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Opinião

As conexões entra Brasil, Olise e a exigência da “origem nacional“

CA

Por Carlão Azevedo

@carlãoazevedo

05 de julho de 2026

88 acessos
Peço licença a vocês que nos leem todas as semanas para passar batido da volta do Flamengo aos campos e me concentrar num tema cujo debate é espinhoso, mas necessário, que está materializado na figura de Michael Olise, atleta do Bayern de Munique e da seleção francesa.

Uma quantidade surpreendente de brasileiros está inundando as redes sociais questionando por que o jogador, nascido em Londres e não considerado fluente no idioma francês, atua pela seleção francesa para vencer a Copa.

A legislação francesa é a mesma de outras grandes nações, como o Brasil e os Estados Unidos, que entendem ser cidadão nato, ou seja, nascido em seu território, tanto quem nasceu dentro de suas fronteiras (jus soli) quanto os filhos de seus filhos nascidos em outro país, que tenham sangue da sua nação correndo em suas veias (jus sanguinis).

Portanto, Olise – filho de mãe francesa com cidadania argelina - é tão francês quanto sua compatriota extremista e xenófoba Marine Le Pen, assim como nosso medalhista olímpico de inverno Lucas Pinheiro Braathen, nascido em solo norueguês, é tão brasileiro quanto eu, carioca da Zona Norte.

Como a primeira tentativa é totalmente falha, o foco se modifica: questionam-se as origens dos 26 jogadores dos Le Bleus, quando, na prática, apenas três nasceram fora da França. Mesmo assim, propagam que a seleção francesa “é de origem africana”.

. Por outro lado, ninguém questiona a história de outros grandes craques franceses: Raymond Kopa, o cérebro dos azuis na Copa de 1958, era filho de poloneses. Just Fontaine, até hoje o maior artilheiro em uma mesma Copa com 13 gols, no mesmo 1958, era marroquino de pais espanhóis. Michel Platini, camisa 10 fenomenal da década de 1980, é filho de imigrantes italianos. Enquanto isso, o francês Aymeric Laporte defende a seleção espanhola sem ser incomodado.

Jogando uma lupa na formação da sociedade brasileira, nosso povo foi forjado no extermínio dos povos originários, na colonização portuguesa e na escravização de povos africanos – 5 dos 12 milhões de deportados forçadamente da África pararam no Brasil. Além disso, sírios e libaneses vieram para cá fomentar o nosso comércio, japoneses desembarcaram em Santos no navio Kasatu Maro em 1908, outros povos europeus - predominantemente alemães, poloneses e italianos - aproveitaram incentivos governamentais para aqui se instalarem. Como falar, então, de uma origem brasileira? O que é ser brasileiro senão ser filho de imigração, forçada ou não?

Se houvesse rigor em buscar jogadores brasileiros que abarquem ambos os conceitos, isto é, jus solis e jus sanguinis, encontraríamos apenas um: Manoel Francisco dos Santos, o gigante e genial Mané Garrincha, o bicampeão mundial que em 1962 teve uma das maiores atuações individuais da história das Copas, um jogador eminentemente de origem indígena, 100% made in Brazil.

Estamos na Copa da diáspora, onde mais de três centenas de atletas não nasceram nos solos de suas respectivas pátrias. Uma Copa onde se nota a reconexão com suas origens e seus antepassados. Portanto, já sabemos por que a questão envolvendo a figura de Michael Olise chama atenção.

Deixo a conclusão para você, caro leitor, cara leitora, concluir seu raciocínio.

Sobre Carlão Azevedo

Âncora do canal do Carlão Azevedo", Carlão é profissional de telecomunicações e flamenguista inveterado, não necessariamente nessa ordem.

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