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Brasileirão - 27 rodada

13 de setembro, 202617:30
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Opinião

O Flamengo aprendeu a respirar nos Andes

MI

Por Miguel Sampaio

11 de setembro de 2026

35 acessos

Há noites em que o futebol pede talento.

Há outras em que se pede coragem.

E existem aquelas, mais raras, em que se pede inteligência.

O Flamengo teve as três coisas em Quito.

Mas, sobretudo, teve juízo.

Vencer o Independiente del Valle por 2 a 0, na altitude de 2.850 metros, não foi apenas ganhar um jogo de Libertadores. Foi compreender o jogo que precisava ser jogado.

E isso, meus caros, é coisa de time amadurecido.

O Flamengo não tentou ser o Flamengo do Maracanã.

E nem poderia.

O ar era outro. O campo era outro. O adversário era outro. E até o relógio parecia correr de maneira diferente.

Na montanha, cada pique custa mais caro.

Cada erro de passe parece maior.

Cada minuto sem a bola parece durar uma eternidade.

E o Flamengo entendeu isso.

Talvez seja essa a maior vitória da noite.

Primeiro, sobreviver. Depois, jogar.

Quem assistiu ao primeiro tempo viu um Flamengo desconfortável.

Não há motivo para esconder.

O Independiente del Valle teve mais posse, circulou a bola, pressionou a saída brasileira e conseguiu empurrar o Rubro-Negro para trás em diversos momentos.

Carlos González acertou a trave.

Rossi precisou acompanhar de perto alguns cruzamentos perigosos.

O Flamengo tinha dificuldade para respirar e, principalmente, para permanecer com a bola.

É curioso como a altitude muda a percepção de quem está sentado no sofá.

A televisão mostra onze contra onze.

Mas quem está em Quito sabe que não é exatamente assim.

Existe um adversário invisível correndo junto.

O ar.... ou melhor, a falta dele....

O Flamengo, então, fez uma escolha.

Não gastar tudo.

Não transformar o primeiro tempo numa batalha de sobrevivência física.

Esperar.

Às vezes, meus caros, esperar também é jogar.

O empate sem gols no intervalo não era bonito.

Era estratégico.

E na Libertadores, estratégia também ganha partidas.

Leonardo Jardim jogou com o relógio

Há uma qualidade que talvez seja a mais importante de Leonardo Jardim neste Flamengo: ele parece entender que nem toda partida precisa ser vencida da mesma maneira.

Contra o Remo, foi preciso paciência.

Em Quito, foi preciso economia.

O treinador sabia que o Del Valle teria de pagar a conta do próprio esforço.

E pagou.

No segundo tempo, o jogo começou a mudar.

O Flamengo continuou sem pressa.

Mas já não estava tão acuado.

A saída de Carlos González, principal referência ofensiva do Del Valle, também ajudou a aliviar a pressão. O time equatoriano perdeu parte de sua capacidade de incomodar a defesa brasileira pelo alto e entre os zagueiros.

E aí apareceu aquilo que os grandes times têm de melhor: a capacidade de reconhecer o momento.

Aos 15 minutos, Jorginho encontrou Samuel Lino.

O atacante recebeu pela esquerda e cruzou rasteiro.

Bruno Henrique apareceu.

Não foi um gol de força.... foi um gol de leitura.

O Flamengo esperou o momento certo e, quando ele apareceu, atacou.

É diferente.

Muito diferente.

Bruno Henrique continua sabendo onde a Libertadores mora

Bruno Henrique tem uma relação curiosa com a Libertadores.

Existem jogadores que precisam que o jogo aconteça para aparecer.

Bruno parece aparecer justamente quando o jogo fica maior.

Capitão, referência ofensiva e artilheiro rubro-negro na competição, ele foi novamente decisivo.

E talvez seja justamente por isso que Leonardo Jardim tenha escolhido sua presença desde o início.

Pedro ficou no banco.

Não porque tenha deixado de ser importante.

Mas porque o futebol também é feito de circunstâncias.

Na altitude, naquela noite, Bruno Henrique oferecia algo diferente: profundidade, experiência e a capacidade de transformar uma bola em perigo.

Transformou.

A bola entrou.

E Quito começou a ficar silenciosa.

Léo Pereira e a arte de aparecer quando ninguém espera

O segundo gol teve outra característica.

Foi quase uma declaração de autoridade.

Emerson Royal cruzou com precisão.

Léo Pereira apareceu na segunda trave.

