Pulgar virou o ponto de equilíbrio do Flamengo de Jardim — e seu futuro pode ser o próximo grande problema da diretoria
Imagem: Adriano Fontes/CRFDo golaço contra o Vitória à atuação de liderança no Mineirão: chileno deixou de ser apenas o volante que protege a defesa e passou a ser uma peça que organiza, acelera e dá liberdade ao restante do time
Há jogadores que aparecem nos melhores momentos. Outros fazem o jogo acontecer para que os melhores momentos existam.
Erick Pulgar pertence cada vez mais ao segundo grupo no Flamengo.
O chileno de 32 anos vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória no clube. Nas últimas partidas, voltou a demonstrar por que é considerado peça fundamental para Leonardo Jardim e por que o Flamengo decidiu abrir negociação para tentar ampliar seu contrato.
O golaço marcado na vitória por 2 a 0 sobre o Vitória, no Maracanã, foi a imagem mais evidente dessa fase. Mas a atuação contra o Cruzeiro, no empate por 1 a 1 pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores, mostrou algo ainda mais importante: Pulgar não precisa marcar para ser decisivo.
No Mineirão, o volante começou encontrando dificuldades para controlar Matheus Pereira, mas cresceu durante a partida e terminou como um dos jogadores mais importantes do sistema defensivo rubro-negro. Segundo a avaliação do ge, Pulgar recebeu nota 7,0, cresceu no segundo tempo e terminou o jogo correndo até os minutos finais. Aos 47 da etapa final, ainda fez um corte importante para impedir uma finalização de Gerson dentro da área.
É justamente essa capacidade de fazer várias funções ao mesmo tempo que explica sua importância para o Flamengo atual.
O volante que deixou de ser apenas um “primeiro homem”
A principal transformação de Pulgar ao longo de sua passagem pelo Flamengo foi a compreensão de que sua função não se resume a proteger a zaga.
Quando o Flamengo tem a bola, ele precisa oferecer uma linha segura para a saída. Quando perde, precisa fechar o espaço diante dos zagueiros. Quando o adversário tenta acelerar pelo centro, é frequentemente o primeiro jogador encarregado de interromper a jogada.
E existe uma quarta função: permitir que os outros joguem.
É aí que Pulgar se torna particularmente importante para Leonardo Jardim.
Com o chileno protegendo a região central, Jorginho pode participar mais da circulação e Arrascaeta, Paquetá ou outro meia ganha liberdade para ocupar zonas mais avançadas.
O equilíbrio não aparece necessariamente na estatística mais chamativa. Aparece na estrutura.
Por que Jardim confia tanto em Pulgar?
Desde que assumiu o Flamengo, Leonardo Jardim transformou Pulgar em uma de suas peças de confiança.
Ainda no início da temporada, o chileno era titular absoluto com o treinador português. Em 2026, antes da sequência mais recente, Pulgar já tinha 14 partidas e dois gols, sendo titular em quatro dos cinco primeiros jogos de Jardim — ficou fora contra o Corinthians por suspensão.
A razão é essencialmente tática.
Jardim precisa de um volante que consiga proteger uma defesa que, muitas vezes, fica exposta quando os laterais avançam. Também precisa de alguém capaz de realizar coberturas e interpretar rapidamente onde está o perigo quando o Flamengo perde a bola.
Pulgar oferece essas características.
Ele funciona como uma espécie de seguro tático do meio-campo.
Contra o Vitória, Pulgar foi o dono do meio
A vitória por 2 a 0 sobre o Vitória foi talvez a demonstração mais clara de como o chileno pode participar das duas fases do jogo.
O Flamengo dominou amplamente o primeiro tempo e teve uma dinâmica muito boa no meio-campo. Jorginho e Pulgar controlaram a região central, enquanto Samuel Lino, Arrascaeta e Carrascal tinham liberdade para se movimentar na frente.
Pulgar não apenas protegeu.
Aos 14 minutos, apareceu mais adiante e arriscou de uma distância impressionante para marcar um dos gols mais bonitos do Flamengo na temporada.
O lance é importante justamente porque revela uma evolução de seu jogo.
Quando o adversário recua demais, Pulgar pode avançar alguns metros, receber de frente e finalizar. O Vitória ofereceu espaço e pagou caro por isso.
O golaço não foi um acidente tático
O chute de Pulgar contra o Vitória poderia ser interpretado simplesmente como uma pintura individual. assista o gol aqui
Mas existe um contexto.
Com Jorginho e Pulgar controlando o meio, o Flamengo conseguiu empurrar o Vitória para trás. Os jogadores ofensivos ocuparam posições mais adiantadas e o chileno passou a ter liberdade para aparecer na intermediária.
