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22 de outubro, 202621:30
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Opinião

O Flamengo não caiu apenas nos pênaltis. Caiu antes, nas escolhas e na falta de coragem

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Por Miguel Sampaio

23 de outubro de 2026

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Há noites em que o futebol termina, mas o apito continua soando dentro da cabeça do torcedor. A gente desliga a televisão, abandona a cadeira, olha para o nada e tenta encontrar uma explicação que não pareça uma ofensa à própria inteligência. Na quinta-feira, o Flamengo deixou mais uma dessas noites para a sua gente. O Estudiantes está na final da Libertadores. O Flamengo ficou pelo caminho, derrotado por 3 a 2 nos pênaltis, depois de um empate sem gols no tempo regulamentar. Mas seria confortável demais colocar toda a culpa naquela marca de onze metros. E, convenhamos, confortável é justamente o que o futebol rubro-negro não deveria ser neste momento.

Conheço bem essa conversa que aparece depois de uma eliminação. Dizem que pênalti é loteria, que o futebol tem dessas coisas, que ninguém ganha sempre. Tudo verdade, desde que a verdade não seja usada como cortina para esconder o que aconteceu antes da bola chegar à marca penal. O Flamengo não foi eliminado apenas porque errou cobranças. Foi eliminado porque passou tempo demais sem encontrar respostas, porque tomou decisões que não produziram o futebol necessário e porque, quando a partida ofereceu uma oportunidade de mudar de destino, faltou transformar a circunstância em vantagem real.

Leonardo Jardim tem responsabilidades que não podem ser empurradas para o goleiro adversário, para o acaso ou para o nervosismo de quem bateu pênalti. O treinador foi contratado para tomar decisões, organizar o time e encontrar soluções quando o plano inicial não funciona. É justamente nas noites grandes, quando o ambiente aperta e o adversário resiste, que o trabalho de um comandante precisa aparecer com mais clareza. Não basta montar uma equipe para evitar o erro. O Flamengo não pode entrar em uma semifinal de Libertadores como se a primeira obrigação fosse não perder, deixando a iniciativa, a imaginação e a coragem para depois.

A covardia de Jardim, nessa semifinal, não esteve em um lance isolado nem pode ser explicada apenas por uma substituição. Esteve na postura que o Flamengo adotou nos dois jogos. Na Argentina, faltou ambição para tratar a ida como uma oportunidade de construir vantagem, e não apenas como uma noite em que o mais importante parecia ser voltar vivo para o Rio. Em casa, diante de um Maracanã lotado, com a torcida fazendo a sua parte e carregando a expectativa de uma classificação, o treinador voltou a apresentar um Flamengo aquém da urgência que a decisão exigia. É duro escrever isso, mas é preciso: Jardim pareceu mais preocupado em não perder do que disposto a fazer o necessário para ganhar. E, quando se comanda um clube como o Flamengo em uma semifinal de Libertadores, jogar pelo medo é uma forma de desrespeitar a grandeza da oportunidade. Não se exige irresponsabilidade nem ataque desordenado; exige-se coragem, leitura e iniciativa. O Estudiantes entendeu o tamanho da batalha e resistiu. O Flamengo, sob o comando de Jardim, passou os dois confrontos sem demonstrar a autoridade que se esperava. A eliminação nos pênaltis foi o desfecho. A falta de ousadia já vinha de antes.

O empate sem gols no jogo de ida já havia deixado a decisão aberta. Na volta, diante de um Maracanã carregado de expectativa, o Flamengo precisava oferecer mais do que controle sem consequência. Precisava transformar a posse em ameaça, a pressão em oportunidade e a superioridade técnica que se espera de um elenco desse porte em futebol capaz de decidir uma classificação. Mas o time voltou a esbarrar na dificuldade de construir algo que realmente ferisse o Estudiantes. A partida foi avançando, o relógio foi consumindo a esperança e a sensação incômoda permaneceu: havia muita responsabilidade em campo, mas pouca gente conseguia assumir o comando do destino rubro-negro.

E então veio a expulsão de Baltasar Rodríguez, logo no início do segundo tempo. Um adversário a menos. Uma circunstância que exigia inteligência, circulação mais rápida, movimentação, ocupação dos espaços e coragem para empurrar o rival para trás. Não era garantia de classificação, naturalmente. Futebol não funciona por decreto. Mas era uma oportunidade concreta, dessas que uma equipe preparada precisa reconhecer e aproveitar. O Flamengo, porém, não conseguiu transformar a vantagem numérica em domínio ofensivo decisivo. Ter um jogador a mais no campo não significa automaticamente jogar melhor, mas é obrigação de uma comissão técnica encontrar maneiras de fazer essa vantagem importar.

É aqui que a crítica a Jardim deixa de ser uma reação nervosa ao resultado e passa a ser uma cobrança sobre o trabalho. Que soluções foram encontradas quando o jogo pediu outra coisa? Que mudança alterou de fato o comportamento da equipe? Onde estava a urgência de quem compreendia que uma temporada inteira podia estar sendo decidida naqueles minutos? Não se trata de exigir que um treinador faça mágica. Trata-se de cobrar que ele não confunda prudência com passividade nem organização com incapacidade de arriscar. Em uma semifinal, há momentos em que o medo de perder se torna o caminho mais curto para perder.

Jardim não bateu todos os pênaltis, é verdade. Mas também não pode usar as cobranças como fronteira para separar a própria responsabilidade da eliminação. O treinador participa da construção de uma equipe, define comportamentos, prepara alternativas e influencia a maneira como os jogadores enfrentam a pressão. Quando o time não encontra soluções durante uma partida tão importante, a comissão técnica precisa responder por isso. E, quando a vantagem numérica não produz a reação esperada, a pergunta não pode ser apenas por que os jogadores não fizeram mais. É preciso perguntar o que o comando fez para que eles tivessem condições de fazer.

