O xadrez de Jardim e Artur Jorge: por que Cruzeiro e Flamengo empataram no Mineirão?
Imagem: Arte Fla10Um duelo de ideias travou o jogo — até as substituições mudarem a dinâmica e Paquetá transformar a estratégia de Jardim em gol
O 1 a 1 entre Cruzeiro e Flamengo, pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores, não foi apenas um empate de pouca margem. Foi um confronto em que os dois treinadores montaram equipes pensando, antes de tudo, em controlar os espaços.
Leonardo Jardim começou com uma escolha que chamou a atenção: deixou Pedro no banco e apostou em Bruno Henrique como referência ofensiva. Plata ocupou o lado direito, Samuel Lino apareceu pela esquerda e Arrascaeta funcionou como principal articulador por dentro. No meio, Pulgar e Jorginho deram sustentação ao sistema.
Artur Jorge respondeu com uma estrutura que buscava aproveitar a força ofensiva do Cruzeiro sem abrir mão da proteção central. O time mineiro alternou momentos em 4-3-3 e 4-2-3-1, com Gerson e Matheus Pereira tendo liberdade para aproximar-se do ataque e Arroyo partindo de uma posição mais aberta para atacar o espaço.
O resultado foi um jogo extremamente estudado, com poucas oportunidades realmente claras e dois gols que nasceram justamente quando as estruturas começaram a se desorganizar.
JARDIM QUIS VELOCIDADE, NÃO UM JOGO DE ATAQUE POSICIONAL
A escalação de Bruno Henrique no lugar de Pedro dizia muito sobre a estratégia do Flamengo.
Jardim não queria necessariamente um centroavante para ficar constantemente entre os zagueiros. Queria alguém capaz de atacar as costas da defesa do Cruzeiro e aproveitar eventuais espaços deixados quando o time mineiro avançasse suas linhas.
Bruno Henrique funcionou como uma referência móvel. Samuel Lino podia aproximar-se pelo lado esquerdo, enquanto Plata tinha a missão de manter amplitude pela direita. Arrascaeta circulava atrás dessa linha ofensiva.
Na teoria, o desenho permitia que o Flamengo atacasse rapidamente quando recuperasse a bola.
Na prática, porém, o Cruzeiro fez um bom trabalho para impedir que essas transições fossem executadas com frequência.
A equipe de Artur Jorge manteve boa ocupação do corredor central e dificultou o passe vertical para Arrascaeta. Com isso, o Flamengo teve dificuldade para encontrar Bruno Henrique em condições de atacar a profundidade.
O resultado foi um primeiro tempo com domínio territorial relativamente equilibrado e pouca produção ofensiva. Os números mostram bem esse cenário: o Flamengo terminou com 53% de posse, 15 finalizações contra 11 do Cruzeiro e 5 chutes no alvo contra apenas 1 dos mineiros.
PULGAR FOI IMPORTANTE — MAS TAMBÉM REVELOU O PROBLEMA DO FLAMENGO
Erick Pulgar teve uma função fundamental na estratégia de Jardim.
O chileno atuou como o principal protetor da defesa, permitindo que Jorginho tivesse maior liberdade para participar da construção e que Arrascaeta pudesse permanecer mais adiantado.
Sua atuação foi importante principalmente para impedir que Matheus Pereira recebesse constantemente de frente para a defesa.
Mas havia um preço.
Com Pulgar e Jorginho mais preocupados em garantir segurança, o Flamengo tinha menos jogadores atacando a área. E isso ajudou a explicar por que a posse de bola rubro-negra nem sempre se transformava em perigo real.
O Flamengo tinha a bola, mas nem sempre tinha superioridade perto da área.
ARYTON LUCAS E EMERSON ROYAL: OS CORREDORES QUE NÃO FUNCIONARAM
Outro ponto importante foi o comportamento dos laterais.
Ayrton Lucas e Emerson Royal tinham uma função delicada: avançar para dar amplitude sem deixar espaços para os ataques do Cruzeiro.
O problema é que ambos acabaram ficando em uma zona intermediária durante boa parte do jogo.
Quando avançava, o Flamengo ganhava largura. Quando permanecia mais recuada, a equipe perdia presença ofensiva pelos lados.
