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Brasileirão - 24 rodada

22 de agosto, 202620:30
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Análise Tática

O que o Mineirão revelou sobre o Flamengo de Leonardo Jardim: uma derrota que exige mais do que explicações

Por Robson Corrêa23 de agosto de 2026
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O que o Mineirão revelou sobre o Flamengo de Leonardo Jardim: uma derrota que exige mais do que explicaçõesImagem: Gustavo Aleixo/CEC

Com a cabeça fria, derrota para o Cruzeiro expõe problemas de encaixe, queda de intensidade e dependência de algumas peças; Flamengo precisa corrigir a saída sob pressão, proteger os corredores e encontrar alternativas para controlar jogos até o fim

No dia seguinte à derrota por 2 a 1 para o Cruzeiro, no Mineirão, a análise do Flamengo precisa escapar de duas armadilhas: transformar um resultado ruim em uma crise ou, no extremo oposto, tratá-lo apenas como um acidente provocado por chances desperdiçadas.

Nenhuma das duas leituras explica completamente o que aconteceu.

A derrota na 24ª rodada do Campeonato Brasileiro foi importante justamente porque expôs problemas que já estavam escondidos por trás dos bons resultados recentes.

O Flamengo vinha de uma goleada por 5 a 1 sobre o Mirassol e de uma classificação diante do próprio Cruzeiro na Libertadores. O futebol apresentado nessas partidas sugeria uma equipe em evolução sob Leonardo Jardim.

O Mineirão mostrou que essa evolução ainda não está consolidada.

O ponto central não é simplesmente que o Flamengo perdeu.

É entender por que uma equipe que controlou boa parte do primeiro tempo se tornou tão passiva no segundo.

E, principalmente, se essa queda pode ser corrigida antes que o calendário entre em sua fase mais decisiva.

O CRUZEIRO NÃO GANHOU APENAS NA VONTADE

É tentador explicar a vitória do Cruzeiro pela intensidade demonstrada após o intervalo.

Seria uma análise incompleta.

Artur Jorge fez algo mais importante: mudou o problema que o Flamengo precisava resolver.

No primeiro tempo, o Cruzeiro tentou proteger a região central e impedir que Arrascaeta e Paquetá recebessem com liberdade.

O Flamengo conseguiu superar essa primeira barreira utilizando circulação rápida e movimentação de Pedro.

Na segunda etapa, porém, o Cruzeiro passou a pressionar de maneira diferente.

A equipe aproximou os setores, avançou suas linhas e começou a atacar os espaços laterais deixados pelo Flamengo.

A pressão não tinha como objetivo simplesmente recuperar a bola perto da área.

O objetivo era forçar o Flamengo a jogar onde ele é menos confortável: de costas, pelos lados e sob pressão.

Funcionou.

O CRUZEIRO ATACOU O ESPAÇO ENTRE LATERAL E MEIO-CAMPO

Esse foi um dos pontos táticos mais interessantes da partida.

Quando o Flamengo avançava seus laterais, principalmente para oferecer amplitude, precisava que os jogadores de meio-campo fizessem a cobertura imediatamente.

Quando essa compensação demorava, surgia um espaço entre lateral, volante e zagueiro.

O Cruzeiro começou a procurar justamente essa região.

Arroyo foi fundamental nesse movimento.

O equatoriano não permaneceu preso ao corredor. Em diversos momentos, buscou receber mais por dentro, conduzindo a bola em direção à área.

Foi dessa maneira que nasceu o empate.

Ele recebeu pela direita, trouxe a bola para dentro e encontrou espaço para finalizar, em um lance muito parecido com o gol de empate do Romero no Maracanã, pelas oitavas da Libertadores, ocorrido a menos de quatro dias.

O lance revela uma deficiência coletiva do Flamengo: a primeira pressão foi superada e a segunda linha demorou para fechar o espaço e demonstra que o Flamengo não aprendeu a lição recebida na partida da Libertadores.

Não se trata de culpar apenas um jogador.

É um problema de mecanismo defensivo.

ONDE O FLAMENGO PERDEU O MEIO-CAMPO

Pulgar teve uma função particularmente difícil.

No primeiro tempo, o chileno conseguia atuar como o ponto de equilíbrio entre defesa e meio-campo.

