Por que o Flamengo voltou a sofrer com marcações altas?
Imagem: Gilvan de Souza/CRFSão Paulo e Internacional utilizaram estratégias semelhantes para pressionar a saída de bola rubro-negra e expuseram uma dificuldade que Leonardo Jardim precisará corrigir antes da fase decisiva da temporada. Entenda os mecanismos utilizados pelos adversários e quais soluções o treinador pode adotar
O Flamengo continua brigando pelas primeiras posições do Campeonato Brasileiro e segue vivo em todas as competições. Ainda assim, as últimas rodadas deixaram um alerta importante para Leonardo Jardim.
Nos empates diante de São Paulo e Internacional, o Rubro-Negro encontrou enormes dificuldades para construir suas jogadas desde a defesa. Embora os dois adversários tenham adotado propostas diferentes ao longo das partidas, ambos tiveram sucesso ao neutralizar a primeira fase da construção rubro-negra.
Mais do que dois resultados semelhantes, os confrontos revelaram um padrão que merece atenção: a crescente dificuldade do Flamengo para superar equipes que pressionam alto e conseguem retirar espaço de seus principais organizadores.
O problema começa na primeira construção
Grande parte do modelo de jogo de Leonardo Jardim depende de uma saída de bola limpa.
Normalmente, os zagueiros iniciam a construção ao lado de Erick Pulgar, enquanto Jorginho aproxima-se para oferecer uma segunda linha de passe. Arrascaeta recua alguns metros para conectar o meio-campo ao ataque.
Quando essa engrenagem funciona, o Flamengo domina a posse de bola, controla o ritmo da partida e instala seu jogo no campo adversário.
O problema aparece quando essa primeira linha é bloqueada.
O plano dos adversários foi praticamente o mesmo
São Paulo e Internacional entenderam que pressionar individualmente Pulgar e Jorginho seria mais eficiente do que apenas fechar espaços próximos à área.
Sem liberdade para receber entre os zagueiros, os dois volantes passaram a tocar menos na bola. Como consequência, a responsabilidade da construção ficou concentrada na dupla de defesa, que frequentemente precisou recorrer aos lançamentos longos.
Essa mudança alterou completamente a dinâmica ofensiva do Flamengo.
Pedro ficou isolado
Com menos qualidade na construção, Pedro passou a receber bolas quase sempre em disputas aéreas contra os zagueiros adversários.
O centroavante deixou de participar das combinações próximas da área e passou boa parte das partidas lutando contra a marcação sem que o restante do ataque conseguisse se aproximar rapidamente.
Esse isolamento reduziu significativamente o potencial ofensivo rubro-negro.
Samuel Lino também foi afetado
Samuel Lino é um jogador que cresce quando recebe a bola em velocidade e encontra espaços para atacar o um contra um.
Nos dois jogos, entretanto, o atacante foi obrigado a buscar o jogo muito distante da área adversária.
Ao receber mais próximo da linha do meio-campo, precisou vencer um número maior de marcadores antes de conseguir criar jogadas perigosas.
Seu gol contra o Internacional surgiu justamente quando passou a atuar mais livre, aproximando-se da faixa central e explorando espaços entre os defensores.
Faltou um plano B
Toda equipe dominante precisa desenvolver mecanismos alternativos para momentos em que sua principal forma de jogar é neutralizada.
Nos últimos jogos, o Flamengo insistiu durante muito tempo na mesma construção curta, mesmo quando ela claramente não estava funcionando.
Faltaram mudanças estruturais capazes de alterar o comportamento da marcação adversária.
Quais soluções Leonardo Jardim pode adotar?
Existem diferentes alternativas para reduzir esse problema.
Uma delas é utilizar um dos laterais por dentro durante a saída de bola, formando superioridade numérica no meio-campo e liberando Pulgar para atuar alguns metros mais à frente.
Outra possibilidade é aproximar Arrascaeta da construção logo nos primeiros passes, criando uma nova linha de passe e dificultando o encaixe individual dos adversários.
Também pode ser interessante alternar momentos de construção curta com ligações diretas previamente trabalhadas, utilizando Pedro para escorar bolas e acelerar a aproximação dos pontas e meias.
A pausa chega no momento ideal
Os dez dias sem partidas oficiais oferecem uma oportunidade rara para que Leonardo Jardim desenvolva essas alternativas nos treinamentos.
Diferentemente das semanas anteriores, marcadas por viagens e jogos consecutivos, agora existe tempo para repetir movimentos, corrigir posicionamentos e ampliar o repertório coletivo da equipe.
Os próximos adversários certamente observaram isso
No futebol de alto rendimento, padrões são rapidamente identificados.
A tendência é que outros adversários passem a reproduzir o modelo de pressão utilizado por São Paulo e Internacional até que o Flamengo demonstre possuir respostas eficientes para esse tipo de cenário.
Por isso, a evolução da saída de bola pode se tornar um dos fatores determinantes para o restante da temporada.
O verdadeiro teste do trabalho de Leonardo Jardim
Mais do que vencer partidas, grandes treinadores são reconhecidos pela capacidade de encontrar soluções quando seus modelos passam a ser estudados pelos adversários.
Leonardo Jardim já mostrou que consegue montar uma equipe organizada, intensa e competitiva. Agora chega um novo desafio: reinventar alguns mecanismos ofensivos para impedir que o Flamengo se torne previsível.
Se conseguir transformar as dificuldades das últimas rodadas em aprendizado coletivo, o treinador poderá fazer desta pausa um ponto de inflexão na temporada. Caso contrário, a pressão alta tende a continuar sendo a principal arma utilizada pelos adversários para neutralizar um dos elencos mais qualificados do futebol sul-americano.
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