Reforma aprovada pelo Conselho Deliberativo com 92,39% dos votos cria uma estrutura mais profissional, modifica a distribuição de poderes e estabelece planejamento de longo prazo no Flamengo
O Flamengo deu um dos passos administrativos mais importantes de sua história recente. Na noite de terça-feira, 15 de setembro, o Conselho Deliberativo aprovou a reforma estatutária que institucionaliza o modelo de gestão profissional adotado pela atual administração de Luiz Eduardo Baptista, o Bap.
O resultado foi expressivo: 643 conselheiros votaram pela aprovação, 47 foram contrários e seis se abstiveram, em um total de 696 votos. A aprovação representou 92,39% dos votos.
Mas o número da votação não conta toda a história.
A mudança representa uma transformação na maneira como o Flamengo pretende ser administrado nos próximos anos. O clube continuará sendo uma associação civil, mas terá uma estrutura mais próxima de uma organização empresarial, com executivos profissionais responsáveis pela operação cotidiana e órgãos de governança encarregados de definir estratégias e fiscalizar resultados.
A pergunta que fica, portanto, é simples: o que realmente muda no Flamengo depois da reforma e quais são as vantagens para o clube?
Em resumo: o Flamengo aprovou uma ampla reforma estatutária que institucionaliza o modelo de gestão profissional no clube. A mudança cria uma diretoria executiva formada por profissionais remunerados, estabelece as funções de Diretor-Geral e Diretor de Futebol, cria um Conselho Gestor e modifica a forma de planejamento e fiscalização do orçamento. A reforma não transforma o Flamengo em SAF, mas altera significativamente sua estrutura administrativa e amplia as responsabilidades da gestão profissional.
O Flamengo não virou SAF
Antes de entrar nos detalhes, existe uma diferença fundamental.
A reforma estatutária não transforma o Flamengo em Sociedade Anônima do Futebol.
O clube continua sendo uma associação civil, pertencente aos seus associados e submetida ao seu estatuto. A proposta aprovada procura profissionalizar a administração sem alterar a natureza jurídica do Flamengo.
Na prática, o que muda é o modelo de gestão.
O objetivo é separar com maior clareza três funções que muitas vezes acabam misturadas nos clubes associativos: governança, supervisão e execução.
É justamente essa separação que está no centro da reforma.
Sai o modelo de muitos vice-presidentes, entra uma estrutura profissional
Uma das principais alterações é a mudança na estrutura executiva.
As tradicionais vice-presidências específicas deixam de ser o centro da operação cotidiana. Em seu lugar, o Flamengo passa a trabalhar com uma Diretoria Profissional, formada por executivos remunerados e escolhidos segundo critérios técnicos.
Duas posições ganham destaque nesse modelo.
O Diretor-Geral será responsável pela gestão corporativa do clube, enquanto o Diretor de Futebol terá sob sua responsabilidade o futebol profissional e as categorias de base.
A lógica é relativamente simples: o dirigente político define as diretrizes e representa institucionalmente o clube, enquanto profissionais especializados cuidam da execução.
Isso aproxima o Flamengo de uma estrutura comum em grandes empresas e organizações esportivas internacionais.
O que muda para o presidente?
Aqui está um dos pontos mais importantes — e também mais controversos.
A reforma cria o Conselho Gestor, o COGE, responsável por supervisionar a atuação da diretoria profissional.
O órgão será composto pelo presidente e pelo vice-presidente do Flamengo, pelo Procurador-Geral e por entre nove e 12 integrantes escolhidos pelo presidente para um mandato de três anos. O presidente também terá poder para nomear e destituir esses membros.
Isso significa que o novo sistema não simplesmente retira poder da presidência.
Em determinados assuntos, especialmente aqueles relacionados ao futebol, o presidente mantém prerrogativas importantes de aprovação, veto e definição de diretrizes.
É justamente nesse ponto que surgiram as principais críticas à reforma.
A grande vantagem: profissionalizar a execução
O principal argumento favorável à mudança é que o Flamengo se tornou grande demais para depender exclusivamente de dirigentes voluntários ou de estruturas administrativas excessivamente políticas.
Um clube que movimenta bilhões de reais, administra contratos milionários, negocia direitos de transmissão, patrocínios, jogadores e ativos imobiliários precisa de profissionais especializados.
A reforma tenta criar essa separação.
O presidente pode definir a estratégia institucional, mas a execução passa a ser responsabilidade de profissionais contratados para isso.
Em teoria, isso reduz a influência de critérios políticos nas decisões operacionais.
Também permite que um executivo seja cobrado por metas e resultados de maneira mais objetiva.
O orçamento também muda
Outra alteração importante está no planejamento financeiro.
O Flamengo passará a trabalhar não apenas com o orçamento anual, mas com um planejamento de três anos, acompanhado de uma projeção de cinco anos e de indicadores para medir o desempenho do clube.
Essa mudança pode ser especialmente relevante para o futebol.
Contratações, renovações, obras de infraestrutura, categorias de base e investimentos esportivos produzem efeitos que ultrapassam uma única temporada.
Um orçamento exclusivamente anual pode incentivar decisões de curto prazo.
Com planejamento plurianual, a diretoria terá de apresentar uma visão mais ampla das consequências financeiras de suas decisões.
Isso não significa que o clube ficará impedido de gastar.
Significa que, em tese, será possível enxergar melhor quanto uma decisão de hoje comprometerá o Flamengo nos próximos anos.
Metas e indicadores passam a ter maior importância
Outra mudança relevante é a utilização de indicadores para acompanhar o desempenho da administração.
Essa lógica permite que a gestão seja avaliada não apenas pela percepção política ou pelo resultado de uma temporada.
