Por que o Pedro nunca é unanimidade? O paradoxo do camisa 9 que sobrevive a todos os técnicos no Flamengo
Imagem: Gilvan de Souza/CRFTite, Filipe Luís e agora Leonardo Jardim encontraram maneiras diferentes de utilizar o atacante — mas nenhum deles transformou Pedro em titular absoluto por longos períodos; afinal, o problema está no jogador, no modelo de jogo ou na concorrência?
Pedro talvez seja o caso mais curioso do atual elenco do Flamengo.
Poucos jogadores do futebol brasileiro conseguem apresentar, durante uma temporada, números tão expressivos quanto os do camisa 9. Poucos também possuem tamanha identificação com a torcida, histórico de gols decisivos e capacidade comprovada de atuar como referência ofensiva.
Ainda assim, existe uma pergunta que insiste em reaparecer sempre que o Flamengo muda de treinador: por que Pedro não consegue se transformar em titular absoluto?
A questão voltou ao debate nesta semana. No empate por 1 a 1 com o Cruzeiro, pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores, Leonardo Jardim novamente optou por começar com Bruno Henrique centralizado e deixou Pedro no banco. O camisa 9 entrou no segundo tempo ao lado de Lucas Paquetá e, em pouco mais de um minuto, participou da reação que terminou no gol de empate rubro-negro.
O episódio resume perfeitamente o paradoxo de Pedro no Flamengo: mesmo quando não começa, ele continua encontrando maneiras de demonstrar que deveria estar em campo.
O problema nunca foi simplesmente fazer gols
Pedro não precisa provar que sabe marcar gols.
Em 2026, o atacante voltou a apresentar números de protagonista. Após a chegada de Leonardo Jardim, acumulou 11 gols e três assistências em 14 partidas analisadas até julho, tornando-se o jogador com maior participação em gols da equipe no período. Na temporada, chegou a 21 gols e seis assistências em 36 jogos naquele momento.
Na retomada do Brasileirão, também foi decisivo na goleada por 4 a 0 sobre a Chapecoense, marcando duas vezes e participando diretamente da construção de outro gol.
Portanto, reduzir a discussão a "Pedro faz gols ou não faz" é simplificar demais o problema.
A questão é outra: qual tipo de futebol o treinador quer que o Flamengo jogue?
Tite encontrou em Pedro um titular — mas não necessariamente uma solução universal
A passagem de Tite pelo Flamengo ajuda a explicar a discussão.
Em determinado momento, Pedro conseguiu se firmar como titular sob o comando do treinador. No início de 2024, por exemplo, o atacante ganhou espaço e afirmou sentir-se confortável no modelo utilizado por Tite.
O problema é que Tite também buscava determinados comportamentos sem bola: pressão coordenada, compactação entre setores e capacidade de executar movimentos específicos na saída adversária.
Pedro oferece outras virtudes.
É um atacante extremamente forte na área, possui excelente leitura para atacar espaços curtos, sabe proteger a bola e é capaz de finalizar com poucos toques.
Mas não é um jogador cuja principal característica seja perseguir zagueiros durante 90 minutos ou atacar constantemente grandes espaços em velocidade.
Quando o modelo exige um centroavante móvel, capaz de pressionar e abrir corredores através de deslocamentos longos, a utilização de Pedro passa a exigir ajustes.
Filipe Luís levou a discussão ao limite
A relação com Filipe Luís foi ainda mais complexa.
Pedro perdeu espaço durante 2025 e chegou a ficar fora de partidas importantes. O episódio atingiu um ponto de ruptura quando Filipe Luís fez críticas públicas ao atacante após a vitória sobre o São Paulo, em julho daquele ano.
O treinador enxergava questões comportamentais e de intensidade que ultrapassavam a simples discussão sobre posicionamento.
O resultado foi uma situação incomum: um dos maiores goleadores do elenco deixou de ser tratado como titular incontestável.
A discussão ganhou tanta dimensão que até Rivaldo criticou publicamente a condução do caso por Filipe Luís.
Mas há uma consequência importante desse período: ele mostrou que Pedro não está imune à lógica de um treinador que prioriza determinadas características coletivas acima da hierarquia individual.
Com Jardim, entretanto, Pedro renasceu
A chegada de Leonardo Jardim mudou completamente o cenário.
O treinador português encontrou um Pedro mais participativo, confiante e eficiente. O atacante passou a ser um dos jogadores mais utilizados e com maior participação em gols na Era Jardim.