A bola sobrou em uma zona na qual o volante já tinha condições de finalizar.
O resultado foi um chute de longa distância que praticamente não deu possibilidade de defesa ao goleiro Lucas Arcanjo.
É um exemplo perfeito de como um volante de contenção pode também acrescentar uma ameaça ofensiva sem abandonar sua responsabilidade estrutural.
No Mineirão, apareceu o outro Pulgar
Se contra o Vitória o chileno foi protagonista com a bola, diante do Cruzeiro sua importância apareceu principalmente sem ela.
O Cruzeiro tentou encontrar Matheus Pereira entre as linhas e explorar os espaços centrais. No início, Pulgar teve dificuldades para controlar a movimentação do meia mineiro. Com o passar do jogo, porém, ajustou seu posicionamento e passou a participar mais efetivamente da proteção do setor.
Foi especialmente importante na segunda etapa.
Quando o Cruzeiro passou a atacar com maior intensidade depois do gol de Arroyo, o Flamengo precisava de jogadores capazes de proteger a área sem abandonar completamente o meio-campo.
Pulgar fez exatamente isso.
Aos 47 minutos do segundo tempo, por exemplo, antecipou-se a Gerson dentro da área e cortou uma bola que poderia ter produzido uma chance perigosa.
Esse é o tipo de lance que dificilmente vira manchete, mas que pode decidir uma classificação de Libertadores.
Pulgar é a dobradiça do sistema de Jardim
Existe uma maneira interessante de entender sua função no Flamengo atual: Pulgar é a dobradiça entre defesa e ataque.
Quando o Flamengo está atacando, ele ajuda a sustentar a estrutura atrás da bola.
Quando perde a posse, precisa reagir imediatamente para impedir que o adversário encontre o espaço central.
Quando a equipe recupera a bola, pode iniciar a primeira fase da construção ou permitir que Jorginho assuma essa função.
Essa versatilidade faz com que o Flamengo não precise manter todos os jogadores atrás da linha da bola para estar protegido.
O casamento com Jorginho
A presença de Jorginho ao lado de Pulgar também merece atenção.
Os dois não executam exatamente a mesma função.
Jorginho é mais cerebral na distribuição. Gosta de receber, orientar o corpo e definir o ritmo da circulação.
Pulgar oferece mais capacidade de cobertura, combate, proteção e ocupação territorial.
Quando os dois funcionam bem, o Flamengo ganha uma dupla complementar.
Contra o Vitória, essa combinação foi particularmente eficiente. A equipe teve controle do meio-campo e conseguiu deixar os jogadores ofensivos livres para se movimentarem.
No Mineirão, porém, Jorginho teve dificuldades no primeiro tempo e Pulgar precisou assumir ainda mais responsabilidades defensivas. O próprio ge destacou que Jorginho cresceu apenas na segunda etapa, enquanto Pulgar aumentou sua produção durante o jogo.
Isso revela outra característica importante: Pulgar também consegue compensar desequilíbrios ao seu redor.
Influência que ultrapassa o campo
A importância do chileno para o Flamengo também aparece no ambiente do elenco.
Pulgar está no clube desde 2022 e já soma 166 partidas e nove títulos, segundo levantamento publicado pelo ge no fim de julho. São três Campeonatos Cariocas, duas Libertadores, duas Copas do Brasil, uma Supercopa do Brasil e um Campeonato Brasileiro.
São quatro anos vivendo diferentes momentos do clube, trabalhando com diferentes treinadores e convivendo com mudanças profundas no elenco.
Essa longevidade lhe dá um conhecimento interno que jogadores mais recentes ainda não possuem.
Pulgar conhece o peso do Maracanã, a exigência da torcida, a pressão de uma Libertadores e a necessidade de disputar títulos praticamente todos os anos.
Não é apenas um volante.
É um jogador experiente dentro de um setor no qual experiência e leitura de jogo são fundamentais.
O curioso caso do jogador que já esteve perto de sair
A situação contratual torna tudo ainda mais interessante.
O Flamengo renovou o vínculo de Pulgar em março de 2025, estendendo o contrato até o fim de 2027. Porém, uma cláusula reduziu a multa rescisória para US$ 4 milhões a partir de julho de 2026 — valor considerado baixo para o mercado internacional.
O cenário acendeu um alerta na Gávea.
Clubes da Arábia Saudita e dos Estados Unidos demonstraram interesse no jogador, enquanto o Monaco, comandado por Filipe Luís, também entrou na disputa. Um clube saudita chegou inclusive a um acordo salarial com o jogador, segundo alguns veículos da imprensa esportiva.