Ayrton Lucas teve dificuldade para transformar sua velocidade em vantagem ofensiva. Em vez de receber em condições de acelerar, muitas vezes encontrou o corredor ocupado ou precisou iniciar a jogada muito distante da área.
Royal, por sua vez, teve uma função mais conservadora. O lateral priorizou a segurança defensiva e teve menos participação no último terço.
Essa escolha ajudou o Flamengo a não sofrer tanto pelos lados, mas também reduziu uma das possibilidades de criação do time.
O CRUZEIRO ESPEROU O MOMENTO CERTO PARA ATACAR
Artur Jorge entendeu que não precisava transformar o Cruzeiro em uma equipe dominante para criar perigo.
O treinador montou uma equipe capaz de esperar determinados momentos e acelerar quando encontrasse espaço.
Gerson e Matheus Pereira foram importantes nesse mecanismo.
Gerson oferecia força física, condução e chegada. Matheus Pereira funcionava como o jogador responsável por conectar o meio-campo ao ataque, procurando receber entre as linhas de marcação do Flamengo.
O Cruzeiro não precisava ter a posse durante longos períodos. Precisava encontrar os espaços certos.
E encontrou no segundo tempo.
ARROYO ENTENDEU EXATAMENTE ONDE O FLAMENGO ESTAVA VULNERÁVEL
O gol de Keny Arroyo foi a consequência mais evidente da estratégia mineira.
Aos 53 minutos, o equatoriano recebeu espaço, partiu para cima da marcação e finalizou com enorme precisão para colocar o Cruzeiro em vantagem. O lance individual terminou em um golaço, mas a jogada também expôs um problema estrutural do Flamengo: havia espaço para o atacante receber, conduzir e escolher o momento da finalização.
Arroyo foi um dos jogadores que melhor compreenderam o tipo de partida que estava sendo disputada.
Como o Flamengo não conseguia pressionar constantemente o Cruzeiro no campo ofensivo, o atacante encontrava oportunidades para receber e acelerar.
Seu gol foi individual na execução, mas coletivo na origem: a estrutura do Cruzeiro havia conseguido sobreviver à pressão e encontrar um espaço de transição.
MATHEUS HENRIQUE: UM TRABALHO INVISÍVEL
Matheus Henrique teve papel importante na engrenagem do Cruzeiro.
Mais do que aparecer na área adversária, sua principal função foi ajudar a equilibrar o meio-campo e impedir que o Flamengo conseguisse transformar a posse em superioridade numérica.
O volante precisava acompanhar as movimentações de Arrascaeta e, ao mesmo tempo, manter proximidade com a defesa.
Esse tipo de atuação nem sempre aparece nos melhores momentos, mas é fundamental em uma partida de mata-mata.
O Cruzeiro precisava evitar que o Flamengo encontrasse o passe entre linhas. Matheus Henrique ajudou justamente a fechar esse caminho.
GERSON: A FORÇA FÍSICA QUE EMPURROU O CRUZEIRO
Gerson também foi importante para que o Cruzeiro conseguisse competir fisicamente no meio-campo.
Sua presença permitiu ao time mineiro disputar segundas bolas, carregar a bola para frente e aproximar-se do ataque sem depender exclusivamente de Matheus Pereira.
O problema é que o Cruzeiro também não conseguiu transformar essa força em volume ofensivo constante.
Por isso, o gol de Arroyo acabou sendo tão importante: foi a transformação de um momento de superioridade em vantagem concreta.
O ERRO DE JARDIM FOI CORRIGIDO NO BANCO
O momento decisivo do Flamengo aconteceu quando Leonardo Jardim percebeu que precisava mudar o tipo de ataque.
Bruno Henrique oferecia profundidade, mas o Flamengo precisava de um jogador capaz de ocupar os espaços entre meio-campo e defesa do Cruzeiro com maior frequência.
A solução veio com Lucas Paquetá.
Pedro também entrou, aumentando a presença do Flamengo na área adversária. A mudança alterou completamente a dinâmica ofensiva rubro-negra.
O Flamengo deixou de depender exclusivamente de ataques em velocidade e passou a ter uma referência central mais forte, além de maior presença entre as linhas.
E o empate surgiu justamente dessa mudança.
PAQUETÁ MOSTRA POR QUE PODE SER DECISIVO
Aos 67 minutos, Paquetá apareceu no lugar certo para aproveitar o rebote após cabeçada de Léo Ortiz no travessão e empatar a partida.
