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08 de outubro, 202619:30
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Opinião

Pedro quer se impor como protagonista... mas o Flamengo precisa ser maior que qualquer protagonista

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Por Miguel Sampaio

07 de outubro de 2026

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Existe uma diferença importante entre querer mais e achar que merece mais. Pedro, talvez sem perceber a dimensão do gesto, deixou essa fronteira um pouco borrada na vitória sobre o Bragantino.

O gol havia acabado de sair. O Flamengo vencia por 2 a 0. O camisa 9 acabara de interromper uma sequência de cinco partidas sem marcar. Era natural que quisesse permanecer em campo. Natural que pensasse no segundo gol, no terceiro, na oportunidade de recuperar terreno, confiança e protagonismo.

O problema não foi querer ficar.

O problema foi a maneira de demonstrar que não queria sair.

Pedro questionou Leonardo Jardim no momento da substituição. A reclamação foi captada pelas câmeras e repercutiu. Depois, o próprio atacante explicou que queria continuar porque havia acabado de marcar e pretendia fazer mais gols. A explicação é compreensível. A atitude, nem tanto.

E talvez seja justamente por Pedro ser um jogador tão importante que a cobrança precise ser feita com mais firmeza, não com menos.

O Flamengo não pode virar refém do desejo de ninguém


Um grande atacante precisa ter fome. Precisa querer marcar. Precisa ficar irritado quando sai de campo. Precisa acreditar que pode decidir uma partida.

Isso faz parte do ofício.

Mas um grande time precisa de algo que está acima da fome individual: disciplina coletiva.

Leonardo Jardim não tirou Pedro porque o atacante estava mal. Tampouco porque queria diminuir sua importância. Bruno Henrique entrou no lugar dele em uma partida que estava sob controle, e o treinador tinha uma leitura sobre o que precisava naquele momento.

É exatamente para isso que existe treinador.

Se cada jogador pudesse decidir sozinho quando deve sair, quando deve entrar, quanto deve jogar e qual estratégia deve prevalecer, não precisaríamos de comissão técnica. Bastaria entregar uma prancheta para cada camisa e esperar que o futebol resolvesse o resto.

Não funciona assim.

Pedro pode discordar. Pode conversar. Pode cobrar explicações. Pode até ficar contrariado. O que não pode é transformar a contrariedade em uma espécie de contestação pública à autoridade do treinador.

O episódio não acontece no vazio


Talvez por isso o episódio tenha incomodado dentro do Flamengo mais do que uma simples reclamação de campo normalmente incomodaria.

Pedro já havia vivido turbulências relacionadas à postura e ao comportamento no clube. Agora, segundo reportagem do ge, parte do departamento de futebol voltou a demonstrar desconforto com a forma como o atacante reage às adversidades. Bruno Henrique teria sido um dos jogadores particularmente incomodados com o episódio.

É preciso tomar cuidado para não transformar isso em novela de vestiário. Não existe, pelo que foi divulgado, uma crise instalada entre Pedro e o Flamengo. Jardim, inclusive, tratou o episódio com naturalidade e manteve uma relação próxima com o atacante.

Mas uma coisa é não existir crise.

Outra é fingir que não existe um sinal de alerta.

E o sinal é bastante claro: Pedro precisa entender que recuperar o protagonismo não significa recuperar privilégios.

O gol não compra permanência em campo


Existe uma armadilha particularmente perigosa para jogadores decisivos: acreditar que o gol lhes dá algum tipo de crédito automático para permanecer em campo.

Não dá.

Gol não compra substituição.

Nome não compra titularidade.

História não compra minutos.

E muito menos reclamação, compra autoridade.

Pedro havia passado cinco jogos sem marcar pelo Flamengo antes de balançar a rede contra o Bragantino. Nas quartas de final da Libertadores, havia começado no banco nos dois jogos contra o Independiente del Valle e sequer entrado na segunda partida. Poucos dias depois, marcou, foi convocado para a Seleção e voltou a encontrar confiança.

