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08 de outubro, 202619:30
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Opinião

O Flamengo ganhou o clássico, mas o Maracanã não distribuiu absolvição

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Por Miguel Sampaio

11 de outubro de 2026

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O futebol tem uma mania curiosa: passa noventa minutos tentando nos convencer de que tudo está sob controle e, quando a gente começa a acreditar, arranja um jeito de desmentir a própria história.

Domingo, no Maracanã, bastou um gol de Carrascal para o Flamengo derrotar o Fluminense por 1 a 0, conservar a liderança do Brasileirão e devolver alguma tranquilidade à semana rubro-negra. Alguma, vejam bem. Porque tranquilidade completa, no futebol, é artigo mais raro do que lateral que cruza com precisão quando a área está cheia.

O placar foi magro, mas a importância da vitória não. O Flamengo chegou aos 64 pontos, continuou um à frente do Palmeiras e fez o que precisava fazer num campeonato em que cada tropeço parece acompanhado por uma calculadora. O torcedor pode até não gostar da matemática, mas aprendeu a conviver com ela. Hoje, além de saber a escalação, precisa saber quantos pontos faltam, quem joga amanhã e qual resultado do concorrente estraga o jantar.

Ainda assim, Fla-Flu não é planilha. Nunca foi.

O clássico tem seus próprios humores, suas pequenas crueldades e aquela capacidade de transformar um lance corriqueiro em assunto para a semana inteira. O sujeito chega ao estádio pensando em futebol e sai discutindo arbitragem, substituição, centroavante, treinador e, se a conversa se prolongar até o botequim fechar, provavelmente a formação ideal do Flamengo de 1981.

É assim que a gente envelhece no futebol: começa discutindo o que aconteceu no domingo e termina lembrando de uma partida de quarenta anos atrás. O problema é que, às vezes, a lembrança antiga serve menos para explicar o presente do que para aumentar nossa impaciência com ele.

O Flamengo venceu. Isso precisa ser dito sem rodeios. Mas também é preciso reconhecer que a vitória não veio acompanhada daquela sensação gostosa de que o time resolveu o problema e pode seguir adiante sem olhar para trás.

O primeiro tempo terminou sem gols, apesar das oportunidades rubro-negras. Samuel Lino tentou, Paquetá apareceu, Carrascal participou. A bola rondou a área, Fábio trabalhou e o Flamengo não conseguiu transformar sua presença ofensiva em vantagem. Do outro lado, o Fluminense também encontrou seus momentos e deixou a partida suficientemente aberta para lembrar que clássico não costuma respeitar favoritismo por muito tempo.

Depois veio o gol. Paquetá avançou pela esquerda, levantou a cabeça e cruzou. Carrascal apareceu no espaço que a defesa deixou e bateu de primeira. Um lance rápido, limpo, objetivo. Daqueles em que a jogada parece simples depois que termina, embora a simplicidade, no futebol, seja quase sempre o resultado de alguém ter enxergado o que os outros demoraram a perceber.

Carrascal resolveu. E merece o reconhecimento por isso.

Há uma diferença entre participar de um jogo importante e decidir um jogo importante. O colombiano fez a segunda coisa. Quando a oportunidade apareceu, não pediu licença ao relógio nem tentou transformar o lance numa obra de arte. Bateu, marcou e colocou o Flamengo em vantagem. Em clássico, às vezes, a eternidade dura o tempo de uma finalização.

Só que o gol não encerrou a conversa. Apenas mudou o assunto.

O Fluminense continuou procurando o empate, e Rossi precisou aparecer. Martinelli teve sua oportunidade, outros lances levaram perigo, e o goleiro rubro-negro fez o que se espera de alguém que veste aquela camisa: impediu que o adversário estragasse a noite. Existe uma categoria de defesa que não entra para a história como um gol, mas que vale quase tanto quanto ele. O atacante recebe o abraço de todos; o goleiro, muitas vezes, recebe apenas um suspiro coletivo de alívio.

Rossi mereceu os seus.

E o Flamengo, convenhamos, também precisou deles.

É aí que mora a diferença entre comemorar o resultado e considerar o assunto encerrado. Uma equipe que pretende ser campeã precisa saber vencer jogos apertados. Não se conquista um Brasileirão com noventa minutos de domínio absoluto em todas as rodadas. Há noites em que a bola não entra, o adversário resiste, a arquibancada fica impaciente e a vitória depende de um detalhe, de uma defesa ou de um jogador que aparece no instante certo.