E aqui aparece uma contradição interessante.
Se Jardim conseguiu transformar Pedro em protagonista, por que ainda o deixa no banco em determinadas partidas?
A resposta está no adversário.
Jardim não escala apenas os melhores jogadores. Ele escala o melhor encaixe.
Essa é provavelmente a chave para entender o comportamento do treinador português.
Jardim já demonstrou que modifica a equipe conforme o adversário. Em 2026, chegou a não repetir escalações justamente por adaptar a estratégia às características de cada confronto.
Contra o Cruzeiro, por exemplo, o treinador entendeu que Bruno Henrique poderia oferecer algo diferente: profundidade.
Pedro é melhor quando o Flamengo consegue fazê-lo participar próximo da área.
Bruno Henrique, mesmo já não sendo o jogador explosivo de seus melhores anos, oferece mais capacidade para atacar espaços maiores e incomodar uma linha defensiva que esteja avançada.
Era uma escolha estratégica.
Não necessariamente uma escolha de qualidade individual.
Pedro e Bruno Henrique são soluções para problemas diferentes
Essa comparação é fundamental para entender o debate.
Pedro é um centroavante de associação e finalização.
Bruno Henrique é um atacante de profundidade que pode atuar centralizado, mas cuja melhor versão historicamente apareceu atacando espaços e partindo de zonas laterais.
Se o adversário joga em bloco baixo, Pedro ganha valor.
Se o adversário mantém a defesa mais alta e oferece espaço às costas, Bruno Henrique pode ser mais interessante.
Se o Flamengo precisa de alguém para disputar cruzamentos e segundas bolas, Pedro novamente ganha vantagem.
Se a prioridade é pressionar a saída e acelerar transições, a escolha pode mudar.
E foi exatamente isso que aconteceu contra o Cruzeiro
Leonardo Jardim começou com Bruno Henrique, Samuel Lino e Plata na frente, enquanto Arrascaeta funcionava como articulador.
A ideia era clara: velocidade, mobilidade e ataque aos espaços.
Mas o jogo não entregou ao Flamengo o cenário ideal para esse plano.
O Cruzeiro conseguiu proteger sua defesa e dificultou os ataques em profundidade. Com isso, a característica que justificava Bruno Henrique perdeu parte do valor.
Quando o Flamengo precisava de presença na área e capacidade para jogar contra um bloco mais compacto, Pedro passou a fazer mais sentido.
Pedro entrou. Paquetá entrou. E o Flamengo mudou.
O empate no Mineirão é talvez a melhor demonstração recente dessa discussão.
Leonardo Jardim colocou Pedro e Paquetá em campo. Em pouco tempo, os dois participaram da jogada do gol rubro-negro: Léo Ortiz acertou o travessão e Paquetá aproveitou o rebote.
O mais importante, porém, não foi apenas o gol.
Com Pedro, o Flamengo ganhou uma referência central mais forte. Os zagueiros passaram a ter uma preocupação diferente e os jogadores que chegavam de trás encontraram mais espaço para atacar a segunda bola.
O Flamengo deixou de depender exclusivamente da velocidade.
Passou a jogar também com presença.
O problema tático de Pedro: ele exige que o time jogue de determinada maneira
Aqui está a parte menos confortável da análise.
Pedro é um jogador excepcional dentro de determinadas condições.
Mas sua presença também condiciona o comportamento coletivo.
Quando ele está em campo, o Flamengo tende a ganhar uma referência fixa ou semifixa na última linha. Isso facilita cruzamentos, tabelas, passes verticais e ataques à área.
Por outro lado, exige que os demais atacantes produzam mobilidade ao redor dele.
Pedro não é necessariamente o jogador que vai sair da área, correr 30 metros e abrir o corredor para outro atacante durante toda a partida.
Ele precisa que o time encontre outras formas de criar espaço.
É aí que entram Arrascaeta, Paquetá e os pontas
O melhor Flamengo com Pedro provavelmente não é aquele em que o camisa 9 precisa resolver sozinho.
É aquele em que Arrascaeta encontra espaços entre linhas, Paquetá aproxima-se da área, os pontas atacam os corredores e os laterais dão amplitude.
Nesse cenário, Pedro vira uma arma devastadora.
O problema surge quando o Flamengo tem pouca mobilidade ao redor dele.
