O Flamengo soltou a vitória antes que o jogo terminasse
09 de outubro de 2026
O placar terminou em 2 a 2. E o torcedor voltou para casa com aquela sensação que conhecemos bem: a de quem perdeu alguma coisa que, por alguns instantes, já considerava sua.
Aos 60 anos, depois de acompanhar o Flamengo por tempo suficiente para reconhecer a diferença entre um tropeço e um sinal de alerta, aprendi a desconfiar das explicações fáceis. Não vou dizer que o empate foi culpa exclusiva de Leonardo Jardim, nem que a expulsão de Jorginho explica tudo, muito menos que a arbitragem deve sair dessa história sem prestar contas. O futebol raramente oferece a gentileza de um culpado solitário. O que aconteceu em Santos foi mais complicado — e, por isso mesmo, mais preocupante.
O Flamengo começou encontrando dificuldades, como se ainda precisasse descobrir o tamanho do problema que tinha pela frente. Depois se ajeitou, ocupou melhor os espaços, encontrou os caminhos e mostrou por que chegou a esta altura do campeonato brigando pela liderança. Danilo apareceu para abrir o placar, Lucas Paquetá ampliou, e o time construiu uma vantagem que tinha mérito. Não caiu do céu, não foi presente de ninguém.
Naquele momento, o Flamengo parecia ter entendido a partida. E talvez tenha sido justamente aí que começou o perigo: quando um time confunde estar melhor com ter resolvido tudo.
Conheço essa velha tentação. No futebol carioca, ela já derrubou muita gente. O sujeito faz o mais difícil, abre vantagem, sente o adversário balançar e começa, sem perceber, a jogar como se o relógio fosse seu aliado incondicional. Só que o relógio não veste camisa de ninguém. Ele anda para os dois lados do campo e, quando o jogo pede atenção, não aceita conversa.
Cuca percebeu que precisava mudar. No intervalo, mandou Neymar e Rony para dentro. Não era exatamente um enigma indecifrável: o Santos precisava atacar, e Neymar não havia entrado para fazer figuração. O adversário mudou suas referências, ganhou presença ofensiva e obrigou o Flamengo a responder a uma partida que já não era a mesma do primeiro tempo.
Leonardo Jardim demorou a mexer. Não digo isso com a segurança teatral de quem, sentado no sofá, resolve qualquer jogo em cinco minutos. Treinador trabalha com informações, condições físicas, características dos jogadores e riscos que nós, do lado de fora, nem sempre conseguimos enxergar. Mas também não recebe imunidade por exercer uma profissão difícil. A leitura do jogo faz parte do trabalho, e o Flamengo não pareceu encontrar a resposta no tempo em que precisava.
O segundo tempo começou a ficar comprido para o Rubro-Negro. A bola já não circulava com a mesma tranquilidade, os espaços diminuíam e o Santos ganhava confiança. O Flamengo precisava recuperar o controle, respirar com a bola, esfriar o entusiasmo do adversário. Em vez disso, a partida foi ficando cada vez mais desconfortável.
Então veio o lance que mudou a noite de vez.
Rossi errou na saída, Jorginho acabou envolvido na jogada com Rony, e o VAR entrou em cena. A revisão demorou quase dez minutos. Quando a decisão foi confirmada, o Flamengo estava com um jogador a menos e uma vantagem de dois gols que, de repente, parecia muito menos segura.
Sobre a arbitragem, cada lance precisa ser discutido com critério. A demora da revisão incomoda, os critérios precisam ser claros e o torcedor tem todo o direito de cobrar explicações. Mas seria conveniente demais colocar toda a conta na mesa do árbitro e deixar o restante para depois.
A jogada começou com um erro nosso. Isso também precisa ser dito.
Rossi não deveria ter colocado a equipe naquela situação. Jorginho terminou expulso, e o Flamengo perdeu uma peça importante justamente quando o Santos aumentava a pressão. Não é necessário transformar os dois em vilões para reconhecer o tamanho do prejuízo. Jogadores erram. O problema é quando o erro individual encontra uma equipe que já está perdendo o controle da partida.
Com dez jogadores, o cenário ficou muito mais difícil. Neymar converteu o primeiro pênalti, depois marcou novamente em outra cobrança, e o Santos arrancou o empate. A Vila Belmiro, que assistia a uma partida praticamente perdida para o time da casa, passou a acreditar. O Flamengo, que parecia caminhar para uma vitória importante, terminou tentando sobreviver.