Os jogadores, por sua vez, também não podem sair dessa história protegidos pela sombra do treinador. O futebol tem uma injustiça conhecida: o técnico costuma ser o primeiro a receber a conta, enquanto os atletas, às vezes, se escondem atrás do esquema, da substituição ou da falta de uma jogada ensaiada. Mas a camisa do Flamengo não joga sozinha, e o tamanho do salário não se converte em personalidade dentro de campo. Em noites como essa, espera-se que os jogadores mais experientes chamem a responsabilidade, que os protagonistas encontrem uma maneira de desequilibrar e que o grupo demonstre compreender a dimensão do que está disputando.

Não é razoável exigir que todo passe seja perfeito ou que todo atacante marque em cada oportunidade. A crítica não está em pedir futebol sem erros, porque isso não existe. Está em cobrar uma equipe que, diante de uma decisão continental, não conseguiu apresentar a força ofensiva e a capacidade de reação que a ocasião exigia. A eliminação dói também porque o torcedor reconhece a diferença entre ser superado por um adversário que joga melhor e assistir ao próprio time passar tempo demais sem encontrar o caminho. O Estudiantes fez a sua parte, resistiu e sobreviveu à decisão. O Flamengo precisava ter feito mais para não deixar a classificação depender exclusivamente das cobranças.

Depois vieram os pênaltis. Muslera defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique. Três nomes que carregam experiência, talento e peso dentro do elenco, mas que naquela hora não conseguiram converter suas oportunidades. Não há necessidade de humilhar jogador, transformar uma cobrança perdida em sentença sobre uma carreira ou fingir que a pressão de uma semifinal é coisa pequena. Há, sim, necessidade de reconhecer o que aconteceu. Em decisões desse tamanho, a responsabilidade de bater também faz parte da profissão. O goleiro adversário merece o crédito por defender; os cobradores precisam assumir que falharam. As duas coisas cabem na mesma frase.


E que ninguém confunda responsabilidade com caça às bruxas. O torcedor tem direito à indignação, mas a indignação não precisa escolher um único rosto para descarregar toda a frustração. Seria fácil apontar apenas para Jardim e encerrar o assunto. Seria igualmente cômodo culpar os três jogadores que perderam suas cobranças e ignorar os minutos anteriores. O fracasso foi construído por diferentes decisões, omissões e limitações. O treinador responde pelo plano e pelas soluções que não apareceram. Os jogadores respondem pelo que entregaram — e pelo que deixaram de entregar — dentro de campo. A direção, por sua vez, precisa avaliar se o projeto esportivo está à altura das ambições que anuncia.

O Flamengo tem uma torcida acostumada a noites históricas. Quem atravessou décadas de Maracanã sabe que a memória rubro-negra não é feita apenas de conquistas, mas de derrotas que ensinaram alguma coisa. Lembro de um tempo em que o torcedor saía do estádio discutindo o lance, o passe, a coragem de um jogador e a decisão de um treinador. A diferença é que, depois de uma noite assim, a conversa não pode terminar em uma frase pronta sobre o caráter imprevisível do futebol. Se a eliminação servir apenas para produzir entrevistas constrangidas e promessas de revanche, a dor terá sido desperdiçada.

O Flamengo não tem obrigação de vencer toda Libertadores. Nenhum clube tem. Tem, porém, a obrigação de competir com um plano coerente, de reagir quando o jogo muda e de cobrar de si mesmo um nível compatível com o elenco e com a grandeza que reivindica. Não basta falar em ambição antes da partida e pedir compreensão depois dela. A camisa pesa, mas não corre; a história inspira, mas não organiza o time; a torcida empurra, mas não pode entrar em campo para resolver aquilo que os profissionais não conseguiram resolver.

A eliminação diante do Estudiantes não se explica por uma única cobrança perdida. O Flamengo chegou aos pênaltis depois de uma atuação que deixou perguntas importantes sobre a estratégia de Jardim, a resposta da equipe e a capacidade de aproveitar uma vantagem numérica. E saiu deles sem converter três cobranças defendidas por Muslera. É preciso olhar para o conjunto, sem exagerar o alcance de um erro e sem diminuir a dimensão de todos os outros. A análise honesta não oferece consolo fácil, mas ao menos impede que o próximo fracasso encontre o terreno preparado pelas mesmas desculpas.

Amanhã, o torcedor ainda vai vestir a camisa, discutir futebol e defender o Flamengo. É assim que funciona esse amor teimoso: não pede licença à razão, embora também não deva abrir mão dela. Mas apoiar o clube não significa absolver quem falhou. Pelo contrário. Quem ama exige que o Flamengo esteja à altura da própria história — e isso inclui reconhecer quando o treinador não encontra respostas, quando os jogadores não assumem o tamanho da decisão e quando o discurso fica maior que o desempenho.

A Libertadores foi embora. O que não pode ir embora com ela é a obrigação de aprender. Jardim precisa responder pelo futebol que escolheu apresentar. Os jogadores precisam responder pelo que fizeram quando a decisão esteve em suas mãos. E o Flamengo, como instituição, precisa ter coragem de avaliar o trabalho sem se esconder atrás da loteria dos pênaltis. Porque o acaso pode decidir uma cobrança. Não pode servir de explicação para uma noite inteira.

No Flamengo, perder uma decisão já é doloroso. Sair dela sem encarar os próprios erros seria muito pior.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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