E aqui está o ponto mais importante: Pulgar não fechou a porta para o Flamengo.
O volante aceita ganhar menos do que poderia receber no exterior, mas quer ser valorizado dentro do clube em um patamar compatível com outros jogadores do elenco.
Flamengo oferece renovação, mas jogador quer valorização
A diretoria rubro-negra já se movimentou.
O clube ofereceu aumento salarial e extensão do contrato até 2028. Pulgar, porém, apresentou uma contraproposta, e o impasse ainda não havia sido resolvido no último levantamento do ge.
A questão deixou de ser simplesmente contratual.
É uma discussão sobre valor.
Aos 32 anos, Pulgar sabe que provavelmente está diante de um dos últimos grandes contratos de sua carreira. Do outro lado, o Flamengo precisa decidir quanto vale manter um jogador que é titular de Jardim e que exerce uma função para a qual não existe reposição imediata no elenco com as mesmas características.
E esse segundo ponto é talvez o mais importante.
O problema: quem substitui Pulgar?
O Flamengo possui alternativas.
Evertton Araújo pode atuar como volante de maior capacidade física. Jorginho pode assumir uma função mais recuada. O time também pode modificar sua estrutura para jogar com dois meio-campistas de características diferentes.
Mas substituir Pulgar diretamente é outra questão.
Ele reúne experiência, capacidade defensiva, leitura de cobertura, qualidade razoável na construção e presença física em um único jogador.
Perdê-lo significaria obrigar Jardim a alterar alguma característica do sistema.
Não necessariamente seria uma catástrofe. Mas seria uma mudança importante justamente em uma temporada na qual o Flamengo disputa as fases decisivas da Libertadores e do Brasileirão.
O Flamengo precisa olhar além da multa
A multa de US$ 4 milhões torna a situação especialmente delicada.
O valor permite que um clube interessado avance diretamente sobre o jogador sem precisar negociar uma transferência tradicional com o Flamengo.
Isso significa que o Rubro-Negro não controla completamente o mercado.
Se Pulgar receber uma proposta muito superior e entender que chegou o momento de mudar de ares, a margem de reação do clube será limitada.
Por isso a renovação ganhou caráter estratégico.
Mais do que aumentar o salário do volante, o Flamengo precisa proteger um ativo esportivo que hoje é fundamental para o modelo de Jardim.
O golaço contra o Vitória mudou também sua percepção?
Talvez não.
Quem acompanha Pulgar sabe que sua principal contribuição nunca foi fazer gols de fora da área.
Mas o golaço ajudou a lembrar que existe um jogador tecnicamente mais completo do que a imagem de “volante marcador” muitas vezes sugere.
Pulgar pode recuperar a bola, cobrir o lateral, proteger os zagueiros, iniciar a construção e, quando encontra espaço, finalizar.
O problema é que quanto mais completa se torna sua função, mais difícil fica encontrar uma reposição equivalente.
O momento mais importante de Pulgar talvez seja justamente agora
O chileno chegou ao Flamengo em 2022, viveu momentos de desconfiança, recuperou espaço, tornou-se campeão continental e nacional e chegou a uma fase em que seu trabalho passou a ser menos percebido justamente porque funciona.
Contra o Vitória, apareceu com um golaço.
Contra o Cruzeiro, apareceu com desarmes, coberturas e resistência física.
São duas versões do mesmo jogador.
A primeira chama a atenção.
A segunda ganha campeonatos.
Para Leonardo Jardim, Pulgar é mais do que um titular
O treinador português pode mudar o posicionamento de Arrascaeta. Pode alternar Pedro e Bruno Henrique. Pode colocar Paquetá, Lorran ou Carrascal em diferentes zonas. Pode mudar a estrutura ofensiva.
Mas qualquer uma dessas alterações precisa considerar quem ficará responsável por proteger o espaço atrás dos jogadores criativos.
Hoje, Pulgar é uma das respostas mais confiáveis para essa pergunta.
É por isso que sua renovação deveria ser encarada pelo Flamengo não apenas como uma negociação salarial, mas como uma decisão esportiva.
O Flamengo precisa decidir se quer manter o jogador que equilibra o time ou correr o risco de descobrir quanto custa substituí-lo.
Aos 32 anos, Erick Pulgar não vive apenas uma boa fase.
Ele vive um momento em que sua importância tática, sua experiência e sua identificação com o elenco convergem exatamente quando o Flamengo entra na parte mais decisiva da temporada.
E, enquanto o chileno continuar sendo a peça que permite aos outros jogadores atacarem com mais liberdade, sua permanência será muito mais do que uma questão de contrato.
Será uma questão de identidade tática.
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