O detalhe que decidiu Flamengo x Cruzeiro: como Leonardo Jardim desmontou o plano de Artur Jorge no Maracanã
Imagem: Gilvan de Souza/CRFO Rubro-Negro não apenas venceu por 2 a 1: entenda como a pressão, a movimentação de Arrascaeta e Pedro e o equilíbrio de Jorginho e Pulgar fizeram o Flamengo dominar o primeiro tempo e sobreviver à reação mineira
O placar de 2 a 1 conta apenas uma parte da história da classificação do Flamengo diante do Cruzeiro. No Maracanã, o Rubro-Negro venceu, fechou o confronto em 3 a 2 no agregado e avançou às quartas de final da Libertadores, mas o principal resultado da noite apareceu antes mesmo dos gols: Leonardo Jardim conseguiu impor ao Cruzeiro o tipo de partida que queria jogar.
O Flamengo dominou territorialmente o primeiro tempo, pressionou a saída adversária, ocupou os corredores e controlou o meio-campo. O Cruzeiro praticamente não conseguiu respirar durante boa parte dos primeiros 45 minutos.
Depois do intervalo, Artur Jorge encontrou caminhos para mudar a partida. O empate de Lucas Romero, aos cinco minutos, foi consequência direta dessa reação. Mas o Flamengo respondeu rapidamente, voltou a ocupar os espaços que havia explorado no primeiro tempo e chegou ao gol de Samuel Lino.
A grande diferença entre as equipes esteve justamente aí.
Jardim conseguiu fazer o jogo acontecer onde o Flamengo era mais forte. Artur Jorge conseguiu reagir, mas não conseguiu mudar definitivamente o roteiro.
DOIS 4-3-3, DUAS FORMAS COMPLETAMENTE DIFERENTES DE JOGAR
Flamengo e Cruzeiro começaram a partida em estruturas bastante semelhantes, ambos com um 4-3-3. O Rubro-Negro teve Rossi; Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas; Pulgar, Jorginho e Arrascaeta; Plata, Pedro e Samuel Lino. O Cruzeiro iniciou com Otávio; William, Fabrício Bruno, Jonathan Jesus e Gabriel Rojas; Lucas Romero, Gerson e Matheus Pereira; Wesley, Arroyo e Kaio Jorge.
Mas a semelhança terminava no desenho inicial.
O Flamengo utilizava o 4-3-3 como uma estrutura móvel.
O Cruzeiro dependia muito mais das características individuais de seus jogadores para transformar o sistema em algo ofensivamente perigoso.
Essa diferença foi decisiva.
O FLAMENGO NÃO JOGAVA EM UMA FORMAÇÃO. JOGAVA EM MOVIMENTO.
COM A BOLA, O FLAMENGO TRANSFORMAVA O 4-3-3
A grande sacada de Jardim foi permitir que a estrutura mudasse durante a construção.
Pulgar permanecia mais próximo da defesa, funcionando como ponto de equilíbrio.
Jorginho recuava para participar da saída e ajudava a criar superioridade na primeira fase da construção.
Arrascaeta tinha liberdade para abandonar a posição de meio-campista e aparecer entre as linhas.
Os laterais avançavam.
Samuel Lino e Plata podiam entrar por dentro.
Pedro saía ocasionalmente da área para participar da combinação.
O resultado era uma espécie de estrutura ofensiva com muitos jogadores ocupando diferentes alturas. O Flamengo conseguia, assim, criar linhas de passe constantemente.
E foi justamente isso que o Cruzeiro não conseguiu controlar.
PULGAR FOI O SEGURO DO SISTEMA
Uma das atuações mais importantes foi justamente a de Erick Pulgar.
O chileno não apareceu tanto quanto Arrascaeta ou Samuel Lino, mas sua função foi fundamental. Enquanto Jorginho tinha liberdade para participar da construção e Arrascaeta se aproximava dos atacantes, Pulgar permanecia atento à cobertura.
Era ele quem precisava pensar no lance seguinte.
Se Ayrton Lucas avançava, Pulgar precisava proteger, se Emerson Royal aparecia no campo ofensivo, Pulgar precisava equilibrar, se o Flamengo perdia a bola, era necessário estar em posição para retardar a transição.
Essa função permitiu que Jardim liberasse seus principais jogadores ofensivos.
JORGINHO FOI O CÉREBRO DA PRIMEIRA FASE
Jorginho teve uma atuação que ajuda a explicar o domínio rubro-negro. O volante não ficou preso à função de primeiro marcador.
Sua participação foi muito mais ampla.
Ele se aproximava dos zagueiros, oferecia linha de passe, acelerava a circulação e ajudava a tirar o Cruzeiro de posição.
