O Flamengo aprendeu a respirar nos Andes
11 de setembro de 2026
Há noites em que o futebol pede talento.
Há outras em que se pede coragem.
E existem aquelas, mais raras, em que se pede inteligência.
O Flamengo teve as três coisas em Quito.
Mas, sobretudo, teve juízo.
Vencer o Independiente del Valle por 2 a 0, na altitude de 2.850 metros, não foi apenas ganhar um jogo de Libertadores. Foi compreender o jogo que precisava ser jogado.
E isso, meus caros, é coisa de time amadurecido.
O Flamengo não tentou ser o Flamengo do Maracanã.
E nem poderia.
O ar era outro. O campo era outro. O adversário era outro. E até o relógio parecia correr de maneira diferente.
Na montanha, cada pique custa mais caro.
Cada erro de passe parece maior.
Cada minuto sem a bola parece durar uma eternidade.
E o Flamengo entendeu isso.
Talvez seja essa a maior vitória da noite.
Primeiro, sobreviver. Depois, jogar.
Quem assistiu ao primeiro tempo viu um Flamengo desconfortável.
Não há motivo para esconder.
O Independiente del Valle teve mais posse, circulou a bola, pressionou a saída brasileira e conseguiu empurrar o Rubro-Negro para trás em diversos momentos.
Carlos González acertou a trave.
Rossi precisou acompanhar de perto alguns cruzamentos perigosos.
O Flamengo tinha dificuldade para respirar e, principalmente, para permanecer com a bola.
É curioso como a altitude muda a percepção de quem está sentado no sofá.
A televisão mostra onze contra onze.
Mas quem está em Quito sabe que não é exatamente assim.
Existe um adversário invisível correndo junto.
O ar.... ou melhor, a falta dele....
O Flamengo, então, fez uma escolha.
Não gastar tudo.
Não transformar o primeiro tempo numa batalha de sobrevivência física.
Esperar.
Às vezes, meus caros, esperar também é jogar.
O empate sem gols no intervalo não era bonito.
Era estratégico.
E na Libertadores, estratégia também ganha partidas.
Leonardo Jardim jogou com o relógio
Há uma qualidade que talvez seja a mais importante de Leonardo Jardim neste Flamengo: ele parece entender que nem toda partida precisa ser vencida da mesma maneira.
Contra o Remo, foi preciso paciência.
Em Quito, foi preciso economia.
O treinador sabia que o Del Valle teria de pagar a conta do próprio esforço.
E pagou.
No segundo tempo, o jogo começou a mudar.
O Flamengo continuou sem pressa.
Mas já não estava tão acuado.
A saída de Carlos González, principal referência ofensiva do Del Valle, também ajudou a aliviar a pressão. O time equatoriano perdeu parte de sua capacidade de incomodar a defesa brasileira pelo alto e entre os zagueiros.
E aí apareceu aquilo que os grandes times têm de melhor: a capacidade de reconhecer o momento.
Aos 15 minutos, Jorginho encontrou Samuel Lino.
O atacante recebeu pela esquerda e cruzou rasteiro.
Bruno Henrique apareceu.
Não foi um gol de força.... foi um gol de leitura.
O Flamengo esperou o momento certo e, quando ele apareceu, atacou.
É diferente.
Muito diferente.
Bruno Henrique continua sabendo onde a Libertadores mora
Bruno Henrique tem uma relação curiosa com a Libertadores.
Existem jogadores que precisam que o jogo aconteça para aparecer.
Bruno parece aparecer justamente quando o jogo fica maior.
Capitão, referência ofensiva e artilheiro rubro-negro na competição, ele foi novamente decisivo.
E talvez seja justamente por isso que Leonardo Jardim tenha escolhido sua presença desde o início.
Pedro ficou no banco.
Não porque tenha deixado de ser importante.
Mas porque o futebol também é feito de circunstâncias.
Na altitude, naquela noite, Bruno Henrique oferecia algo diferente: profundidade, experiência e a capacidade de transformar uma bola em perigo.
Transformou.
A bola entrou.
E Quito começou a ficar silenciosa.
Léo Pereira e a arte de aparecer quando ninguém espera
O segundo gol teve outra característica.
Foi quase uma declaração de autoridade.
Emerson Royal cruzou com precisão.
Léo Pereira apareceu na segunda trave.
2 a 0.
O zagueiro que tantas vezes aparece para apagar incêndios resolveu aparecer também para acender a festa rubro-negra.
