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Libertadores - Quartas - Jogo da volta

17 de setembro, 202621:30
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Opinião

O Flamengo, a chuva e aquele velho costume de não deixar o Maracanã dormir

MI

Por Miguel Sampaio

14 de setembro de 2026

38 acessos

Contra o Corinthians, o Rubro-Negro ganhou mais do que três pontos. Ganhou uma noite daquelas em que o futebol lembra que, no Maracanã, até o sofrimento pode ter final feliz.

Tem jogo que a gente assiste.

Tem jogo que a gente vive.

E tem jogo que a gente leva para casa.

Flamengo e Corinthians foi desses últimos.

Talvez porque tivesse chuva. Talvez porque tivesse Maracanã cheio. Talvez porque o Flamengo tivesse acabado de voltar de Quito, carregando nas pernas o peso de uma Libertadores e na cabeça aquela vitória por 2 a 0 que ainda estava fresca. Talvez porque o Corinthians tenha chegado com um time remendado, tentando guardar forças para a própria batalha continental.

Ou talvez simplesmente porque futebol seja assim mesmo: quando parece que a história já está escrita, aparece um sujeito chamado Gui Negão, muda uma linha do roteiro e obriga todo mundo a esperar até os minutos finais.

E o Flamengo esperou.

Até Bruno Henrique resolver a conversa.

O Maracanã tinha pressa. O jogo, não.

Mais de 70 mil pessoas foram ao estádio. Era uma tarde de domingo dessas em que o Rio parece querer testar a resistência de quem gosta de futebol. Chuva caindo, arquibancada cheia e aquele barulho que só o Maracanã sabe produzir quando percebe que o time precisa de alguma coisa.

O Flamengo precisava vencer.

Não porque o Corinthians fosse um gigante naquele momento (Muito embora camisa nunca seja pouca coisa), mas porque o Palmeiras tinha assumido provisoriamente a liderança e o campeonato já entrou naquela fase em que cada ponto começa a pesar como se fosse chumbo.

O Flamengo tinha ainda outro adversário invisível: o próprio cansaço.

Quito estava ali, de alguma maneira, nas pernas de quem havia jogado três dias antes a quase três mil metros de altitude. Leonardo Jardim precisou administrar o elenco. O Corinthians também poupou jogadores pensando na Libertadores. Era, portanto, um daqueles jogos em que o calendário entra em campo antes da bola.

Só que o Flamengo começou como quem não queria saber de calendário.

Começou atacando.

Começou empurrando.

Começou fazendo Hugo Souza trabalhar.

E aí apareceu uma velha conhecida do Flamengo: a bola que insiste em não entrar.

O placar não contava a história do primeiro tempo

O zero a zero do intervalo era uma dessas mentiras permitidas pelo futebol.

Quem olhasse apenas para o placar poderia imaginar equilíbrio. Não houve.

O Flamengo teve o jogo nas mãos, controlou a posse, rondou a área e empilhou oportunidades. O Corinthians resistiu como pôde. Hugo Souza, justamente ele, virou personagem. O goleiro que saiu do Flamengo para construir sua carreira longe do Ninho passou boa parte da tarde tentando impedir que o antigo clube transformasse domínio em goleada.

E conseguiu.

Por alguns minutos, pelo menos.

Porque o Flamengo criava, mas não matava.

E há um velho ditado nas arquibancadas que não precisa de estatística para ser entendido: quando você não mata o jogo, o jogo pode tentar matar você.

O Flamengo conhece essa história de cor.

Paquetá abriu a porta

Logo no começo do segundo tempo, Lucas Paquetá tratou de acabar com a espera.

Gol.... Alívio....

Aquela sensação boa de que finalmente a lógica havia encontrado o placar.

O Flamengo estava na frente, o Maracanã respirava e o Corinthians parecia cada vez mais perto de aceitar a derrota.

Mas futebol não aceita conclusões antecipadas.

O Corinthians encontrou um espaço. Kaio César trabalhou a jogada, Garro participou da construção e Gui Negão apareceu para empatar.

Um a um.

De repente, aquilo que parecia uma vitória encaminhada virou uma daquelas partidas que fazem o torcedor olhar para o relógio a cada trinta segundos.

