Raio-X Tático: como o Flamengo venceu o Remo em um jogo travado pela chuva e pela marcação
Acompanhe todos os detalhes desta análise do Flamengo hoje, informações exclusivas e fique por dentro das últimas contratações do Flamengo.
Imagem: Gilvan de Souza/CRFRubro-Negro teve domínio territorial, encontrou dificuldades contra o bloco compacto do Remo e precisou acelerar o jogo no segundo tempo para criar as chances que decidiram a partida
O 1 a 0 sobre o Remo, no Mangueirão, pode parecer mais simples no placar do que foi dentro de campo. O Flamengo teve mais posse, controlou territorialmente boa parte da partida e terminou com 16 finalizações contra cinco do adversário, mas encontrou enorme dificuldade para transformar domínio em gol.
A vitória nasceu justamente da capacidade de Leonardo Jardim ajustar o comportamento ofensivo no segundo tempo. O Flamengo passou a atacar com mais velocidade, ocupou melhor os espaços próximos à área e encontrou em Arrascaeta o jogador capaz de produzir a jogada que Samuel Lino transformou no gol da vitória.
O desenho inicial de Leonardo Jardim
O Flamengo iniciou a partida em uma estrutura que, na prática, alternava entre 4-3-3 e 4-2-3-1, dependendo da posição de Lucas Paquetá e Arrascaeta.
Rossi esteve no gol, com Emerson Royal e Ayrton Lucas dando amplitude pelos lados e Léo Ortiz e Léo Pereira formando a dupla de zaga. No meio, Jorginho funcionava como referência mais baixa, enquanto Paquetá tinha liberdade para avançar e Arrascaeta ocupava zonas mais adiantadas.
Na frente, Carrascal partia do lado direito, Samuel Lino aparecia pela esquerda e Pedro ocupava a referência central.
A ideia era clara: utilizar a superioridade técnica no meio-campo para empurrar o Remo para perto da própria área e criar situações de superioridade pelos corredores.
O problema foi transformar essa superioridade territorial em superioridade real dentro da área.
Remo fecha o centro e obriga o Flamengo a circular
O principal mérito do Remo no primeiro tempo foi a compactação.
A equipe de Léo Condé não permitiu que o Flamengo recebesse facilmente entre as linhas. Os jogadores responsáveis pela criação rubro-negra eram frequentemente obrigados a receber de costas ou em posições mais afastadas da área.
Com isso, o Flamengo circulava a bola de um lado para o outro, mas tinha dificuldade para acelerar o último terço.
A equipe chegava ao campo ofensivo, mas encontrava uma linha defensiva protegida por jogadores próximos. O espaço que normalmente aparece entre lateral, zagueiro e volante adversário simplesmente não estava disponível com frequência.
Esse foi o grande problema ofensivo do Flamengo na primeira etapa: posse sem ruptura suficiente.
O campo pesado também alterou a dinâmica
A análise tática da partida precisa considerar um elemento que interferiu diretamente na execução: a chuva.
Com o gramado pesado e progressivamente mais encharcado, a circulação rápida da bola pelo chão ficou prejudicada. O Flamengo, uma equipe que depende de combinações curtas, mobilidade e passes rápidos para desmontar blocos defensivos, teve sua principal ferramenta ofensiva afetada pelas condições do campo.
Isso também favoreceu o Remo. Quanto mais lento o jogo, mais confortável ficava a equipe paraense em defender em bloco baixo e reduzir os espaços.
Por isso, parte da dificuldade rubro-negra não pode ser explicada apenas por deficiência técnica ou falta de criatividade. O contexto físico do campo alterou o ritmo do confronto.
O problema crônico voltou a aparecer: Flamengo desperdiça
Quando finalmente conseguiu acelerar, o Flamengo criou chances suficientes para abrir o placar.
Pedro teve oportunidades claras no início do segundo tempo, incluindo uma cabeçada que exigiu defesa espetacular de Marcelo Rangel. Em outra finalização do camisa 9, o goleiro do Remo novamente apareceu para evitar o gol.
Samuel Lino também acertou a trave antes de marcar.
O dado mais importante, portanto, não é simplesmente que o Flamengo teve dificuldade para criar. É que, quando criou, não conseguiu transformar rapidamente as oportunidades em vantagem.
Esse comportamento mantém vivo um problema recorrente da equipe de Leonardo Jardim: o volume ofensivo muitas vezes não corresponde ao número de gols marcados.
O ajuste decisivo: mais mobilidade no ataque
A diferença do segundo tempo esteve menos em uma mudança radical de sistema e mais na forma como os jogadores passaram a ocupar os espaços.
Samuel Lino começou a aparecer mais próximo da área e com maior liberdade para atacar o espaço entre lateral e zagueiro. Pedro continuou oferecendo referência central, mas o Flamengo passou a ter mais jogadores chegando de frente para a área.
Arrascaeta também ganhou importância na construção das jogadas decisivas.
O uruguaio passou a buscar mais frequentemente a zona entre a defesa e o meio-campo do Remo, tentando receber de frente e acelerar o último passe.
Foi exatamente de uma dessas situações que nasceu o gol.
Arrascaeta encontra a brecha; Lino faz o resto
Aos 19 minutos da segunda etapa, Arrascaeta recebeu na entrada da área, conseguiu criar espaço e encontrou Samuel Lino entrando pelo lado esquerdo.
