O Flamengo ganhou no barro, na chuva e na paciência
07 de setembro de 2026
Há vitórias que entram para a estatística. E há vitórias que deixam uma pequena história para contar.
Remo 0 x 1 Flamengo foi dessas.
Não pelo placar, que parece miúdo diante de um time que tem o melhor ataque do campeonato. Não pela facilidade, porque facilidade foi justamente o que o Flamengo não encontrou no Mangueirão. E muito menos pela qualidade do gramado, que em determinados momentos parecia ter sido convocado para jogar contra o próprio jogo.
Choveu como se Belém tivesse decidido testar a paciência rubro-negra.
E o Flamengo passou no teste.
Mais de 51 mil pessoas fizeram do Mangueirão uma espécie de caldeirão amazônico. A torcida do Remo empurrou seu time, a Nação fez o que sabe fazer longe de casa e o céu despejou água como se tivesse alguma implicância particular com o futebol. Foi uma tarde em que a bola correu quando quis, parou quando pôde e, em alguns momentos, simplesmente desistiu de obedecer.
Nessas horas, meu velho amigo futebol costuma cobrar uma virtude que não aparece nas estatísticas: paciência.
O Flamengo teve.
O placar não conta tudo
Quem olhar apenas para o 1 a 0 talvez conclua que foi uma partida apertada.
Não foi bem assim.
O Flamengo controlou boa parte do jogo, teve mais posse, criou oportunidades e encontrou em Marcelo Rangel um adversário particularmente inspirado. O goleiro do Remo fez defesas que, em outros domingos, poderiam ter transformado uma vitória simples em goleada.
E aí está uma velha conhecida da torcida rubro-negra: a dificuldade de transformar domínio em gol.
O Flamengo já poderia ter saído na frente no primeiro tempo. Pedro teve oportunidade, Arrascaeta tentou de fora da área, Samuel Lino incomodou pelo lado esquerdo e Carrascal também apareceu para finalizar.
A bola, entretanto, parecia ter combinado com Marcelo Rangel que aquele não seria um domingo fácil.
No segundo tempo, a história continuou.
Samuel Lino acertou a trave. Pedro parou novamente no goleiro. Paquetá teve uma chance que hoje deve estar passando pela cabeça dele como aquelas cenas de filme que a gente gostaria de editar.
Mas o Flamengo não perdeu a cabeça.
Isso é importante.
Porque há alguns meses, talvez um jogo assim tivesse produzido ansiedade, precipitação e aquele conhecido festival de cruzamentos desesperados para a área.
Leonardo Jardim parece estar ensinando outra coisa ao time: continue jogando.
O gol de Lino teve alguma coisa de malandragem
Aos 19 minutos do segundo tempo, Arrascaeta recebeu pelo meio e enxergou o que poucos enxergam antes dos outros.
Samuel Lino recebeu dentro da área e, em vez de procurar uma finalização bonita, escolheu uma finalização eficiente.
Um bico seco e cruel....
Gol.
Tem jogador que precisa de três movimentos para fazer um gol. Lino precisou de um toque e meio.
E há uma ironia bonita nisso: em um jogo em que o campo exigia quase uma licença para praticar futebol, o gol nasceu justamente da simplicidade.
Arrascaeta pensou.
Lino executou.
E o Flamengo respirou aliviado!
Foi o quinto gol de Samuel Lino nos últimos seis jogos. O atacante deixou de ser apenas uma contratação cara que ainda procurava seu lugar no time e passou a ser, neste momento da temporada, uma das principais referências ofensivas de Leonardo Jardim.
Isso não é pouca coisa.
O velho Flamengo também sabe ganhar feio
Talvez esta seja a parte mais interessante da história.
O Flamengo atual gosta de jogar futebol.
Gosta de ter a bola, controlar território, empurrar o adversário para trás e criar superioridade pelos lados. É um time que procura o jogo.
Mas campeonato não se ganha somente quando o campo está perfeito, o adversário permite espaço e a bola aceita correr pelo gramado.
Às vezes é preciso ganhar assim.
Com a camisa encharcada de água.
Com o campo pesado e impedindo a bola de rolar.
Com o adversário fechando os caminhos.
Com um goleiro fazendo milagres.
E com a torcida adversária lembrando, a cada minuto, que ainda existe um jogo para ser jogado.
No fim, o Flamengo fez aquilo que os grandes times precisam aprender a fazer: ganhou mesmo quando não conseguiu transformar sua superioridade em tranquilidade.
A vitória foi apertada.
O desempenho, não tanto.
Belém lembrou ao Flamengo o tamanho da camisa
Há algo que sempre me impressiona quando o Flamengo joga longe do Rio.
A camisa chega antes.
Chega de avião, de ônibus, de barco, de carro, de camisa vestida por quem mora a milhares de quilômetros do Maracanã.
No Mangueirão, isso ficou evidente.
Mais de 51 mil pessoas foram ao estádio, em uma das maiores festas esportivas do futebol brasileiro nesta rodada. E a Nação estava lá, fazendo barulho, enfrentando chuva e ajudando o time a atravessar uma tarde que exigia mais do que técnica.
É curioso.
Durante décadas, nós cariocas nos acostumamos a tratar o Flamengo como se ele fosse propriedade sentimental do Rio.
Não é.
O Flamengo é onipresente... O Flamengo é uma ideia que viaja!
E, em Belém, essa ideia vestiu vermelho e preto.
Liderança não é lugar para se acomodar
Com a vitória, o Flamengo chegou aos 54 pontos e assumiu a liderança do Campeonato Brasileiro após o empate do Palmeiras com o Botafogo.
Mas Leonardo Jardim fez questão de colocar freio na euforia.
Fez bem.
Futebol é um bicho engraçado. Na quinta-feira, o sujeito está dizendo que o time é candidato ao título. Na rodada seguinte, basta uma derrota para aparecer uma crise que ninguém sabia que existia.
O Flamengo não pode entrar nessa dança.
A liderança é consequência, não destino.
Ainda há muito campeonato pela frente. E, principalmente, há uma Libertadores esperando o Flamengo em Quito.
O time sequer terá tempo de comemorar direito.
E talvez seja melhor assim.
Depois do apito
Eu aprendi, em mais de quatro décadas acompanhando futebol, a desconfiar dos placares muito vistosos e prestar atenção nos domingos difíceis.
São eles que contam alguma coisa sobre um time.
Golear quando tudo funciona é bonito.
Ganhar quando nada ajuda é revelador.
O Flamengo saiu do Mangueirão com três pontos, liderança e uma certeza importante: continua sabendo jogar futebol, mas também está aprendendo a sobreviver quando o futebol fica difícil.
Na chuva de Belém, não houve espetáculo de gala.
Houve Samuel Lino, Arrascaeta, Marcelo Rangel, barro, água, torcida, paciência e um Flamengo que não se desesperou.
Às vezes, meus caros, o campeonato não pede uma obra-prima.
Pede três pontos.
E domingo, no Mangueirão, o Flamengo teve a sabedoria de entender isso.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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