E aqui faço uma ressalva que me parece justa: jogar com dez jogadores contra um adversário empurrado pela torcida não é tarefa simples. Não se pode exigir que o Flamengo mantenha o mesmo comportamento ofensivo, a mesma ocupação de espaços e a mesma capacidade de pressionar. A expulsão alterou tudo. Seria injusto fingir que nada mudou.
Mas a dificuldade de uma situação não elimina a obrigação de enfrentá-la com inteligência.
Eu gostaria de ter visto o Flamengo encontrar um jeito de fazer o tempo trabalhar a seu favor. Uma saída mais simples, uma posse mais paciente, um time mais compacto, menos espaços oferecidos ao Santos. Não precisava continuar jogando como se ainda estivesse atrás no placar. Precisava entender que, naquele momento, o jogo tinha virado outra coisa.
Talvez seja pedir demais a quem está dentro do campo, sob pressão, com um homem a menos e um estádio inteiro empurrando o adversário. Talvez. Mas é justamente nessas noites que se percebe a diferença entre uma equipe talentosa e uma equipe que está aprendendo a ser campeã.
Jardim terá de olhar para a própria participação nessa história. As mudanças de Cuca alteraram o cenário, e a resposta rubro-negra não veio com a rapidez necessária. O treinador reconheceu depois da partida os erros de decisão e a falta de amplitude esperada. É bom que reconheça. Mas, no futebol, a entrevista é apenas o começo da explicação. A resposta verdadeira aparece no próximo jogo, quando o mesmo tipo de pressão voltar a bater à porta.
O empate deixou o Flamengo com 61 pontos, apenas um à frente do Palmeiras. A disputa segue aberta. Não há motivo para anunciar uma crise definitiva, decretar o fim de qualquer sonho ou transformar uma noite ruim em sentença para o restante da temporada. Quem acompanha futebol há décadas sabe que o campeonato é cheio de curvas, e a tabela de hoje não escreve sozinha o resultado de amanhã.
Ainda assim, seria um erro tratar o resultado como um simples ponto conquistado fora de casa. O contexto pesa. O Flamengo abriu 2 a 0 e deixou escapar uma vitória que poderia ter fortalecido sua posição na liderança. Perdeu dois pontos, perdeu o controle do jogo e deixou uma advertência que não pode ser ignorada.
O torcedor rubro-negro conhece a diferença entre perder porque o adversário foi melhor e terminar a noite com a impressão de que havia mais a fazer. A primeira situação pode ser dolorosa, mas às vezes é preciso reconhecer a superioridade alheia. A segunda é que fica remoendo. Porque a gente volta aos lances, imagina uma decisão diferente, pensa em uma substituição mais cedo, em um passe que não deveria ter sido dado, em uma bola que precisava ter sido afastada para longe.
É uma espécie de futebol que continua sendo jogado na cabeça de quem assistiu. E, nesse campeonato particular da memória, o torcedor não costuma ser generoso com os próprios jogadores.
Não quero transformar o Flamengo em réu por uma noite. Quero apenas que o time entenda o que deixou escapar. A vantagem não era uma promessa, era uma realidade construída em campo. O adversário reagiu, o jogo mudou, houve um erro grave e a expulsão tornou tudo mais complicado. Mas, entre o primeiro gol do Santos e o apito final, faltou ao Flamengo encontrar uma maneira de impedir que a partida fugisse completamente de suas mãos.
O futebol tem dessas crueldades: às vezes, não basta fazer dois gols, jogar melhor durante um período e parecer perto da vitória. É preciso cuidar dela. Como se cuida de uma casa em dia de tempestade, fechando as janelas antes que o vento entre. O Flamengo deixou algumas abertas, e o Santos aproveitou.
Na Vila Belmiro, o Rubro-Negro não perdeu a liderança, não perdeu o campeonato e tampouco perdeu o direito de sonhar. Perdeu uma vitória que parecia sua. E, quando se disputa um título ponto a ponto, esse tipo de descuido cobra um preço que só será conhecido mais adiante.
Por enquanto, fica a lembrança de uma noite que começou com dois gols de esperança e terminou com dois de frustração. O Flamengo continua na briga, mas precisa aprender a não confundir a vantagem com a missão cumprida.
Porque o apito encerrou o jogo em Santos. A obrigação de entender o que aconteceu começa agora.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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