Se Pedro fica isolado entre dois zagueiros, sua participação diminui. E foi justamente por isso que, em determinados momentos, treinadores preferiram uma referência mais móvel.
Mas existe outro detalhe: Pedro também evoluiu
A grande novidade de 2026 é que Pedro parece ter ampliado seu repertório.
O atacante não está apenas esperando a bola dentro da área.
Na Era Jardim, passou a participar mais da construção, associar-se com os meias e encontrar maneiras diferentes de chegar ao gol. O levantamento do ge também apontou uma melhora significativa de seus números com Jardim em comparação ao período sob Filipe Luís.
Isso reduz uma das principais justificativas para deixá-lo fora da equipe.
Pedro continua sendo um finalizador extraordinário, mas está oferecendo mais soluções antes da finalização.
Então por que ele não é titular absoluto?
Porque titular absoluto é uma condição cada vez mais rara no Flamengo de Leonardo Jardim.
O treinador não parece trabalhar com um onze inicial intocável. Trabalha com um elenco de soluções.
Isso explica por que jogadores como Pedro, Paquetá e até outros nomes importantes podem começar no banco e ainda assim ser fundamentais para mudar uma partida.
No caso específico de Pedro, entretanto, existe uma discussão adicional: será que o melhor Flamengo possível deveria simplesmente começar a ser escalado com Pedro?
A resposta provavelmente é sim — mas com uma condição
Se a pergunta for "quem é o melhor centroavante do Flamengo?", Pedro dificilmente terá concorrência dentro do elenco.
Se a pergunta for "qual atacante deve começar os jogos, de acordo com as características do adversário?", a resposta fica muito mais complexa.
Essa diferença é fundamental.
O fato do Pedro ser o melhor centroavante do elenco, não necessariamente significa que ele seja a melhor escolha tática para todos os jogos.
O grande desafio de Jardim é transformar Pedro em referência sem tornar o Flamengo previsível
Esse talvez seja o ponto central.
Quando Pedro está em campo, o Flamengo ganha uma referência ofensiva extraordinária. Mas os adversários também sabem exatamente onde está o perigo.
Cabe a Jardim criar mecanismos para que a bola chegue ao Pedro em condições favoráveis.
Arrascaeta entre linhas. Paquetá chegando de trás. Samuel Lino atacando o espaço. Pontas dando amplitude. Laterais ultrapassando.
Quanto mais alternativas existirem ao redor do camisa 9, mais difícil será para o adversário simplesmente fechar Pedro.
O banco pode ser uma arma — mas não pode virar regra
Existe, porém, um risco na estratégia de usar Pedro constantemente como solução para o segundo tempo.
O atacante pode ser extremamente eficiente entrando contra defesas cansadas. Foi exatamente o que aconteceu diante do Cruzeiro, quando sua entrada ajudou a mudar a dinâmica do jogo.
Mas utilizar o camisa 9 apenas dessa maneira seria desperdiçar boa parte de seu potencial.
Pedro não é simplesmente um "reserva de luxo".
É um jogador capaz de estruturar o ataque do Flamengo.
O paradoxo que acompanha Pedro
Talvez a explicação para sua relação com os diferentes treinadores esteja justamente aí.
Pedro é bom demais para ser reserva.
Mas é específico demais para ser automaticamente titular em qualquer contexto tático.
Tite encontrou maneiras de potencializar seu jogo, mas também buscava determinadas respostas coletivas.
Filipe Luís colocou em primeiro plano questões de intensidade e comportamento e levou a relação ao limite.
Jardim recuperou Pedro, devolveu-lhe protagonismo e transformou-o novamente em um dos principais jogadores ofensivos do Flamengo — mas continua utilizando o atacante de acordo com o adversário e o roteiro esperado da partida.
O caso Pedro, portanto, não é uma discussão sobre titularidade. É uma discussão sobre identidade.
O Flamengo precisa decidir se quer construir seu modelo ofensivo a partir das características do seu camisa 9 ou se prefere manter um sistema mais flexível, no qual Pedro seja apenas uma das várias possibilidades.
Leonardo Jardim parece escolher a segunda alternativa.
E talvez essa seja justamente a razão pela qual Pedro, mesmo sendo um dos maiores goleadores do elenco, nunca seja tratado como intocável.
A ironia é que, quando o jogo aperta, quando o Flamengo precisa de alguém para transformar meia chance em gol ou quando a bola precisa encontrar um dono dentro da área, a resposta quase sempre acaba sendo a mesma:
Pedro.
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