O gol não foi apenas uma questão de oportunismo.
Foi consequência da mudança de comportamento do Flamengo.
Com Pedro em campo e Paquetá participando da construção, o Rubro-Negro passou a ocupar mais jogadores próximos da área. A segunda bola deixou de pertencer exclusivamente ao Cruzeiro.
O Flamengo aumentou a presença ofensiva e, consequentemente, aumentou a possibilidade de aproveitar um rebote.
Paquetá estava lá.
BRUNO HENRIQUE: A ESCOLHA CERTA PARA COMEÇAR?
A opção de Jardim por Bruno Henrique como titular pode ser defendida do ponto de vista estratégico.
O problema é que a partida não se desenvolveu exatamente como o treinador imaginava.
O Cruzeiro não ofereceu grandes espaços para Bruno atacar. Com o adversário mais compacto, Pedro passou a fazer mais falta do que a velocidade do camisa 27.
A substituição mostrou isso.
Quando Jardim colocou Pedro em campo, o Flamengo ganhou uma referência para prender os zagueiros e criar situações de segunda bola.
Isso não significa que Bruno Henrique tenha sido uma escolha errada. Significa que o plano A de Jardim precisava de um plano B — e ele apareceu no segundo tempo.
O RAIO-X DOS DOIS ESQUEMAS
O Cruzeiro conseguiu funcionar melhor quando o jogo exigiu compactação, transição e ataques rápidos pelos lados.
O Flamengo funcionou melhor quando passou a ter mais presença ofensiva e jogadores entre as linhas.
É justamente por isso que o empate parece tão coerente com o que aconteceu no Mineirão.
O Cruzeiro teve momentos para ferir o Flamengo. O Flamengo teve capacidade para reagir.
Os dois treinadores conseguiram, em boa medida, neutralizar as principais armas do adversário.
A diferença apareceu quando os bancos entraram em ação.
JARDIM GANHOU O SEGUNDO TEMPO — MAS ARTUR JORGE QUASE LEVOU O JOGO
O duelo tático teve uma conclusão interessante.
Artur Jorge conseguiu fazer o Cruzeiro competir de igual para igual e encontrar o primeiro gol. Seu sistema conseguiu limitar o jogo interior do Flamengo e obrigou o adversário a buscar alternativas pelos lados.
Jardim, entretanto, teve uma resposta mais eficiente quando percebeu que o desenho inicial havia perdido força.
Paquetá e Pedro modificaram a partida.
O empate não foi apenas consequência da qualidade individual de Paquetá. Foi consequência de uma mudança estrutural: o Flamengo passou a colocar mais jogadores perto do gol.
E ISSO PODE SER DECISIVO NO MARACANÃ
O segundo jogo será completamente diferente.
No Mineirão, o Flamengo pôde trabalhar com mais espaço e explorar a velocidade. No Maracanã, será o Cruzeiro quem provavelmente terá de defender por mais tempo e proteger o empate que leva a decisão aos pênaltis.
Isso muda completamente o problema tático de Jardim.
Pedro pode ganhar importância. Paquetá pode ser candidato a começar. Arrascaeta terá de encontrar espaços contra uma defesa provavelmente mais baixa. E jogadores como Samuel Lino e Plata precisarão oferecer amplitude para abrir o bloco mineiro.
O Cruzeiro, por sua vez, terá de decidir se mantém a postura reativa ou se tenta pressionar o Flamengo em determinados momentos.
A vaga nas quartas de final pode ser decidida justamente por essa escolha.
O EMPATE DEIXOU UMA PERGUNTA PARA JARDIM
O 1 a 1 não foi ruim para o Flamengo. Pelo contrário: o Rubro-Negro volta para casa com a decisão aberta e com a vantagem de jogar diante da própria torcida.
Mas o jogo deixou uma questão que Leonardo Jardim terá de responder no Maracanã:
o Flamengo deve começar com a velocidade de Bruno Henrique ou com a presença de Pedro e Paquetá?
No Mineirão, a resposta apareceu durante o jogo.
No Maracanã, talvez Jardim precise encontrar essa resposta antes mesmo da bola rolar.
Porque, em um confronto tão equilibrado, a diferença entre começar com uma ideia e terminar com outra pode ser justamente a diferença entre avançar e ficar pelo caminho.
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