E o relógio demorava.

Como sempre, demora quando a gente quer que ele corra.

Foi aí que apareceu Bruno Henrique

Há jogadores que fazem gols.

E há jogadores que parecem ter algum tipo de contrato particular com o destino.

Bruno Henrique é desses.

Quando a bola cruzou a área nos minutos finais, o atacante apareceu onde o atacante de verdade costuma aparecer: onde a defesa não queria que ele estivesse.

Cabeçada.

Gol.

2 a 1.

O Maracanã explodiu.

Não foi apenas um gol. Foi um desafogo coletivo. Foi aquele grito que sai antes mesmo de a cabeça compreender o que aconteceu. Foi gente abraçando desconhecido, camisa encharcada, garganta doendo e a certeza de que, por alguns segundos, ninguém precisava explicar absolutamente nada.

Era Bruno Henrique.

De novo.

Alguns jogadores não envelhecem. Viram memória antes da hora.

Eu já vi muita coisa no Maracanã.

Já vi jogador fazer gol que parecia impossível. Já vi time perder jogo ganho. Já vi torcida abandonar a esperança aos 40 do segundo tempo e descobrir, aos 45, que estava errada.

O futebol gosta dessas pequenas crueldades.

Bruno Henrique parece gostar ainda mais.

Há uma espécie de familiaridade naquele jeito de aparecer quando a partida pede coragem. Não é mais apenas velocidade, força ou técnica. É memória. É repertório. É saber reconhecer o instante.

E talvez seja isso que explique por que determinados jogadores conseguem permanecer tão vivos na memória de uma torcida.

Não é apenas pelo número de gols.

É pelo momento em que eles acontecem.

Uma vitória que diz mais do que o placar

O Flamengo venceu por 2 a 1 e retomou a liderança do Brasileirão, chegando aos 57 pontos, um à frente do Palmeiras.

Mas a tabela, às vezes, é a parte menos interessante da história.

O que ficou do jogo foi outra coisa.

O Flamengo teve forças para dominar mesmo depois de uma viagem pesada. Teve paciência para continuar tentando quando a bola não entrava. Teve qualidade para abrir o placar. Depois, quando sofreu o empate que parecia injusto diante do que havia acontecido em campo, teve personalidade para buscar novamente a vitória.

Não foi uma atuação perfeita.

Nem precisava ser.

O campeonato brasileiro raramente recompensa a perfeição. Ele recompensa quem permanece de pé quando a partida fica feia, quando a chuva aperta, quando a perna pesa e quando o adversário encontra um gol onde quase ninguém esperava.

O Flamengo permaneceu.

E ganhou.

O campeonato é uma longa conversa

Ainda faltam muitas páginas para escrever.

A Libertadores está ali, esperando a volta contra o Independiente del Valle. O calendário não vai oferecer descanso. O Brasileirão continuará exigindo pontos. Palmeiras continuará olhando pelo retrovisor. E o Flamengo continuará sendo cobrado por tudo aquilo que uma torcida acostumada a ganhar entende como obrigação.

Mas existe uma diferença entre obrigação e facilidade.

Ganhar do Corinthians não foi fácil.

Foi trabalhoso.

Foi molhado.

Foi demorado.

Foi sofrido.

Foi Flamengo.

E talvez seja essa a parte mais bonita do futebol: mesmo quando a gente conhece o time, conhece os jogadores, conhece o estádio e conhece até o jeito como a bola costuma rolar, ainda existe alguma coisa que não se deixa conhecer.

O inesperado.

Aquela cabeçada aos 44 do segundo tempo.

Aquele grito.

Aquele abraço.

Aquela chuva caindo sobre um Maracanã que, por alguns minutos, parecia ter virado uma casa enorme com mais de 70 mil moradores.

No fim, o Flamengo ganhou.

E voltou para a liderança.

Mas quem estava lá sabe: naquela tarde, ninguém saiu do Maracanã falando apenas de três pontos.

Saiu falando de Bruno Henrique.

Porque alguns gols vencem partidas.

Outros viram lembrança.

E o futebol, felizmente, ainda permite que a gente confunda as duas coisas.

Porque o futebol continua quando o jogo acaba.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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