Quando uma Nação chorou: a venda de Zico para a Udinese e a ferida que nunca cicatrizou no coração rubro-negro
Em uma época sem redes sociais, sem internet e sem comunicação instantânea, a notícia atravessou o Rio de Janeiro como um terremoto: o Flamengo estava vendendo seu maior ídolo em plena força da carreira
Imagem: Reprodução - Jornal O GloboHavia derrotas que doíam. Havia finais perdidas que machucavam. Mas nada preparou o flamenguista para o dia em que o Galinho anunciou que partiria.
O Rio de Janeiro amanheceu diferente naquele inverno de 1983.
As bancas de jornal abriram cedo, como sempre abriam. Os ônibus seguiram lotados. O trânsito continuou parado. O café continuou quente.
Mas alguma coisa estava fora do lugar.
Alguma coisa estava errada. As manchetes diziam aquilo que ninguém queria ler: - ´´Zico estava indo embora´´.
Não lesionado. Não aposentado. Não derrotado.
Simplesmente, indo embora.
Parecia inacreditável, mas, o Flamengo estava vendendo seu camisa 10. O Flamengo estava vendendo seu coração.
O homem que confundia a própria história do clube
Para explicar o tamanho daquela dor, talvez seja necessário explicar primeiro quem era Zico para o Flamengo daqueles anos: ele não era simplesmente o melhor jogador do elenco, não era apenas o maior ídolo, não era somente o camisa 10.
Zico era a tradução do próprio Flamengo dentro de campo!
Era o menino da Gávea que havia crescido diante dos olhos da torcida. Era o garoto franzino que desafiou médicos, preparadores físicos e especialistas para se transformar no maior jogador da história do clube. Era o homem que fazia o Maracanã acreditar que qualquer jogo poderia ser vencido enquanto a bola passasse por seus pés.
Alguns jogadores defendem um clube, outros representam um clube, mas, pouquíssimos jogadores conseguem a façanha de se confundir com com o próprio clube.
E, Zico havia se tornado um deles.
Os boatos que ninguém queria ouvir
Primeiro vieram os rumores, depois uma pequena nota no jornal, lentamente a notícia que ninguém queria ouvir foi tomando contornos maiores como: uma informação de bastidor no rádio e uma manchete tímida no caderno de esportes, fatos que lentamente revelavam a realidade:
A Udinese estava interessada.
O que parecia um absurdo, já que a pequena Udinese não era a Juventus, não era o Milan e muito menos era a Inter de Milão. Era apenas um clube de uma pequena cidade do norte da Itália.
O flamenguista ria da notícia: - "Isso não existe."; - "Zico não sai."; - "Zico é do Flamengo."
Mas os dias passavam e os rumores aumentavam contínuamente como uma bola de neve. Cada vez mais fortes. Cada vez mais próximos da realidade.
Até que chegou o momento em que não dava mais para ninguém conseguir fingir que aquilo era apenas especulação.
O dinheiro que o Brasil não conseguia acompanhar
O futebol italiano vivia seus anos dourados. Os maiores craques do mundo atravessavam o oceano em direção à Serie A. Os salários pareciam pertencer a outro planeta. Os clubes brasileiros simplesmente não tinham condições de competir, tendo em vista o desastroso período econômico que o país atravessava e às gestões completamente amadoras dos clubes profissionais do Brasil, e com o Flamengo, obviamente, não era diferente.
A inflação corroía receitas. Os contratos eram pequenos. As estruturas financeiras ainda eram frágeis.
E a proposta italiana era surreal, gigantesca para os padrões do futebol brasileiro da década de 90.
Beirava o irrecusável.
Para parte da diretoria, aquela negociação representava a possibilidade de equilibrar as contas e garantir estabilidade ao clube. Para os italianos, era a contratação capaz de mudar a história da própria Udinese. Para a torcida do Flamengo, porém, existia apenas uma pergunta:
- ´´Quanto custa um ídolo?´´
- ´´Quanto vale uma infância inteira?´´
- ´´Quanto vale um pedaço da alma de um clube?´´
Os dias em que o Rio de Janeiro parou para sofrer
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As semanas que antecederam a confirmação da venda foram estranhas.
Muito estranhas.....
Parecia que não havia mais nenhum outro assunto no planeta, as pessoas discutiam a negociação em bares, padarias, escritórios e esquinas. Os programas esportivos dedicavam horas ao assunto. Os jornais esgotavam nas bancas.
Parecia eleição. Parecia crise política. Parecia tragédia nacional.
Porque, de certa forma, era realmente um misto de tudo isso.
Havia quem acreditasse em uma desistência de última hora. Havia quem esperasse um milagre. Havia quem acreditasse que alguém surgiria para impedir aquilo.
Mas os dias continuavam passando. E os milagres teimavam em não chegar.
O adeus que ninguém estava preparado para viver
Quando a transferência foi finalmente confirmada, o sentimento que tomou conta do Rio não foi revolta.
Foi silêncio.
Um silêncio pesado. Estranho. Muito difícil de explicar.
Era como se todos soubessem que estavam assistindo ao encerramento de uma era irrepetível.
Porque estavam.
A geração de 1981 continuaria eterna. As imagens continuariam existindo. Os títulos permaneceriam para sempre.
Mas algo fundamental estava terminando naquele instante.
O Flamengo campeão do mundo ainda existiria. Mas não seria mais o mesmo Flamengo.
O aeroporto parecia um velório
Talvez nenhum retrato daquele momento seja mais forte do que as imagens do embarque: torcedores choravam, adultos choravam, homens acostumados a carregar derrotas, crises e dificuldades da vida choravam como crianças.
Alguns levavam bandeiras. Outros levavam rádios. Muitos levavam apenas a necessidade de dizer obrigado.
Não parecia uma transferência, parecia uma despedida familiar. Parecia alguém indo embora sem data para voltar.
Porque, no fundo, era exatamente isso.
E, quando o avião decolou do Galeão rumo à Itália, apenas restaram os versos do poeta: - ´´Agora como é que eu fico nas tardes de domingo, sem Zico no Maracanã....´´
O dia em que o Flamengo descobriu que até os amores eternos podem partir
.
Zico faria história na Itália e encantaria estádios europeus. Transformaria a pequena Udinese em atração internacional.
Mas isso pouco importava para quem permanecia no Rio. Porque o problema nunca foi a camisa que ele vestiria.
O problema era a camisa que ele deixaria de vestir.
Décadas se passaram desde aquele inverno de 1983. Vieram novos ídolos, vieram novos títulos, vieram novas gerações. Mas quem viveu aqueles dias continua se lembrando exatamente onde estava quando ouviu a notícia.
Talvez porque algumas partidas não sejam apenas transferências, talvez porque algumas despedidas não terminem nunca.
Talvez porque existam jogadores que pertencem ao clube de uma maneira tão profunda que sua ausência continua sendo sentida mesmo quarenta anos depois.
Zico era (e é) um deles.
E talvez seja por isso que muitos flamenguistas ainda jurem, até hoje, que naquela semana de 1983 uma Nação inteira chorou em silêncio.
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