Quando o Flamengo atacava, ficava responsável por proteger a região central; quando perdia a bola, precisava impedir que Matheus Pereira recebesse de frente.

No segundo tempo, porém, o problema aumentou.

O Cruzeiro passou a colocar mais jogadores próximos da zona onde Pulgar precisava defender.

O volante começou a ficar em inferioridade numérica.

E aqui aparece uma questão importante para Jardim: não é possível pedir a Pulgar que faça sozinho a cobertura de uma equipe que perdeu compactação e isso desorganizou o modelo de jogo da equipe.

O chileno teve dificuldades, mas o problema foi estrutural.

O Flamengo passou a defender em distâncias maiores.

E um meio-campista isolado não consegue corrigir sozinho uma equipe espaçada.

PAQUETÁ E ARRASCAETA TAMBÉM PERDERAM INFLUÊNCIA

Outro sinal de alerta está na queda de participação dos jogadores criativos.

Paquetá foi importante na construção durante a primeira etapa, mas desapareceu progressivamente quando o Cruzeiro aumentou a pressão.

Arrascaeta sofreu do mesmo problema.

Isso não significa necessariamente que os dois tenham feito uma partida tecnicamente ruim. Significa que o sistema deixou de colocá-los nas condições em que são mais eficientes.

No primeiro tempo, recebiam próximos de Pedro e tinham opções de passe, no segundo, passaram a receber mais distantes da área e com menos alternativas de combinação.

A consequência foi previsível: o Flamengo começou a recorrer cada vez mais às jogadas individuais.

E uma equipe organizada não pode depender exclusivamente de inspiração individual quando o adversário aumenta a pressão.

PEDRO: O PROBLEMA NÃO FOI APENAS PERDER GOLS

Pedro merece uma análise mais cuidadosa.

O centroavante marcou o gol do Flamengo e teve várias oportunidades para ampliar.

A crítica mais óbvia seria dizer que ele deveria ter aproveitado melhor as chances.

É verdade.

Mas não é suficiente.

O problema de Pedro no segundo tempo foi também a falta de participação no jogo coletivo.

À medida que o Flamengo perdeu campo, o atacante passou a receber menos bolas em condições favoráveis.

Quando precisava sair da área para ajudar a equipe a respirar, encontrava dificuldades para fazer a bola permanecer no ataque.

Isso transformou Pedro em um jogador cada vez mais isolado.

Jardim precisa encontrar uma maneira de evitar esse cenário.

Não necessariamente trocando o centroavante, mas aproximando mais jogadores dele quando o Flamengo estiver sob pressão.

CARRASCAL TEVE OUTRA NOITE DE OSCILAÇÃO

Carrascal também merece atenção.

O colombiano apresentou momentos interessantes, especialmente quando encontrou espaço para receber entre linhas.

Mas voltou a alternar boas ações com decisões ruins.

Em uma partida na qual o Flamengo precisava de jogadores capazes de segurar a bola e fazer o time respirar, essa irregularidade pesou.

O problema não é apenas técnico.

É de tomada de decisão.

Em determinados momentos, Carrascal tentou acelerar uma jogada que pedia pausa.

Em outros, demorou para soltar a bola quando o Cruzeiro já havia fechado os espaços.

Esse tipo de comportamento aumenta a sensação de desorganização coletiva.

SAMUEL LINO: UM JOGO ABAIXO DO QUE SE ESPERA

Samuel Lino também ficou abaixo do nível apresentado em suas melhores partidas.

Ofensivamente, teve dificuldade para transformar velocidade em vantagem real.

Defensivamente, o lance do gol de Arroyo evidencia que sua contribuição na recomposição precisa ser mais consistente.

Não significa transformar Lino em um jogador defensivo.

Significa estabelecer claramente quando ele deve pressionar, quando deve acompanhar o lateral e quando deve fechar por dentro.

Imagem secundária para O que o Mineirão revelou sobre o Flamengo de Leonardo Jardim: uma derrota que exige mais do que explicaçõesImagem: Ayrton Lucas ERRA o toque de letra: Reprodução - Amazon Prime
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O problema do Flamengo não é ter pontas ofensivos.

É permitir que eles defendam sem um mecanismo coletivo claro.

E O ROYAL?

