Quando o Flamengo achou que a noite já tinha acabado
21 de setembro de 2026
Flamengo 2 a 1 Bragantino, no Maracanã, foi um pouco disso.
O Flamengo venceu. Chegou aos 60 pontos. Abriu três de vantagem para o Palmeiras. Fez o que precisava fazer numa rodada em que o concorrente direto tropeçou.
Tudo certo.
Só que futebol, como a gente aprende depois de alguns milhares de partidas, raramente deixa a conta tão simples.
O Flamengo começou a noite com a bola no pé e uma certa autoridade de quem sabe exatamente o tamanho da camisa que veste. O Bragantino olhava, corria, tentava acompanhar. Carrascal se mexia por um lado, Plata pelo outro, Arrascaeta procurava aqueles espaços que só ele parece enxergar antes dos outros.
E Varela apareceu onde ninguém esperava.
Gol.
É curioso como o futebol gosta dessas pequenas traições. O lateral, que normalmente passa boa parte da vida correndo para impedir que os outros cheguem à área, resolveu chegar ele mesmo.
E chegou na hora certa.
O primeiro tempo teve aquele cheiro de goleada que às vezes o Flamengo deixa escapar por excesso de gentileza. Criou, rondou, acertou a trave, encontrou Tiago Volpi pelo caminho. O goleiro do Bragantino fez algumas defesas que impediram a partida de envelhecer cedo demais.
O Flamengo parecia jogar contra o relógio e contra a própria incapacidade de transformar domínio em vantagem.
Mas foi para o intervalo ganhando.
E isso, no futebol brasileiro, já é quase uma espécie de luxo.
Depois veio o segundo tempo.
E veio Pedro.
O centroavante que havia passado alguns jogos procurando o gol encontrou a bola no lugar onde costuma encontrar respostas: dentro da área.
Jorginho desviou na primeira trave. Pedro apareceu. Gol.
2 a 0.
Ali, naquele instante, o jogo parecia resolvido.
Parecia.
E essa palavra é perigosa no futebol.
Pouco depois, Jardim tirou Pedro. O atacante não gostou. Reclamou, gesticulou, perguntou ao banco aquilo que a televisão captou com clareza: “Todo jogo?”. Depois, os dois se abraçaram no fim.
Gosto dessas pequenas cenas.
Não porque exista necessariamente um problema nelas, mas porque elas lembram que futebol é também feito de homens que querem jogar, marcar, permanecer em campo. Há uma diferença enorme entre a frieza de uma planilha e o sangue quente de quem acabou de fazer um gol.
Pedro queria ficar.
Jardim queria administrar.
E os dois, cada um à sua maneira, estavam tentando cuidar do mesmo Flamengo.
O problema é que, enquanto os homens discutiam silenciosamente sobre o tempo de jogo, o Bragantino começava a discutir com o Flamengo sobre o resultado.
Veio o gol contra de Bruno Henrique.
2 a 1.
De repente, aquela noite que parecia encaminhada ganhou novamente uma porta entreaberta.
E futebol gosta de portas entreabertas.
O Bragantino avançou. O Flamengo precisou defender. Rossi apareceu quando Herrera bateu firme. Os minutos finais ganharam aquela velha aparência de relógio que anda mais devagar quando o seu time está ganhando por um gol.
Quem já viveu Maracanã sabe.
Quando o Flamengo está ganhando por 2 a 0, a arquibancada canta.
Quando está ganhando por 2 a 1 aos 45 do segundo tempo, a arquibancada começa a fazer contas.
É outra música.
E talvez essa tenha sido a pequena imperfeição de uma noite que, no papel, foi excelente.
Leonardo Jardim explicou depois que o planejamento passava também pela gestão física, depois de quatro jogos em dez dias. A ideia era manter o time “fresco” diante de uma sequência pesada.
Faz sentido.
Tem hora em que poupar energia também é jogar.
Mas existe uma diferença delicada entre administrar uma partida e convidar o adversário para participar dela.
O Flamengo ficou perto dessa fronteira.
Ainda assim, venceu.
E isso também precisa ser dito.
Porque existe uma certa mania no futebol de transformar toda vitória em interrogatório. Se ganha de 2 a 1, perguntam por que não foi 4 a 0. Se controla, perguntam por que não atacou. Se ataca, perguntam por que não se protegeu.
O futebol não é uma tese de doutorado.
Às vezes é apenas domingo, Maracanã, três pontos e uma tabela que ficou mais bonita.
O Flamengo chegou aos 60.
O Palmeiras ficou nos 57. A liderança ganhou mais três centímetros de espaço. Não é título, não é garantia, não é nada além de uma vantagem construída em setembro. Mas é vantagem.
E campeonato longo também se ganha assim: com os jogos em que se joga muito, com os jogos em que se joga menos e com aqueles em que se termina olhando para o relógio.
Há uma beleza particular nessas vitórias imperfeitas.
Porque elas lembram que o Flamengo não precisa ser brilhante em todos os domingos para continuar sendo protagonista.
Precisa saber vencer.
Neste domingo, soube.
E talvez a melhor fotografia da noite esteja justamente naquele abraço entre Pedro e Jardim depois do apito final.
O jogador queria mais minutos.
O treinador queria preservar o jogador.
No fim, os dois estavam comemorando.
É assim que funciona o futebol quando dá certo: cada um enxerga a partida de um lugar diferente, mas todos acabam caminhando para o mesmo abraço.
O Flamengo ganhou.
Por 2 a 1.
E, por alguns minutos, nos fez lembrar que o coração rubro-negro também precisa de treino.
Porque tranquilidade, no Maracanã, nunca foi exatamente uma especialidade.
E talvez seja melhor assim.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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