2 a 0.

O zagueiro que tantas vezes aparece para apagar incêndios resolveu aparecer também para acender a festa rubro-negra.

E há algo simbólico nesse gol.

Porque o Flamengo não precisou de uma noite espetacular de Arrascaeta.

Não precisou de uma avalanche ofensiva.

Não precisou de vinte finalizações.

Precisou de três chutes e fez dois gols.

O Del Valle finalizou muito mais.

Mas Libertadores não é concurso de estatística.

É concurso de sobrevivência... e de eficiência.

O jogo que os números não explicam

Olho para os números e vejo uma história curiosa.

O Independiente del Valle finalizou 18 vezes.

O Flamengo, apenas três.

E ganhou por 2 a 0.

Para alguns, isso parecerá estranho.

Para quem entende Libertadores, não tanto.

O Flamengo aceitou não dominar a partida durante longos períodos.

Aceitou sofrer.

Aceitou jogar sem a bola.

Aceitou economizar.

Mas não aceitou perder o controle emocional.

Isso é diferente de ser dominado.

Um time pode ter menos posse e ainda assim saber exatamente o que está fazendo.

Foi o que aconteceu em Quito.

O Flamengo não fez uma partida exuberante.

Fez uma partida adulta.

E há momentos em uma Libertadores em que maturidade vale mais do que espetáculo.

Plata voltou para casa

E houve ainda uma pequena história paralela.

Gonzalo Plata entrou em campo justamente no Equador, seu país, depois de toda a novela envolvendo sua frustrada transferência para o futebol russo.

Foi uma noite simbólica para o atacante.

Não entrou para decidir.

Não precisava.

Mas voltou a estar em campo.

E, olhando para o banco do Flamengo, Leonardo Jardim tinha Pedro, Paquetá, Plata e outros jogadores capazes de mudar uma partida.

Isso também explica muita coisa.

Time campeão não é apenas aquele que tem onze bons jogadores.

É aquele que consegue olhar para o banco e não sentir medo quando o jogo começa a apertar.

O Flamengo tem esse luxo.

E Libertadores costuma cobrar caro de quem não tem.

O Maracanã agora pode esperar

Há uma diferença enorme entre ganhar fora de casa e ganhar fora de casa por 2 a 0.

O Flamengo volta para o Rio podendo perder por até um gol de diferença e ainda assim avançar diretamente para a semifinal.

Se o Del Valle vencer por dois gols, a decisão será nos pênaltis.

Ou seja: o Flamengo fez em Quito aquilo que todo visitante sonha fazer em uma eliminatória.

Saiu vivo.

E saiu com vantagem.

Agora o jogo será no Maracanã.

A montanha ficará para trás.

O ar será o nosso... a torcida será nossa.

E o Del Valle terá de fazer aquilo que o Flamengo fez em Quito: encontrar uma maneira de jogar contra um cenário desfavorável.

Boa sorte para eles, porque o azar é certo!

Depois do apito

Eu já vi o Flamengo perder na altitude.

Já vi o Flamengo entrar em campo em Quito e parecer que tinha esquecido como se joga futebol.

Já vi goleada.

Já vi sofrimento.

Já vi promessa de revanche.

Mas poucas coisas são tão interessantes quanto assistir a um time aprender com o próprio passado.

O Flamengo não venceu o Del Valle porque foi mais intenso.

Não venceu porque atacou mais.

Não venceu porque dominou.

Venceu porque soube esperar.

Porque soube sofrer.

Porque soube respirar.

E, quando a montanha permitiu, soube atacar.

Bruno Henrique abriu a porta.

Léo Pereira fechou a conta.

Leonardo Jardim comandou o relógio.

E o Flamengo saiu dos Andes com uma vantagem que vale muito mais do que dois gols.

Vale a sensação de que o time sabe, finalmente, que Libertadores não é somente sobre jogar melhor.

Às vezes é sobre entender o lugar.

Entender o adversário.

Entender o momento.

E entender que existem noites de Copa em que a bola não pede pressa.

Pede cabeça.

Naquela noite fria de Quito, o Flamengo teve cabeça.

E agora leva para o Maracanã uma vantagem que pode abrir o caminho para mais uma semifinal de Libertadores.

O Flamengo não ganhou a montanha.

Isso seria exagero.

Mas aprendeu a respeitá-la… e, principalmente, aprendeu a respirar nela.

E, para quem quer chegar ao topo da América, talvez seja exatamente isso que importa.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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