Emerson Royal voltou a apresentar dificuldades.

O lateral ainda parece estar em processo de adaptação ao modelo de Jardim e, principalmente, à necessidade de participar de uma equipe que passa boa parte do jogo em campo ofensivo.

Quando o Flamengo perde a bola, sua tomada de decisão defensiva é colocada à prova.

No Mineirão, o Cruzeiro encontrou espaços pelos lados e conseguiu fazer os laterais rubro-negros correrem para trás.

Esse é justamente o cenário em que Royal apresenta mais dificuldades.

A comissão técnica precisa definir com mais clareza sua função.

OU ELE É UM LATERAL DE APOIO, COM COBERTURA GARANTIDA, OU PRECISA TER SUA LIBERDADE REDUZIDA.

O que não pode acontecer é o jogador avançar sem que exista compensação atrás.

AYRTON LUCAS: UMA ATUAÇÃO ABAIXO DO LIMITE E UMA FALHA DECISIVA

Se Emerson Royal teve dificuldades pelo lado direito, Ayrton Lucas também fez uma partida bastante abaixo do que o Flamengo precisava. O lateral-esquerdo encontrou problemas tanto para oferecer profundidade no ataque quanto para cumprir sua principal obrigação defensiva nos momentos em que o Cruzeiro acelerou as jogadas pelos corredores.

A atuação se tornou ainda mais problemática no lance que decidiu a partida. Já nos instantes finais, quando o Flamengo precisava apenas controlar a posse e proteger o empate, Ayrton Lucas falhou ao tentar realizar um passe de letra, perdeu a bola e permitiu que o Cruzeiro encontrasse o espaço necessário para construir a jogada do gol da virada.

O problema não está apenas no erro individual. Ao longo do segundo tempo, o Cruzeiro explorou exaustivamente a faixa de campo que deveria ser combatida pelo lateral, deixando a clara impressão de que não havia cobertura defensiva no corredor em que Ayrton Lucas deveria exercer suas funções.

Porém, o contexto torna a falha ainda mais grave. O Flamengo já estava excessivamente recuado, com os setores espaçados e pouca capacidade de pressionar a saída adversária. Nesse cenário, qualquer erro que permitisse um contra-ataque poderia ser fatal.

Foi exatamente o que aconteceu. Ayrton Lucas de maneira displicente entregou a bola ao adversário em uma transição que, praticamente permitiu a construção da jogada rápida que culminou no gol da virada do Cruzeiro praticamente no último lance da partida.

É importante separar responsabilidade individual de responsabilidade coletiva. Ayrton Lucas errou no lance decisivo, mas o Flamengo permitiu que o Cruzeiro chegasse àquele momento em condições de atacar. Uma equipe mais compacta e com melhor proteção defensiva provavelmente teria reduzido drasticamente a possibilidade do lateral ficar exposto daquela maneira.

Ainda assim, o erro precisa ser colocado na conta do jogador. Em uma partida equilibrada e decidida nos detalhes, um lateral experiente não pode perder a bola de maneira tão displicente, permitindo que o adversário prepare sua última investida.

O episódio também recoloca uma questão que Leonardo Jardim terá de enfrentar nas próximas semanas: a necessidade de encontrar um equilíbrio maior entre a contribuição ofensiva dos laterais e a segurança defensiva da equipe. Se Ayrton Lucas e Royal avançam simultaneamente, o sistema precisa ter mecanismos claros para impedir que o Flamengo fique exposto nas costas deles.

No Mineirão, esse mecanismo não funcionou. E, no caso de Ayrton Lucas, a deficiência deixou de ser apenas uma questão de desempenho: acabou diretamente relacionada ao gol que determinou a derrota.

POR QUE O FLAMENGO FICOU APÁTICO?

Essa é provavelmente a pergunta mais importante depois da partida.

A explicação mais simples seria o desgaste físico.

E ele certamente existiu.

O Flamengo havia enfrentado o Cruzeiro poucos dias antes pela Libertadores e disputou uma partida emocionalmente intensa.

Mas reduzir tudo ao cansaço seria conveniente demais.

A apatia teve também uma origem tática e psicológica.

O Flamengo marcou o primeiro gol e, a partir daquele momento, inconscientemente, a equipe começou a administrar.