Quando a equipe precisava controlar, Jorginho controlava, quando precisava acelerar, encontrava o passe vertical; e quando o Cruzeiro finalmente conseguiu chegar ao ataque no segundo tempo, foi Jorginho quem apareceu para salvar uma bola praticamente em cima da linha.
Foi uma atuação completa.
ARRASCAETA ENTRELINHAS: O ESPAÇO QUE O CRUZEIRO NÃO CONSEGUIU PROTEGER
A posição de Arrascaeta foi outro fator determinante.
O uruguaio não permaneceu preso ao lado esquerdo ou a uma faixa específica do campo, ele procurava os espaços entre o meio-campo e a defesa do Cruzeiro.
Essa movimentação criava um dilema para Lucas Romero e Gerson.
Se um dos volantes saísse para acompanhar Arrascaeta, surgia espaço atrás e se permanecesse na posição, Arrascaeta recebia livre.
Foi justamente em uma dessas situações que o Flamengo encontrou o primeiro gol.
Pedro participou da combinação e Arrascaeta recebeu em condição de finalizar.
Aos 34 minutos, o camisa 10 abriu o placar com uma finalização precisa.
O gol não foi apenas uma obra de técnica individual.
Foi consequência da estrutura.
PEDRO FOI O PIVÔ QUE DESORGANIZOU A DEFESA
A atuação de Pedro merece uma análise própria.
O centroavante não precisou marcar para ser decisivo, ele participou diretamente dos dois gols.
No primeiro, combinou com Arrascaeta.
No segundo, encontrou Samuel Lino na jogada que terminou na vitória.
Essa movimentação foi essencial porque Pedro não ficou permanentemente entre Fabrício Bruno e Jonathan Jesus.
Em determinados momentos, recuava quando o zagueiro o acompanhava; isso abria espaços para Arrascaeta e, quando o zagueiro permanecia, recebia entre linhas.
No gol de Lino, novamente participou da construção antes do atacante atacar o espaço.
Foi uma atuação de camisa 9 que joga para o coletivo.
SAMUEL LINO FOI A ARMA QUE O CRUZEIRO NÃO CONSEGUIU CONTROLAR
O lado esquerdo foi um dos principais caminhos do Flamengo.
Samuel Lino tinha liberdade para alternar entre amplitude e movimentos para dentro.
Isso obrigava William a tomar decisões constantemente.
O lateral precisava escolher entre acompanhar Lino ou proteger o espaço próximo ao zagueiro.
No segundo gol, a escolha custou caro.
Pedro encontrou Lino, o atacante atacou o marcador, criou o espaço necessário e finalizou para fazer 2 a 1.
Foi uma jogada que resume o modelo ofensivo de Jardim:
aproximação, movimentação, criação de superioridade e ataque ao espaço.
POR QUE O CRUZEIRO SOFREU TANTO NO PRIMEIRO TEMPO?
O problema da equipe de Artur Jorge começou na saída de bola.
O Cruzeiro encontrava dificuldades para conectar defesa e meio-campo.
O Flamengo adiantava suas linhas e fechava os caminhos centrais.
Quando os zagueiros tentavam encontrar os volantes, havia pressão imediata, quando buscavam os lados, os jogadores rubro-negros encurtavam rapidamente.
O Cruzeiro foi obrigado a jogar mais direto e isso significava entregar a bola ao Flamengo novamente.
O domínio foi tão evidente que o Rubro-Negro acumulou uma sequência de oportunidades durante a primeira etapa. A análise pós-jogo também destacou a enorme superioridade territorial e a avalanche ofensiva do Flamengo antes do intervalo.
ARTUR JORGE CORRIGIU O PROBLEMA NO INTERVALO
O segundo tempo começou com outro Cruzeiro.
A equipe passou a avançar mais seus jogadores e encontrou maior participação de Gerson e Matheus Pereira.
O Flamengo já não conseguia manter o mesmo sufoco.
A distância entre a primeira linha de pressão e o restante da equipe aumentou.
E o Cruzeiro começou a encontrar o espaço que não existia antes. Aos cinco minutos, Lucas Romero aproveitou a oportunidade e acertou um belo chute para empatar.
O gol foi importante não apenas pelo placar.
Ele mostrou que a principal fragilidade do Flamengo estava justamente na transição defensiva.
QUANDO A PRESSÃO DO FLAMENGO FOI QUEBRADA, APARECEU ESPAÇO
Esse é o principal ponto que Jardim precisará corrigir.
O Flamengo quer pressionar alto, quer manter muitos jogadores no campo ofensivo, quer atacar com laterais avançados. Mas esse modelo cobra um preço.