E há algo simbólico nesse gol.
Porque o Flamengo não precisou de uma noite espetacular de Arrascaeta.
Não precisou de uma avalanche ofensiva.
Não precisou de vinte finalizações.
Precisou de três chutes e fez dois gols.
O Del Valle finalizou muito mais.
Mas Libertadores não é concurso de estatística.
É concurso de sobrevivência... e de eficiência.
O jogo que os números não explicam
Olho para os números e vejo uma história curiosa.
O Independiente del Valle finalizou 18 vezes.
O Flamengo, apenas três.
E ganhou por 2 a 0.
Para alguns, isso parecerá estranho.
Para quem entende Libertadores, não tanto.
O Flamengo aceitou não dominar a partida durante longos períodos.
Aceitou sofrer.
Aceitou jogar sem a bola.
Aceitou economizar.
Mas não aceitou perder o controle emocional.
Isso é diferente de ser dominado.
Um time pode ter menos posse e ainda assim saber exatamente o que está fazendo.
Foi o que aconteceu em Quito.
O Flamengo não fez uma partida exuberante.
Fez uma partida adulta.
E há momentos em uma Libertadores em que maturidade vale mais do que espetáculo.
Plata voltou para casa
E houve ainda uma pequena história paralela.
Gonzalo Plata entrou em campo justamente no Equador, seu país, depois de toda a novela envolvendo sua frustrada transferência para o futebol russo.
Foi uma noite simbólica para o atacante.
Não entrou para decidir.
Não precisava.
Mas voltou a estar em campo.
E, olhando para o banco do Flamengo, Leonardo Jardim tinha Pedro, Paquetá, Plata e outros jogadores capazes de mudar uma partida.
Isso também explica muita coisa.
Time campeão não é apenas aquele que tem onze bons jogadores.
É aquele que consegue olhar para o banco e não sentir medo quando o jogo começa a apertar.
O Flamengo tem esse luxo.
E Libertadores costuma cobrar caro de quem não tem.
O Maracanã agora pode esperar
Há uma diferença enorme entre ganhar fora de casa e ganhar fora de casa por 2 a 0.
O Flamengo volta para o Rio podendo perder por até um gol de diferença e ainda assim avançar diretamente para a semifinal.
Se o Del Valle vencer por dois gols, a decisão será nos pênaltis.
Ou seja: o Flamengo fez em Quito aquilo que todo visitante sonha fazer em uma eliminatória.
Saiu vivo.
E saiu com vantagem.
Agora o jogo será no Maracanã.
A montanha ficará para trás.
O ar será o nosso... a torcida será nossa.
E o Del Valle terá de fazer aquilo que o Flamengo fez em Quito: encontrar uma maneira de jogar contra um cenário desfavorável.
Boa sorte para eles, porque o azar é certo!
Depois do apito
Eu já vi o Flamengo perder na altitude.
Já vi o Flamengo entrar em campo em Quito e parecer que tinha esquecido como se joga futebol.
Já vi goleada.
Já vi sofrimento.
Já vi promessa de revanche.
Mas poucas coisas são tão interessantes quanto assistir a um time aprender com o próprio passado.
O Flamengo não venceu o Del Valle porque foi mais intenso.
Não venceu porque atacou mais.
Não venceu porque dominou.
Venceu porque soube esperar.
Porque soube sofrer.
Porque soube respirar.
E, quando a montanha permitiu, soube atacar.
Bruno Henrique abriu a porta.
Léo Pereira fechou a conta.
Leonardo Jardim comandou o relógio.
E o Flamengo saiu dos Andes com uma vantagem que vale muito mais do que dois gols.
Vale a sensação de que o time sabe, finalmente, que Libertadores não é somente sobre jogar melhor.
Às vezes é sobre entender o lugar.
Entender o adversário.
Entender o momento.
E entender que existem noites de Copa em que a bola não pede pressa.
Pede cabeça.
Naquela noite fria de Quito, o Flamengo teve cabeça.
E agora leva para o Maracanã uma vantagem que pode abrir o caminho para mais uma semifinal de Libertadores.
O Flamengo não ganhou a montanha.
Isso seria exagero.
Mas aprendeu a respeitá-la… e, principalmente, aprendeu a respirar nela.
E, para quem quer chegar ao topo da América, talvez seja exatamente isso que importa.
Sobre Miguel Sampaio
Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.
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