O problema é que não tinha os mecanismos necessários para administrar.

Uma equipe controla um resultado de duas maneiras: mantendo a posse e diminuindo o ritmo do adversário ou recuando de forma extremamente compacta e protegendo a própria área.

O Flamengo não fez nenhuma das duas.

Parou de pressionar, mas também não conseguiu controlar a posse.

Esse é o pior dos mundos.

O Cruzeiro passou a ter mais bola.

O Flamengo recuou.

Os espaços entre as linhas aumentaram.

E os jogadores começaram a correr mais atrás da bola.

Foi aí que a sensação de apatia apareceu.

NÃO ERA FALTA DE VONTADE. ERA FALTA DE CONTROLE.

Essa distinção é importante.

Dizer que o Flamengo simplesmente "não quis jogar" não explica de maneira racional o que aconteceu.

A equipe tentou competir.

O problema é que, quando perdeu o controle territorial, não encontrou uma maneira coletiva de recuperar o domínio.

O Cruzeiro passou a ter mais confiança a cada minuto.

O Flamengo passou a jogar cada vez mais perto da própria área.

E a partida ganhou uma dinâmica na qual o empate parecia apenas questão de tempo.

COMO LEONARDO JARDIM PODE CORRIGIR?

A derrota oferece algumas pistas claras.

A primeira é melhorar a proteção após a perda da bola.

Se os laterais avançarem simultaneamente, um dos volantes precisa assumir uma posição mais baixa.

A segunda é estabelecer um mecanismo de saída quando o adversário pressionar alto.

Não adianta simplesmente recuar a bola para os zagueiros. O Flamengo precisa criar uma saída de três, utilizando um volante entre os zagueiros ou um lateral entrando por dentro.

A terceira é aproximar os jogadores de criação de Pedro. O centroavante não pode ficar isolado durante períodos longos.

A quarta é estabelecer uma pressão pós-perda mais coordenada. O Flamengo não precisa pressionar o adversário durante 90 minutos. Mas precisa saber quando pressionar e quando recuar.

Essa escolha precisa ser coletiva.

UMA ALTERNATIVA: MENOS JOGADORES ATRÁS DA LINHA DA BOLA

Outra possibilidade para Jardim é reduzir a quantidade de jogadores que avançam simultaneamente.

Em determinados momentos, o Flamengo teve laterais, pontas, meias e até um dos volantes à frente da linha da bola.

Quando perdeu a posse, ficou vulnerável.

Uma alternativa seria manter sempre uma estrutura de segurança formada por três jogadores atrás da bola.

Isso permitiria que Arrascaeta, Paquetá, Lino e os demais jogadores ofensivos tivessem liberdade sem comprometer tanto a proteção defensiva.

O CENÁRIO PARA O RESTANTE DA TEMPORADA

A derrota não muda o diagnóstico geral sobre o Flamengo.

O time continua tendo um elenco capaz de disputar títulos.

Continua tendo jogadores de enorme qualidade técnica.

E Leonardo Jardim mostrou capacidade para construir um modelo ofensivo competitivo, apesar dos erros de leitura de jogo que ele apresentou no segundo tempo da partida.

Mas o calendário agora entra em uma fase diferente.

Com Brasileirão e Libertadores avançando simultaneamente, o Flamengo não terá mais espaço para oscilações tão grandes dentro de uma mesma partida.

A margem de erro diminui.

E os adversários já perceberam que existe uma forma de incomodar o time: pressionar a saída, aumentar a intensidade no meio-campo e atacar os espaços deixados pelos laterais.

Jardim terá de encontrar respostas.

O Mineirão não deve ser tratado como uma tragédia. Deve ser tratado como um manual de correções.

O Flamengo mostrou que pode dominar os adversários, mas também mostrou que pode ser dominado.

A diferença entre essas duas versões da equipe precisa desaparecer.

O desafio de Leonardo Jardim daqui para frente é transformar o Flamengo de um time que joga muito bem em determinados períodos em uma equipe capaz de controlar os 90 minutos.

Porque nos mata-matas da Libertadores e na reta decisiva do Brasileirão, não será suficiente jogar bem por 45 minutos.

E, depois do que aconteceu no Mineirão, essa talvez seja a principal lição que o Flamengo leva para o restante da temporada.

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