite que jogadores como Arrascaeta, Carrascal e os pontas tenham maior liberdade.
É a velha lógica do futebol moderno:
quanto melhor a proteção atrás da bola, maior pode ser a agressividade à frente dela.
A PRESSÃO ALTA ESTÁ MAIS ORGANIZADA
Outra diferença importante está na pressão inicial.
No começo do trabalho de Jardim, o Flamengo muitas vezes pressionava de maneira individual: um jogador saía, outro demorava e um terceiro ficava distante.
O adversário encontrava uma linha de passe e escapava.
Agora, a pressão parece mais coordenada.
Quando Pedro inicia o movimento sobre um zagueiro, os jogadores de trás ajustam suas posições. O objetivo não é simplesmente recuperar a bola. É obrigar o adversário a jogar para onde o Flamengo quer.
Esse detalhe ajuda a explicar por que o Rubro-Negro passou a recuperar mais bolas em zonas perigosas.
O FLAMENGO TAMBÉM APRENDEU A ATACAR SEM A BOLA
Talvez essa seja a maior transformação.
Durante alguns momentos do trabalho de Jardim, o Flamengo parecia depender demais do jogador que estava com a bola.
Agora, existe mais movimento ao redor dela, um jogador se aproxima, outro ataca em profundidade e enquanto um terceiro abre o campo, um quarto ocupa o espaço entre linhas.
Isso faz com que o adversário tenha mais decisões para tomar e, quanto mais decisões uma defesa precisa tomar em pouco tempo, maior a possibilidade de erro.
O Flamengo passou a criar justamente esse tipo de problema.
SAMUEL LINO É UM DOS GRANDES BENEFICIADOS
Samuel Lino também representa essa evolução. O atacante tem liberdade para partir do lado esquerdo, mas não fica preso à linha lateral.
Quando encontra espaço, acelera, quando a defesa fecha o corredor, procura entrar por dentro; e quando Pedro sai da área para buscar a bola, Lino se posiciona para atacar a profundidade.
Essa mobilidade transforma o setor esquerdo em uma fonte constante de desequilíbrio.
E o mesmo princípio pode ser aplicado a Luiz Araújo no lado oposto.
O Flamengo deixou de depender exclusivamente de jogadas individuais. Agora, os jogadores começam a criar condições uns para os outros.
O QUE MUDOU NO MEIO-CAMPO?
A evolução também passa pela distância entre os setores. Esse talvez seja o ponto mais importante para entender o atual Flamengo.
O time está conseguindo jogar mais compacto.
Defesa, meio-campo e ataque estão menos distantes. Isso permite que a equipe pressione melhor, recupere a segunda bola com maior velocidade, faça a cobertura e, assim, chegue ao ataque com mais jogadores, impondo superioridade numérica.
Quando os setores ficam próximos, o Flamengo consegue jogar mais tempo no campo adversário. Quando ficam separados, qualquer perda de bola pode se transformar em contra-ataque.
Jardim parece ter entendido que seu modelo depende muito mais dessa compactação do que de uma formação específica.
O 4-3-3 NÃO É A EXPLICAÇÃO
É tentador olhar para a escalação e dizer que Jardim encontrou o esquema ideal.
Mas a questão é mais complexa.
O Flamengo pode começar em um 4-3-3 e terminar uma jogada em um 3-2-5. Consegue defender em 4-4-2 e pressionar em uma estrutura diferente.
O sistema não é estático.
É justamente essa capacidade de transformação que começa a se desenvolver com maior clareza.
O Flamengo não está simplesmente jogando em uma formação. Está apresentando diversidade de comportamentos em campo.
AINDA EXISTEM PROBLEMAS
A goleada sobre o Mirassol não deve apagar completamente as dificuldades.
O Flamengo ainda pode sofrer quando perde a bola com muitos jogadores à frente. Os espaços nas costas dos laterais continuam sendo um ponto de atenção.
Além disso, adversários mais qualificados tecnicamente terão capacidade maior para escapar da pressão.
E é justamente aí que estará o verdadeiro teste.
O Mirassol permitiu que o Flamengo jogasse. O Cruzeiro, muito provavelmente, não permitirá o mesmo.
O JOGO CONTRA O CRUZEIRO SERÁ O VERDADEIRO TESTE
A partida decisiva pelas oitavas da Libertadores no Maracanã será muito mais reveladora do que a goleada do Brasileirão.
Porque o Cruzeiro conhece o Flamengo, sabe como Jardim pretende construir e possui jogadores capazes de atacar os espaços deixados pelo Rubro-Negro.
Se o Flamengo repetir a intensidade, a compactação e a mobilidade mostradas nas últimas partidas, terá boas chances de controlar o confronto.
Se voltar aos comportamentos antigos, com setores distantes e circulação previsível, o cenário será completamente diferente.
JARDIM FINALMENTE ESTÁ CONSEGUINDO FAZER O FLAMENGO JOGAR COMO PENSA
Talvez seja cedo para dizer que Leonardo Jardim encontrou o Flamengo ideal. Mas já não parece cedo para afirmar que o Flamengo começa a entender Leonardo Jardim.
E essa diferença é enorme.
Contra o Cruzeiro, o time mostrou maturidade.
Contra o Vitória, mostrou maior controle.
Contra o Mirassol, transformou evolução em goleada.
São três partidas diferentes, três desafios diferentes e uma mesma tendência.
Se apresentou mais compacto sem a bola, mais móvel com ela, mais agressivo quando a recupera e mais vertical quando encontra espaço.
O Flamengo ainda precisa provar que consegue manter esse comportamento contra os adversários mais fortes e nos jogos de maior pressão.
Mas existe, finalmente, uma identidade começando a aparecer. E talvez a melhor notícia para Leonardo Jardim seja justamente essa:
O Flamengo não está mais apenas tentando descobrir o que o treinador quer.
Está começando a executar.
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