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08 de outubro, 202619:30
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Opinião

Quando o dinheiro entra em campo

MI

Por Miguel Sampaio

26 de setembro de 2026

47 acessos
Há uma coisa curiosa no futebol moderno: o sujeito entra no estádio para ver vinte e dois homens correndo atrás de uma bola e, quando percebe, está discutindo imposto, publicidade, contrato, regulamentação e mercado clandestino.

Antigamente, a conversa na arquibancada era mais simples.

O sujeito reclamava do centroavante, xingava o juiz, perguntava por que o ponta não cruzava e, na saída, ainda encontrava tempo para discutir se o café do estádio estava mais caro do que no jogo anterior.

Hoje não.

Hoje tem algoritmo.

Tem aplicativo.

Tem cotação.

Tem bônus.

Tem patrocinador.

Tem um mundo inteiro de dinheiro correndo ao lado da bola.

E agora o Flamengo resolveu entrar numa discussão que, para muita gente, parecia distante do campo.

Não é.

O dinheiro também joga

O Flamengo se posicionou contra uma possível proibição das apostas esportivas.

Não foi exatamente uma surpresa.

O clube tem uma casa de apostas estampada no lugar mais nobre da camisa. E não estamos falando de um anúncio pequeno escondido no canto do uniforme.

É o peito.

O espaço onde, durante décadas, esteve o símbolo do próprio Flamengo e, de vez em quando, o nome de algum patrocinador disposto a pagar caro para ficar ali.

O futebol sempre teve dinheiro.

Sempre.

A diferença é que antigamente a gente fingia que não.

Eu me lembro de uma época em que o torcedor sabia o nome do patrocinador porque ele estava na camisa.

Hoje, se bobear, sabe até a odd da próxima partida.

Mudaram os tempos.

A bola continua redonda.

O dinheiro, nem tanto.

Não gosto de discurso pronto

Também não gosto dessa história de escolher um lado e fingir que o outro é burro.

O Flamengo tem seus interesses.

É claro que tem.

Se uma empresa que paga uma fortuna pelo espaço na camisa deixar de existir, alguém vai precisar explicar ao caixa do clube como aquela receita será reposta.

E caixa de clube de futebol, como aprendi ao longo da vida, não aceita poesia.

Aceita dinheiro.

A conta chega mesmo quando o time está ganhando.

Mas há também o outro lado.

As apostas não são uma brincadeira inocente para todo mundo.

Há quem aposte dez reais e durma tranquilo.

Há quem aposte dez reais e passe a noite tentando recuperar os outros cem que perdeu.

É aí que a conversa muda.

Porque futebol é entretenimento. Aposta também pode ser entretenimento.

Mas, para uma parcela das pessoas, pode deixar de ser.

E quando deixa de ser, já não estamos falando apenas de futebol.

Proibir é uma palavra muito bonita

"Proibir."

Gosto da palavra.

Ela resolve muita coisa no discurso.

Proibiu, acabou.

Só tem um detalhe.

A vida costuma ser mais teimosa do que uma caneta oficial.

Se amanhã alguém decidir que as apostas desapareceram, será que desaparecerão?

Ou simplesmente irão para algum canto escuro da internet, onde ninguém fiscaliza, ninguém cobra imposto e ninguém sabe muito bem quem está do outro lado?

Essa é uma pergunta que merece ser feita.

Porque o mercado ilegal não costuma pedir licença para existir.

Ele simplesmente existe.

Foi assim com muita coisa.

Pode ser assim novamente.

Mas regulamentar também não é passar a mão na cabeça

Aqui está a parte que talvez incomode os dois lados.

Se o mercado é legal, precisa ser responsável.

Se anuncia, precisa ter limite.

Se patrocina futebol, precisa entender que futebol também é família, criança, adolescente.

Se existe fiscalização, ela precisa funcionar.

E se uma empresa não cumpre as regras, precisa pagar por isso.

Não adianta colocar um selo de "jogo responsável" no anúncio e considerar a missão cumprida.

Responsabilidade não é uma palavra bonita impressa em letras pequenas.

É prática.

É regra.

É fiscalização.

É consequência.

O Flamengo não pode esquecer disso

O Flamengo é grande demais para olhar essa discussão apenas pelo tamanho do cheque.

O clube tem influência.

Tem milhões de torcedores.

Tem uma camisa que aparece em casas onde talvez uma propaganda de aposta nunca aparecesse sozinha.

Isso traz responsabilidade.

E responsabilidade, no futebol, não pode ser apenas uma palavra usada quando convém.

O Flamengo tem todo o direito de defender seus contratos.

Mas também precisa defender seu torcedor.

As duas coisas não deveriam ser incompatíveis.


O futebol já vendeu muita coisa

Houve uma época em que camisa de futebol era quase sagrada.

Depois vieram os bancos.

As empresas de telefonia.

As companhias aéreas.

As bebidas.

Os planos de saúde.

As montadoras.

E, agora, as casas de apostas.

A camisa foi ficando menor enquanto o espaço comercial aumentava.

Não sei se o futebol ficou mais rico.

Mas certamente ficou mais caro.

E talvez essa seja a pergunta que deveríamos fazer.

Quanto dinheiro é suficiente?

Não tenho a resposta.

Desconfio, aliás, de quem tenha.

No futebol, dinheiro nunca parece suficiente.

Sempre existe um jogador mais caro.

Um estádio mais moderno.

Uma folha maior.

Um contrato maior.

Uma premiação maior.

E, quando tudo aumenta, alguém precisa pagar a conta.

Às vezes é o patrocinador.

Às vezes é o torcedor.

Às vezes são os dois.

O Flamengo entrou em campo sem entrar em campo

É curioso.

O Flamengo não jogou hoje.

Mas entrou em campo mesmo assim.

Entrou porque quando um clube chega a determinado tamanho, suas decisões deixam de ser apenas decisões administrativas.

Elas viram assunto público.

Quando o Flamengo fala, muita gente escuta.

Quando o Flamengo reclama, muita gente responde.

Quando o Flamengo defende uma posição, outros clubes começam a olhar para ela.

É o preço — e também o privilégio — de ser grande.

Por isso, essa discussão não deveria terminar numa briga entre quem gosta de aposta e quem não gosta.

A questão é maior.

Queremos um futebol financiado por quem?

Até onde vai a publicidade?

Quem protege o torcedor?

Quem fiscaliza?

E, principalmente, quem será responsável quando alguma coisa der errado?

No fim, a bola continua sendo a parte mais simples

Talvez seja por isso que eu ainda goste tanto do futebol.

No campo, pelo menos, as coisas continuam relativamente honestas.

A bola entra ou não entra.

É gol ou não é.

O juiz pode errar.

O atacante pode perder.

O goleiro pode defender.

Depois do apito, cada um vai para casa com sua versão da história.

Fora dele, é diferente.

Tem contrato.

Tem dinheiro.

Tem interesse.

Tem política.

Tem mercado.

Tem governo.

Tem torcedor.

Tem empresa.

E agora temos também uma discussão sobre se apostar deve continuar fazendo parte dessa paisagem.

Não sei qual será a decisão.

Mas sei uma coisa.

O futebol brasileiro precisa aprender a conviver com o dinheiro sem permitir que o dinheiro decida tudo.

Porque quando o dinheiro começa a escolher até aquilo que o torcedor deve desejar, talvez seja hora de lembrar por que tudo isso começou.

Por causa de uma bola.

Uma bola que, até onde eu sei, nunca precisou de cotação para entrar no gol.

E talvez seja bom que continue assim.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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