Receitas, despesas, desempenho esportivo, eficiência operacional, investimentos e cumprimento de metas podem passar a fazer parte de uma avaliação mais estruturada.
Para um clube do tamanho do Flamengo, essa é uma mudança potencialmente importante.
O desafio será transformar o modelo previsto no estatuto em uma prática efetiva de gestão.
E as categorias de base?
O novo desenho também modifica a organização do futebol.
O Diretor de Futebol terá responsabilidade sobre o futebol profissional e as categorias de base.
A integração pode trazer vantagens.
Uma das maiores dificuldades dos grandes clubes é fazer com que formação e futebol profissional trabalhem efetivamente dentro da mesma estratégia.
Com uma estrutura centralizada, o Flamengo pode estabelecer uma política mais clara para desenvolvimento de jogadores, transição para o profissional, contratações e aproveitamento dos atletas formados no Ninho do Urubu.
Isso pode ter impacto direto na formação de jogadores e também na capacidade do clube de gerar receitas com transferências.
Foto: Reprodução
Regras contra nepotismo e conflitos de interesse
A reforma também endurece regras relacionadas ao nepotismo e estabelece restrições para a entrada na estrutura profissional de associados que já ocuparam cargos eletivos no clube.
O objetivo é aumentar a profissionalização e evitar que posições executivas sejam preenchidas simplesmente por relações políticas ou pessoais.
A ideia é que o critério técnico ganhe peso maior.
É um ponto particularmente relevante em uma organização associativa, na qual relações políticas internas historicamente fazem parte da disputa pelo poder.
Onde estão as críticas?
A reforma não foi consensual.
Mesmo com a aprovação esmagadora, houve oposição ao texto.
O principal argumento dos críticos é que a nova estrutura pode concentrar poder excessivo nas mãos do presidente.
O COGE terá membros indicados pelo próprio presidente, que também poderá destituí-los. Além disso, o texto mantém prerrogativas presidenciais importantes em determinadas decisões.
Existe, portanto, uma contradição que precisa ser acompanhada.
A reforma pretende profissionalizar a gestão, mas ao mesmo tempo cria mecanismos que podem ampliar a influência do presidente sobre a estrutura que deveria fiscalizar a administração.
O sucesso do modelo dependerá justamente do equilíbrio entre esses dois lados.
A reforma pode tornar o Flamengo mais parecido com uma empresa?
Em termos de governança, sim.
Mas isso não significa que o Flamengo esteja se transformando em uma empresa.
A diferença está no fato de que o clube continuará pertencendo aos seus associados.
O que muda é a forma de administrar uma organização que cresceu muito além da realidade para a qual seu estatuto original foi concebido.
O estatuto anterior remonta a 1992 e, segundo os defensores da reforma, já não refletia completamente a complexidade atual do Flamengo. Durante o processo de discussão, foram analisadas 98 propostas apresentadas por conselheiros, das quais aproximadamente três quartos foram incorporadas total ou parcialmente ao texto final.
A mudança, portanto, não surgiu apenas de uma decisão isolada da atual diretoria.
O texto passou por uma comissão permanente e recebeu diversas emendas durante a discussão no Conselho Deliberativo.
A principal vantagem potencial é a continuidade administrativa.
Uma gestão pode mudar a cada eleição, mas uma estrutura profissional permanece.
Isso permite que executivos sejam avaliados pelo desempenho e não apenas pelo ciclo político.
Outra vantagem é a possibilidade de planejamento de longo prazo.
Um Flamengo que pretende disputar títulos todos os anos, investir na base, construir patrimônio e ampliar receitas precisa tomar decisões pensando em cinco ou dez anos, e não apenas na próxima eleição.
A profissionalização também pode melhorar a responsabilização.
Se um executivo possui metas claras, orçamento definido e indicadores de desempenho, fica mais fácil identificar onde uma gestão está acertando ou errando.
O maior teste será a prática
É justamente aqui que a reforma deixa de ser uma discussão de estatuto e passa a ser uma questão de gestão.
Um documento pode criar estruturas modernas.
Mas nenhum estatuto garante, sozinho, boa administração.
O Flamengo precisará encontrar profissionais qualificados, estabelecer metas realistas, fiscalizar resultados e preservar mecanismos efetivos de controle.
Também será necessário evitar que a profissionalização seja apenas uma mudança de nomes.
Trocar vice-presidentes por diretores não significa necessariamente profissionalizar uma organização se as decisões continuarem obedecendo exclusivamente a critérios políticos.
A grande transformação acontecerá quando a competência técnica realmente passar a ser o principal critério para as decisões executivas.
O Flamengo está entrando em uma nova fase administrativa
A reforma aprovada pelo Conselho Deliberativo representa uma mudança estrutural importante.
O Flamengo continuará sendo Flamengo: uma associação civil, com sua história, seus sócios e seus mecanismos políticos internos.
Mas sua administração passará a ter uma arquitetura diferente.
Mais executivos, mais planejamento, mais indicadores e uma separação mais clara entre quem governa e quem executa.
O modelo também traz um alerta: quanto maior a responsabilidade concentrada na presidência, maior precisa ser a qualidade dos mecanismos de fiscalização.
Esse será o verdadeiro teste da reforma.
Se o Flamengo conseguir combinar profissionais competentes, planejamento de longo prazo e fiscalização independente, a mudança poderá representar um salto de qualidade na administração do clube.
Se a profissionalização servir apenas para concentrar decisões, os ganhos poderão ser menores do que o esperado.
A votação de 15 de setembro, portanto, não encerra a discussão.
Ela abre um novo capítulo na história administrativa do Flamengo — e agora será a prática que dirá se a mudança no estatuto conseguirá produzir também uma mudança na gestão.
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