Raio-X Tático: Flamengo sobrevive à pressão do Del Valle e decide o jogo no segundo tempo em Quito
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Imagem: Alexandre Vidal/CRFLeonardo Jardim monta um Flamengo cauteloso na altitude, protege o corredor central e transforma eficiência ofensiva e bola parada nas armas para construir vitória por 2 a 0
O Flamengo venceu o Independiente del Valle por 2 a 0, em Quito, e encaminhou a classificação para a semifinal da Libertadores. Mas o resultado não conta sozinho a história da partida. Taticamente, o confronto foi dividido em dois jogos completamente diferentes: no primeiro tempo, o Del Valle controlou território, posse e volume ofensivo; no segundo, o Flamengo encontrou os espaços que procurava e transformou duas oportunidades em dois gols.
Leonardo Jardim montou uma equipe consciente das condições específicas do confronto. Jogar a aproximadamente 2.850 metros de altitude exigia controlar o gasto físico, evitar uma partida excessivamente acelerada e preservar energia para os momentos em que o adversário inevitavelmente sentiria o desgaste.
O plano funcionou de maneira especialmente clara depois do intervalo. O Flamengo terminou o jogo com apenas duas finalizações certas e dois gols, enquanto o Del Valle teve volume muito maior, mas não conseguiu converter sua superioridade territorial em vantagem no placar.

Primeiro tempo: Flamengo jogou para sobreviver
O desenho inicial do Flamengo foi um 4-2-3-1, com Bruno Henrique como referência ofensiva, Arrascaeta centralizado atrás do atacante e Carrascal e Samuel Lino ocupando os lados.
Sem a bola, a equipe procurou formar duas linhas compactas e proteger principalmente a região central. Jorginho e Pulgar tiveram papel importante nesse movimento, tentando impedir que Sornoza recebesse com liberdade entre as linhas.
A consequência foi uma redução significativa da posse rubro-negra. O Flamengo terminou o primeiro tempo com aproximadamente 32% da bola e não conseguiu finalizar nenhuma vez. O Del Valle, por sua vez, teve dez finalizações na etapa inicial.
Mas existe uma diferença importante entre sofrer volume e sofrer controle absoluto. O Del Valle circulava mais a bola, cruzava bastante e mantinha o Flamengo próximo de sua própria área, mas não conseguia criar uma sequência de chances claras.
A principal exceção aconteceu aos 19 minutos. Arón Rodríguez cruzou da direita e encontrou Carlos González na área. O atacante finalizou de primeira e acertou a trave de Rossi.
Foi o momento em que o Flamengo esteve mais próximo de sofrer o gol. O restante da etapa foi marcado mais por pressão territorial do que por oportunidades cristalinas.
O ajuste mais importante foi físico e espacial
No segundo tempo, o Flamengo não simplesmente passou a atacar mais. A equipe passou a encontrar melhor os espaços para atacar.
Com o Del Valle avançando seus jogadores para tentar pressionar, os corredores nas costas dos laterais começaram a aparecer. Foi justamente nesse espaço que Samuel Lino encontrou a jogada do primeiro gol.
Aos 15 minutos, Jorginho percebeu a movimentação do atacante e colocou a bola nas costas da defesa. Lino atacou a área e, sem precisar dominar, cruzou rasteiro para Bruno Henrique finalizar.
O lance sintetiza uma das principais diferenças entre os dois tempos: o Flamengo deixou de tentar construir ataques longos contra uma defesa posicionada e passou a explorar a velocidade para atacar o espaço.

