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20 de setembro, 202618:30
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Opinião

Quando o Flamengo achou que a noite já tinha acabado

MI

Por Miguel Sampaio

21 de setembro de 2026

17 acessos
Há jogos em que o placar conta uma história. E há jogos em que o placar apenas confirma que a história poderia ter sido outra.

Flamengo 2 a 1 Bragantino, no Maracanã, foi um pouco disso.

O Flamengo venceu. Chegou aos 60 pontos. Abriu três de vantagem para o Palmeiras. Fez o que precisava fazer numa rodada em que o concorrente direto tropeçou.

Tudo certo.

Só que futebol, como a gente aprende depois de alguns milhares de partidas, raramente deixa a conta tão simples.

O Flamengo começou a noite com a bola no pé e uma certa autoridade de quem sabe exatamente o tamanho da camisa que veste. O Bragantino olhava, corria, tentava acompanhar. Carrascal se mexia por um lado, Plata pelo outro, Arrascaeta procurava aqueles espaços que só ele parece enxergar antes dos outros.

E Varela apareceu onde ninguém esperava.

Gol.

É curioso como o futebol gosta dessas pequenas traições. O lateral, que normalmente passa boa parte da vida correndo para impedir que os outros cheguem à área, resolveu chegar ele mesmo.

E chegou na hora certa.

O primeiro tempo teve aquele cheiro de goleada que às vezes o Flamengo deixa escapar por excesso de gentileza. Criou, rondou, acertou a trave, encontrou Tiago Volpi pelo caminho. O goleiro do Bragantino fez algumas defesas que impediram a partida de envelhecer cedo demais.

O Flamengo parecia jogar contra o relógio e contra a própria incapacidade de transformar domínio em vantagem.

Mas foi para o intervalo ganhando.

E isso, no futebol brasileiro, já é quase uma espécie de luxo.

Depois veio o segundo tempo.

E veio Pedro.

O centroavante que havia passado alguns jogos procurando o gol encontrou a bola no lugar onde costuma encontrar respostas: dentro da área.

Jorginho desviou na primeira trave. Pedro apareceu. Gol.

2 a 0.

Ali, naquele instante, o jogo parecia resolvido.

Parecia.

E essa palavra é perigosa no futebol.

Pouco depois, Jardim tirou Pedro. O atacante não gostou. Reclamou, gesticulou, perguntou ao banco aquilo que a televisão captou com clareza: “Todo jogo?”. Depois, os dois se abraçaram no fim.

Gosto dessas pequenas cenas.

Não porque exista necessariamente um problema nelas, mas porque elas lembram que futebol é também feito de homens que querem jogar, marcar, permanecer em campo. Há uma diferença enorme entre a frieza de uma planilha e o sangue quente de quem acabou de fazer um gol.

Pedro queria ficar.

Jardim queria administrar.

E os dois, cada um à sua maneira, estavam tentando cuidar do mesmo Flamengo.

O problema é que, enquanto os homens discutiam silenciosamente sobre o tempo de jogo, o Bragantino começava a discutir com o Flamengo sobre o resultado.

Veio o gol contra de Bruno Henrique.

2 a 1.

De repente, aquela noite que parecia encaminhada ganhou novamente uma porta entreaberta.

E futebol gosta de portas entreabertas.

O Bragantino avançou. O Flamengo precisou defender. Rossi apareceu quando Herrera bateu firme. Os minutos finais ganharam aquela velha aparência de relógio que anda mais devagar quando o seu time está ganhando por um gol.

Quem já viveu Maracanã sabe.

Quando o Flamengo está ganhando por 2 a 0, a arquibancada canta.

Quando está ganhando por 2 a 1 aos 45 do segundo tempo, a arquibancada começa a fazer contas.

É outra música.

E talvez essa tenha sido a pequena imperfeição de uma noite que, no papel, foi excelente.


O Flamengo fez um primeiro tempo muito bom. Criou o suficiente para ter saído em vantagem maior. No segundo, encontrou o gol que precisava, mas diminuiu o ritmo e permitiu que o adversário respirasse.

Leonardo Jardim explicou depois que o planejamento passava também pela gestão física, depois de quatro jogos em dez dias. A ideia era manter o time “fresco” diante de uma sequência pesada.

Faz sentido.

Tem hora em que poupar energia também é jogar.

Mas existe uma diferença delicada entre administrar uma partida e convidar o adversário para participar dela.

O Flamengo ficou perto dessa fronteira.

Ainda assim, venceu.

E isso também precisa ser dito.

Porque existe uma certa mania no futebol de transformar toda vitória em interrogatório. Se ganha de 2 a 1, perguntam por que não foi 4 a 0. Se controla, perguntam por que não atacou. Se ataca, perguntam por que não se protegeu.

O futebol não é uma tese de doutorado.

Às vezes é apenas domingo, Maracanã, três pontos e uma tabela que ficou mais bonita.

O Flamengo chegou aos 60.

O Palmeiras ficou nos 57. A liderança ganhou mais três centímetros de espaço. Não é título, não é garantia, não é nada além de uma vantagem construída em setembro. Mas é vantagem.

E campeonato longo também se ganha assim: com os jogos em que se joga muito, com os jogos em que se joga menos e com aqueles em que se termina olhando para o relógio.

Há uma beleza particular nessas vitórias imperfeitas.

Porque elas lembram que o Flamengo não precisa ser brilhante em todos os domingos para continuar sendo protagonista.

Precisa saber vencer.

Neste domingo, soube.

E talvez a melhor fotografia da noite esteja justamente naquele abraço entre Pedro e Jardim depois do apito final.

O jogador queria mais minutos.

O treinador queria preservar o jogador.

No fim, os dois estavam comemorando.

É assim que funciona o futebol quando dá certo: cada um enxerga a partida de um lugar diferente, mas todos acabam caminhando para o mesmo abraço.

O Flamengo ganhou.

Por 2 a 1.

E, por alguns minutos, nos fez lembrar que o coração rubro-negro também precisa de treino.

Porque tranquilidade, no Maracanã, nunca foi exatamente uma especialidade.

E talvez seja melhor assim.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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