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Libertadores - Oitavas - Jogo de ida

10 de setembro, 202621:30
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Opinião

O Flamengo ganhou no barro, na chuva e na paciência

MI

Por Miguel Sampaio

07 de setembro de 2026

24 acessos

Há vitórias que entram para a estatística. E há vitórias que deixam uma pequena história para contar.

Remo 0 x 1 Flamengo foi dessas.

Não pelo placar, que parece miúdo diante de um time que tem o melhor ataque do campeonato. Não pela facilidade, porque facilidade foi justamente o que o Flamengo não encontrou no Mangueirão. E muito menos pela qualidade do gramado, que em determinados momentos parecia ter sido convocado para jogar contra o próprio jogo.

Choveu como se Belém tivesse decidido testar a paciência rubro-negra.

E o Flamengo passou no teste.

Mais de 51 mil pessoas fizeram do Mangueirão uma espécie de caldeirão amazônico. A torcida do Remo empurrou seu time, a Nação fez o que sabe fazer longe de casa e o céu despejou água como se tivesse alguma implicância particular com o futebol. Foi uma tarde em que a bola correu quando quis, parou quando pôde e, em alguns momentos, simplesmente desistiu de obedecer.

Nessas horas, meu velho amigo futebol costuma cobrar uma virtude que não aparece nas estatísticas: paciência.

O Flamengo teve.

O placar não conta tudo

Quem olhar apenas para o 1 a 0 talvez conclua que foi uma partida apertada.

Não foi bem assim.

O Flamengo controlou boa parte do jogo, teve mais posse, criou oportunidades e encontrou em Marcelo Rangel um adversário particularmente inspirado. O goleiro do Remo fez defesas que, em outros domingos, poderiam ter transformado uma vitória simples em goleada.

E aí está uma velha conhecida da torcida rubro-negra: a dificuldade de transformar domínio em gol.

O Flamengo já poderia ter saído na frente no primeiro tempo. Pedro teve oportunidade, Arrascaeta tentou de fora da área, Samuel Lino incomodou pelo lado esquerdo e Carrascal também apareceu para finalizar.

A bola, entretanto, parecia ter combinado com Marcelo Rangel que aquele não seria um domingo fácil.

No segundo tempo, a história continuou.

Samuel Lino acertou a trave. Pedro parou novamente no goleiro. Paquetá teve uma chance que hoje deve estar passando pela cabeça dele como aquelas cenas de filme que a gente gostaria de editar.

Mas o Flamengo não perdeu a cabeça.

Isso é importante.

Porque há alguns meses, talvez um jogo assim tivesse produzido ansiedade, precipitação e aquele conhecido festival de cruzamentos desesperados para a área.

Leonardo Jardim parece estar ensinando outra coisa ao time: continue jogando.

O gol de Lino teve alguma coisa de malandragem

Aos 19 minutos do segundo tempo, Arrascaeta recebeu pelo meio e enxergou o que poucos enxergam antes dos outros.

Samuel Lino recebeu dentro da área e, em vez de procurar uma finalização bonita, escolheu uma finalização eficiente.

Um bico seco e cruel....

Gol.

Tem jogador que precisa de três movimentos para fazer um gol. Lino precisou de um toque e meio.

E há uma ironia bonita nisso: em um jogo em que o campo exigia quase uma licença para praticar futebol, o gol nasceu justamente da simplicidade.

Arrascaeta pensou.

Lino executou.

E o Flamengo respirou aliviado!

Foi o quinto gol de Samuel Lino nos últimos seis jogos. O atacante deixou de ser apenas uma contratação cara que ainda procurava seu lugar no time e passou a ser, neste momento da temporada, uma das principais referências ofensivas de Leonardo Jardim.

Isso não é pouca coisa.

O velho Flamengo também sabe ganhar feio

Talvez esta seja a parte mais interessante da história.

O Flamengo atual gosta de jogar futebol.

Gosta de ter a bola, controlar território, empurrar o adversário para trás e criar superioridade pelos lados. É um time que procura o jogo.

Mas campeonato não se ganha somente quando o campo está perfeito, o adversário permite espaço e a bola aceita correr pelo gramado.

Às vezes é preciso ganhar assim.

Com a camisa encharcada de água.

Com o campo pesado e impedindo a bola de rolar.

Com o adversário fechando os caminhos.

Com um goleiro fazendo milagres.

E com a torcida adversária lembrando, a cada minuto, que ainda existe um jogo para ser jogado.

No fim, o Flamengo fez aquilo que os grandes times precisam aprender a fazer: ganhou mesmo quando não conseguiu transformar sua superioridade em tranquilidade.

A vitória foi apertada.

O desempenho, não tanto.

Belém lembrou ao Flamengo o tamanho da camisa

Há algo que sempre me impressiona quando o Flamengo joga longe do Rio.

A camisa chega antes.

Chega de avião, de ônibus, de barco, de carro, de camisa vestida por quem mora a milhares de quilômetros do Maracanã.

No Mangueirão, isso ficou evidente.

Mais de 51 mil pessoas foram ao estádio, em uma das maiores festas esportivas do futebol brasileiro nesta rodada. E a Nação estava lá, fazendo barulho, enfrentando chuva e ajudando o time a atravessar uma tarde que exigia mais do que técnica.

É curioso.

Durante décadas, nós cariocas nos acostumamos a tratar o Flamengo como se ele fosse propriedade sentimental do Rio.

Não é.

O Flamengo é onipresente... O Flamengo é uma ideia que viaja!

E, em Belém, essa ideia vestiu vermelho e preto.

Liderança não é lugar para se acomodar

Com a vitória, o Flamengo chegou aos 54 pontos e assumiu a liderança do Campeonato Brasileiro após o empate do Palmeiras com o Botafogo.

Mas Leonardo Jardim fez questão de colocar freio na euforia.

Fez bem.

Futebol é um bicho engraçado. Na quinta-feira, o sujeito está dizendo que o time é candidato ao título. Na rodada seguinte, basta uma derrota para aparecer uma crise que ninguém sabia que existia.

O Flamengo não pode entrar nessa dança.

A liderança é consequência, não destino.

Ainda há muito campeonato pela frente. E, principalmente, há uma Libertadores esperando o Flamengo em Quito.

O time sequer terá tempo de comemorar direito.

E talvez seja melhor assim.

Depois do apito

Eu aprendi, em mais de quatro décadas acompanhando futebol, a desconfiar dos placares muito vistosos e prestar atenção nos domingos difíceis.

São eles que contam alguma coisa sobre um time.

Golear quando tudo funciona é bonito.

Ganhar quando nada ajuda é revelador.

O Flamengo saiu do Mangueirão com três pontos, liderança e uma certeza importante: continua sabendo jogar futebol, mas também está aprendendo a sobreviver quando o futebol fica difícil.

Na chuva de Belém, não houve espetáculo de gala.

Houve Samuel Lino, Arrascaeta, Marcelo Rangel, barro, água, torcida, paciência e um Flamengo que não se desesperou.

Às vezes, meus caros, o campeonato não pede uma obra-prima.

Pede três pontos.

E domingo, no Mangueirão, o Flamengo teve a sabedoria de entender isso.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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