Bruno Henrique foi a escolha que mudou o desenho ofensivo
A escolha de Bruno Henrique como titular no lugar de Pedro teve peso tático. O camisa 27 oferece um tipo diferente de ameaça ao adversário, principalmente pela capacidade de atacar em profundidade.
Em um jogo no qual o Del Valle precisava avançar seus laterais e aumentava a distância entre defesa e meio-campo, essa característica ganhou importância.
O primeiro gol nasceu exatamente dessa dinâmica. Lino atacou a profundidade, recebeu de Jorginho e Bruno Henrique apareceu dentro da área para concluir.
Mais do que uma simples troca de nomes, a presença de Bruno Henrique permitiu ao Flamengo ameaçar uma defesa que passou boa parte do primeiro tempo confortável porque não precisava se preocupar tanto com ataques às costas. A escolha de Jardim foi confirmada pelo resultado.
O segundo gol expõe outro recurso de Jardim
Se o primeiro gol veio de uma transição rápida, o segundo mostrou uma arma completamente diferente: a bola parada trabalhada.
Aos 29 minutos, Samuel Lino recebeu um passe curto de Gonzalo Plata após escanteio. Em vez de levantar diretamente na área, o Flamengo criou uma segunda ação para desmontar a marcação.
Plata acionou Emerson Royal, que teve espaço para cruzar. Léo Pereira atacou a bola e cabeceou no contrapé de Quintana.
A jogada é importante porque demonstra que o Flamengo conseguiu produzir perigo mesmo quando o Del Valle já havia recuado suas linhas para proteger a própria área. Não foi necessário depender apenas de transições: a equipe também encontrou solução em uma bola parada ensaiada.
Plata entrou e imediatamente participou do jogo
A entrada de Gonzalo Plata aos 26 minutos também merece atenção. O equatoriano substituiu Carrascal e passou a oferecer uma característica diferente ao lado direito do ataque.
Sua primeira grande participação veio justamente no segundo gol. Plata recebeu o passe curto de Lino, conduziu a sequência da jogada e acionou Emerson Royal para o cruzamento.
Isso cria uma possibilidade interessante para Leonardo Jardim nas próximas partidas. Plata pode funcionar como opção para dar amplitude, acelerar o jogo pelos lados e permitir que outros jogadores ocupem zonas mais centrais.
O retorno ainda precisa ser administrado fisicamente, mas começar sua reintegração com uma participação direta em um gol, justamente em Quito, é um sinal positivo para o treinador.

Del Valle teve posse, mas perdeu a batalha mais importante
O domínio estatístico do Independiente del Valle no primeiro tempo não se transformou em domínio da partida inteira. Esse é talvez o principal ponto tático do confronto.
A equipe equatoriana conseguiu empurrar o Flamengo para trás, mas não conseguiu construir vantagem antes que o desgaste e a necessidade de buscar o resultado alterassem o cenário.
Depois do gol de Bruno Henrique, o Del Valle precisou se expor. E quanto mais avançava, mais oferecia ao Flamengo exatamente o tipo de espaço que Jardim queria encontrar.
A substituição de Carlos González no intervalo também foi importante. O atacante havia acertado a trave no primeiro tempo e era a principal referência ofensiva dos equatorianos. Sem ele, o Flamengo passou a enfrentar um ataque menos ameaçador na área.
Jorginho e Lino foram fundamentais na transformação
Jorginho teve participação direta na construção do primeiro gol e foi importante para o Flamengo controlar melhor o ritmo na segunda etapa. Sua capacidade de encontrar passes verticais tornou-se mais relevante quando surgiram espaços entre a defesa e o meio-campo do Del Valle.
Samuel Lino foi outro nome decisivo. O atacante participou dos dois gols: cruzou para Bruno Henrique no primeiro e iniciou a jogada que terminou na cabeçada de Léo Pereira no segundo.
É mais uma demonstração da importância que Lino adquiriu no sistema de Leonardo Jardim. O jogador não ficou preso ao corredor esquerdo e voltou a aparecer em zonas de criação e ataque à profundidade.
O Flamengo venceu o jogo que precisava vencer
O 2 a 0 não significa que o Flamengo tenha dominado o Independiente del Valle durante os 90 minutos. Taticamente, aconteceu quase o contrário no primeiro tempo.
Mas a Libertadores também é uma competição de gestão. Jardim entendeu que era necessário sobreviver ao período de maior pressão, preservar energia e esperar que o contexto da partida mudasse.
Quando o Del Valle precisou correr mais riscos, o Flamengo encontrou os espaços. Quando surgiu a primeira grande oportunidade, marcou. Quando teve uma bola parada favorável, marcou novamente.
O resultado é consequência direta dessa eficiência.
Maracanã será outro jogo
Com a vantagem de 2 a 0, o Flamengo chega ao segundo jogo em situação confortável. Pode perder por um gol de diferença e ainda assim avançar para a semifinal.
Mas o resultado não elimina a necessidade de atenção. O Del Valle mostrou no primeiro tempo que consegue pressionar e controlar território quando o Flamengo permite que o jogo seja disputado próximo à própria área.
No Maracanã, porém, o contexto será completamente diferente. O Flamengo terá sua torcida, condições físicas mais familiares e a obrigação do adversário de buscar dois gols para levar a decisão aos pênaltis.
É justamente aí que a vitória em Quito se torna tão importante: Jardim não apenas ganhou fora de casa. Ele criou uma situação na qual o adversário será obrigado a sair da zona de conforto no jogo de volta.
Em Quito, o Flamengo venceu sem precisar dominar. Sobreviveu quando foi necessário, acelerou no momento certo e foi letal quando encontrou espaço. Para uma equipe que pretende chegar novamente à decisão continental, essa capacidade de controlar diferentes tipos de jogo pode ser tão importante quanto a qualidade individual de seus principais jogadores.
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