Quando a primeira pressão é quebrada, o adversário encontra campo.
Foi o que aconteceu em alguns momentos do segundo tempo.
O Cruzeiro conseguiu sair da zona de pressão e acelerar. O Flamengo precisou correr para trás.
E, nesse cenário, a partida ficou muito mais equilibrada.
O 2 A 1 MOSTROU A CAPACIDADE DE RESPOSTA DO FLAMENGO
A grande virtude de Jardim foi não desmontar completamente sua equipe depois do empate.
O treinador não transformou o Flamengo em um time desesperado.
A equipe voltou a aproximar os jogadores ofensivos.
Retomou a circulação.
E voltou a explorar o setor que havia causado mais problemas ao Cruzeiro.
Aos 16 minutos, Samuel Lino recebeu de Pedro e marcou o segundo gol.
Foi uma resposta tática.
O Flamengo não venceu simplesmente porque tinha jogadores melhores. Venceu porque voltou a executar aquilo que havia funcionado.
ARTUR JORGE CONSEGUIU MUDAR O JOGO, MAS NÃO CONSEGUIU MUDAR A ELIMINATÓRIA
É importante reconhecer a reação do Cruzeiro.
Artur Jorge percebeu que não poderia repetir o primeiro tempo.
Sua equipe precisava jogar alguns metros mais à frente. Precisava aumentar a presença no meio-campo. Precisava impedir que Jorginho tivesse tanto tempo para pensar.
E conseguiu.
O Cruzeiro voltou competitivo.
Mas o problema é que essa reação aconteceu depois do Flamengo construir uma vantagem territorial e emocional enorme.
Em mata-mata, os primeiros minutos também são patrimônio.
E Jardim conseguiu transformar o primeiro tempo em vantagem suficiente para administrar o restante da partida.
O DUELO ENTRE OS TREINADORES FOI DECIDIDO PELO MEIO-CAMPO
O principal vencedor do duelo tático foi Leonardo Jardim porque seu meio-campo conseguiu impor ritmo.
Pulgar protegeu, Jorginho construiu e Arrascaeta criou.
Essa divisão de responsabilidades funcionou.
No Cruzeiro, Matheus Pereira ficou mais distante das zonas onde poderia ser decisivo durante boa parte da primeira etapa.
Gerson teve dificuldade para encontrar liberdade.
E Lucas Romero ficou muito mais ocupado tentando sobreviver à pressão do que organizando o jogo.
Quando Artur Jorge conseguiu aproximar seus jogadores, o Cruzeiro cresceu.
Mas o Flamengo já havia construído sua vantagem.
O FLAMENGO VENCEU PORQUE CONTROLOU O ESPAÇO
Essa talvez seja a melhor maneira de resumir a partida.
O Flamengo não controlou apenas a bola. Controlou os espaços em que o Cruzeiro queria jogar.
Fechou o corredor central, pressionou a saída, forçou o adversário para os lados e, quando recuperou a posse, utilizou os mesmos corredores para atacar.
Essa combinação transformou o primeiro tempo em domínio quase absoluto.
No segundo, quando o Cruzeiro conseguiu escapar desse controle, a partida mudou.
Mas Jardim encontrou novamente a solução.
O QUE A CLASSIFICAÇÃO DIZ SOBRE O FLAMENGO DE JARDIM?
A vitória sobre o Cruzeiro talvez seja o melhor exemplo, até aqui, de que o Flamengo começa a assimilar as ideias de Leonardo Jardim.
O time mostrou capacidade de dominar, mostrou capacidade de reagir, mostrou diferentes maneiras de atacar e, principalmente, mostrou que consegue vencer um adversário forte sem depender exclusivamente de uma jogada individual.
O primeiro gol nasceu da combinação entre Pedro e Arrascaeta.
O segundo nasceu da conexão entre Pedro e Samuel Lino.
Jorginho controlou, Pulgar protegeu, Arrascaeta criou, Lino acelerou e Pedro conectou.
Foi um triunfo coletivo construído a partir da organização.
Ainda existem problemas, principalmente quando a pressão inicial é quebrada e o time precisa defender grandes espaços.
Mas a classificação mostrou uma evolução importante.
Leonardo Jardim não conseguiu apenas fazer o Flamengo jogar mais.
Conseguiu fazer o Flamengo jogar de uma determinada maneira.
E, em uma Libertadores, ter uma identidade pode ser tão importante quanto ter grandes jogadores.
O Flamengo agora está entre os oito melhores da América.
E a classificação contra o Cruzeiro deixou uma mensagem clara: quando o Rubro-Negro consegue impor sua intensidade desde o início, o adversário passa a jogar o jogo que Jardim quer.
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