O Flamengo fez isso contra o Fluminense. Não há motivo para diminuir o mérito. Mas também não há obrigação de transformar cada vitória em certificado de excelência.

A liderança continua sendo do Flamengo. O Palmeiras venceu o Corinthians por 4 a 1 e não permitiu que a distância aumentasse. Portanto, os três pontos foram importantes, mas não compraram descanso. O campeonato segue apertado, e o próximo jogo não aceitará como pagamento os méritos acumulados neste domingo.

Talvez o momento mais revelador da noite nem tenha acontecido no placar. Pedro perdeu uma oportunidade importante e, quando foi substituído por Bruno Henrique, ouviu vaias de parte da torcida. A cena incomoda porque expõe uma velha relação do futebol: o torcedor quer o gol, o jogador vive do gol e, quando ele não aparece, todo o resto corre o risco de desaparecer junto.

Pedro não teve a noite que desejava. Isso é diferente de dizer que uma noite ruim define um centroavante. Quem acompanha futebol há tempo suficiente sabe que a memória da arquibancada é generosa com os gols decisivos e impiedosa com os gols perdidos. O torcedor lembra do chute para fora com uma nitidez que nem sempre reserva para as dezenas de vezes em que o mesmo jogador resolveu a partida.


Não estou pedindo silêncio à torcida. Cobrança faz parte do jogo, e jogador profissional não pode esperar aplausos por tudo. Mas há uma distância entre cobrar e condenar, e nem sempre a arquibancada percebe quando atravessa essa linha.

O Flamengo venceu o clássico, e Pedro saiu vaiado. As duas coisas cabem na mesma noite. A paixão não precisa ser coerente para ser verdadeira; precisa apenas tomar cuidado para não confundir frustração com sentença definitiva.

Também houve reclamação do Fluminense pelo lance de Pulgar sobre Castillo, ainda no primeiro tempo. O chileno recebeu cartão amarelo, enquanto os tricolores pediam a expulsão. O episódio seguirá alimentando a discussão sobre a arbitragem, como costuma acontecer quando uma decisão deixa mais de uma interpretação possível. O apito final encerra a partida; não tem poder para encerrar a opinião de ninguém.

E talvez seja essa a parte mais cansativa e mais fascinante do futebol: nunca termina exatamente quando termina.

Na saída do Maracanã, cada torcedor leva uma versão diferente do mesmo jogo. O rubro-negro mais pragmático fala dos três pontos. O mais exigente lembra das chances desperdiçadas. O tricolor pensa no que poderia ter sido se uma das oportunidades tivesse terminado em gol. Todos viram a mesma partida, mas ninguém volta para casa com exatamente a mesma história.

Eu fico com uma imagem simples: Carrascal comemorando, Rossi defendendo e o Flamengo segurando uma vantagem que, por vezes, pareceu menor do que o número estampado no placar sugeria. Não foi uma vitória para esquecer as preocupações. Foi uma vitória para continuar enfrentando-as na liderança.

E isso também tem valor.

O futebol moderno gosta de apresentar cada resultado como prova definitiva de alguma coisa. Ganhou, está tudo certo. Perdeu, precisa mudar tudo. Empatou, ninguém sabe para onde olhar. A vida real, felizmente, é menos organizada que essa pressa por conclusões. Um clássico pode revelar virtudes e limitações na mesma noite. Um jogador pode decidir e outro decepcionar. Uma equipe pode merecer a vitória sem ter feito uma partida perfeita.

O Flamengo venceu o Fluminense porque encontrou o gol que o adversário não encontrou. Carrascal fez a diferença, Rossi protegeu o resultado e a liderança permaneceu na Gávea. É o que fica na tabela, e a tabela não costuma ter paciência para filosofias.

Mas nós, cronistas, temos esse pequeno privilégio: olhar para o placar e desconfiar que a história não cabe inteira nele.

Domingo, o Flamengo ganhou o Fla-Flu. A torcida pôde comemorar, a liderança foi preservada e o campeonato seguiu seu caminho. Amanhã, porém, a cobrança estará de volta, porque o torcedor rubro-negro não se contenta em vencer o rival quando existe um título inteiro esperando mais adiante.

No Maracanã, o apito final encerrou o clássico. Não encerrou a exigência.

E talvez seja assim que deva ser. O Flamengo ganhou o direito de comemorar por uma noite. Para ser campeão, ainda terá de ganhar muitas outras.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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