O passe desmontou momentaneamente a compactação do Remo. Lino recebeu já dentro da área, atacou o espaço e finalizou de direita no canto de Marcelo Rangel.
O lance resume a principal diferença entre o Flamengo do primeiro e do segundo tempo: menos circulação horizontal e mais agressividade na ocupação dos espaços verticais.
Não foi necessário desmontar completamente a estrutura do Remo. Bastou encontrar uma brecha entre os defensores e explorá-la com velocidade.
Samuel Lino virou a principal válvula de escape
A atuação de Samuel Lino também merece uma leitura tática individual.
O atacante começou aberto pela esquerda, mas não permaneceu preso ao corredor. Em diversos momentos, procurou movimentos diagonais para dentro, aproximando-se de Pedro e dos meias.
Essa movimentação é importante porque impede que o lateral adversário simplesmente permaneça aberto esperando o confronto individual.
Quando Lino entra por dentro, o defensor precisa decidir entre acompanhá-lo ou proteger a linha defensiva. É justamente nessa dúvida que surgem os espaços.
O gol nasceu de uma situação em que Lino conseguiu atacar esse espaço com vantagem.
A fase do atacante deixa de ser apenas uma questão de confiança. Ele se tornou uma peça funcional no modelo de Jardim, capaz de alternar amplitude, ataque à profundidade e presença dentro da área.
Carrascal participa, mas o Flamengo perde capacidade de criação quando o jogo fica travado
Carrascal novamente participou da estrutura ofensiva, mas encontrou um cenário diferente daquele enfrentado contra Botafogo e Mirassol.
O colombiano teve menos espaço para receber entre linhas porque o Remo protegeu justamente a região central. Sem espaço para girar e acelerar, Carrascal precisou buscar mais os lados e teve dificuldade para reproduzir sua influência dos jogos anteriores.
A partida mostra uma questão importante para Leonardo Jardim: quando o adversário fecha o centro e reduz o espaço entre as linhas, o Flamengo precisa produzir superioridade pelos corredores e fazer a bola chegar rapidamente ao lado oposto.
Foi um dos aspectos que demoraram a aparecer no Mangueirão.
As substituições mantêm a estrutura e aumentam as opções
Leonardo Jardim fez mudanças pensando também na sequência da temporada. Bruno Henrique entrou no lugar de Carrascal, enquanto Saúl substituiu Paquetá.
Na reta final, Pulgar entrou no lugar de Arrascaeta, Pedro saiu para a estreia de Joaquín Freitas e Samuel Lino deixou o campo para a entrada de Anthony Valencia.
As alterações tiveram uma característica clara: preservar jogadores importantes e, ao mesmo tempo, dar minutos às novas peças do elenco.
Freitas, especialmente, teve seus primeiros minutos pelo Flamengo. Ainda é cedo para qualquer avaliação definitiva, mas sua estreia já oferece a Leonardo Jardim uma nova alternativa para a rotação ofensiva.
O Flamengo também soube defender a vantagem
Depois do gol, o jogo entrou em outra fase.
O Remo precisou abandonar parcialmente a postura mais conservadora e buscar o empate. Isso abriu espaços para o Flamengo atacar, mas também aumentou a necessidade de proteger a vantagem.
Jardim optou por administrar o resultado sem abrir mão completamente da possibilidade de contra-atacar. O problema foi que o Flamengo desperdiçou uma oportunidade importante com Lucas Paquetá, que poderia ter encerrado a partida mais cedo.
Na defesa, Rossi apareceu quando necessário e o sistema conseguiu impedir que o Remo transformasse a pressão final em gol.
O que o jogo revela sobre o Flamengo
A vitória em Belém não foi uma demonstração de superioridade absoluta. Foi uma vitória construída em diferentes etapas.
No primeiro tempo, o Flamengo teve posse, mas encontrou um Remo compacto e um campo que dificultava a circulação. No segundo, aumentou a velocidade, criou mais chances e encontrou o gol justamente quando conseguiu atacar os espaços com maior objetividade.
O jogo também reforça duas características que acompanham o Flamengo de Jardim: capacidade de controlar territorialmente as partidas e dificuldade para transformar todo esse controle em gols com a mesma velocidade.
Desta vez, Samuel Lino resolveu o problema.
Vitória que vale mais do que três pontos
O Flamengo deixou o Mangueirão com 54 pontos e assumiu provisoriamente a liderança do Brasileirão. Mais importante para Leonardo Jardim, porém, foi vencer um jogo que exigiu adaptação às condições do campo, paciência diante de um bloco baixo e capacidade de resistir às oportunidades desperdiçadas.
Agora, o desafio muda completamente de natureza. Na quinta-feira, o Flamengo enfrenta o Independiente del Valle, em Quito, pela Libertadores.
Será outro tipo de partida, com altitude, adversário mais agressivo e menor possibilidade de controlar o território durante os 90 minutos.
O Mangueirão mostrou que o Flamengo sabe vencer quando precisa trabalhar o jogo até encontrar uma brecha. Quito dirá se essa mesma equipe consegue fazer isso quando o adversário também tiver ferramentas para atacar seus próprios espaços.
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