Era justamente o momento de respirar.

De entender que o caminho estava sendo reconstruído.


Em vez disso, a irritação na saída criou uma pequena sombra sobre aquilo que deveria ter sido apenas uma noite feliz.

Depois veio a Seleção


E aqui aparece uma ironia interessante.

Pedro saiu do Flamengo contrariado. Pouco depois, foi chamado por Carlo Ancelotti, ganhou espaço e respondeu em campo. Contra a Índia, marcou e deu assistência na goleada brasileira por 4 a 0. Voltou ao ambiente da Seleção com elogios e a sensação de que sua carreira internacional estava novamente ganhando força.

Tudo isso é excelente para Pedro.

Também é excelente para o Flamengo.

Mas existe uma diferença entre recuperar confiança e alimentar uma sensação de que tudo precisa girar ao redor de você.

Pedro precisa aproveitar o bom momento para reconstruir sua posição dentro do time. Não para exigir que o time se adapte permanentemente às suas vontades.

Leonardo Jardim já demonstrou que conta com ele. O português costuma elogiá-lo e, desde sua chegada, ajudou a recolocar o atacante em uma posição de protagonismo.

Não é pouca coisa.

O Flamengo está disputando algo maior


Talvez seja essa a parte que mais precise ser lembrada.

O Flamengo não está tentando simplesmente fazer Pedro voltar a marcar gols.

O Flamengo está tentando ganhar o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.

São objetivos que exigem um elenco capaz de compreender que, em determinados momentos, o interesse coletivo será maior que a vontade individual.

Pedro vai começar alguns jogos. Vai terminar outros no banco. Vai ser substituído depois de marcar. Em algumas noites será o melhor jogador do campo. Em outras, será Bruno Henrique, Samuel Lino, Plata, Paquetá ou qualquer outro que Jardim entender ser mais adequado para aquele cenário.

É assim que funciona um elenco campeão.

O privilégio de ter grandes jogadores é justamente poder escolher entre grandes jogadores.

O problema começa quando o grande jogador acredita que sua condição de protagonista o coloca acima das decisões que sustentam o grupo.

A fome é necessária. A maturidade também.


Eu gosto de atacante que fica bravo quando é substituído.

Atacante satisfeito demais com o banco de reservas nunca foi uma boa notícia.

Mas existe uma diferença enorme entre a fome silenciosa de quem quer voltar para o jogo e a irritação de quem parece questionar a decisão do comandante diante de todo mundo.

Pedro não precisa deixar de ser competitivo. Precisa aprender a canalizar essa competitividade.

Pode sair contrariado. Pode conversar depois. Pode dizer ao treinador que queria continuar. Pode trabalhar para jogar os 90 minutos na próxima partida.

O que ele precisa evitar é transformar uma frustração absolutamente humana em um hábito.

Porque o Flamengo já teve jogadores maiores que qualquer crise individual. E também já teve temporadas inteiras prejudicadas quando problemas individuais começaram a ocupar espaço demais dentro do coletivo.

Pedro tem futebol para ser decisivo neste Flamengo.

Tem técnica, presença de área, inteligência e agora carrega também a confiança de uma boa passagem pela Seleção. O próprio Ancelotti o elogiou depois da atuação contra a Índia, destacando sua experiência e capacidade técnica.

Mas justamente por tudo isso, ele precisa entender uma coisa que parece simples e que o futebol costuma ensinar da maneira mais dura: ser protagonista não significa ser maior que o time.

No Flamengo de Leonardo Jardim, Pedro pode — e deve — querer decidir jogos.

Só não pode querer decidir também quando o treinador deve tirá-lo de campo.

Porque, no fim das contas, o gol é dele.

Mas o Flamengo é de todos.

E, quando outubro chegar ao fim, ninguém vai se lembrar de quem saiu contrariado aos 25 minutos do segundo tempo.

Vão se lembrar de quem ajudou o Flamengo a chegar até o fim.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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