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29 de outubro, 202620:00
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Opinião

O Flamengo voltou à liderança, mas ainda precisa encontrar a sua paz com a torcida

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Por Miguel Sampaio

27 de outubro de 2026

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O Maracanã tem uma maneira muito particular de envelhecer um homem. Aos 20 anos, a gente sai de uma vitória como a de domingo querendo contar cada lance, discutir cada decisão e prolongar a noite até onde a voz permitir. Aos 60, depois de mais de três décadas acompanhando o Flamengo, a gente aprende a esperar um pouco antes de comemorar. Não por falta de paixão. É que certas alegrias vêm acompanhadas de uma pergunta incômoda, e o coração, esse velho conhecido das arquibancadas, já não aceita qualquer resposta.

O Flamengo venceu o Atlético-MG por 3 a 2, retomou a liderança do Brasileirão e fez o que precisava fazer. Aos olhos da tabela, serviço cumprido. Aos olhos de quem passou a noite diante da televisão ou nas arquibancadas, foi outro departamento. O placar ofereceu três pontos; o jogo cobrou alguns anos de vida. E ainda houve quem dissesse que futebol é apenas entretenimento.

No Rio, sabemos que não é bem assim. Futebol é assunto de almoço de família, motivo para amizade antiga sobreviver a uma discussão e, em certos domingos, a razão pela qual um sujeito chega em casa abraçando todo mundo ou resolve conversar com ninguém. O Flamengo, então, tem o talento particular de transformar uma partida de campeonato numa assembleia geral dos sentimentos. Nesta segunda, a pauta foi extensa.

A semana já vinha atravessada. A eliminação na Libertadores deixou aquele gosto que não sai com água, café ou discurso de recuperação. O torcedor queria uma resposta, mas não necessariamente uma explicação. Explicações, aliás, o futebol oferece aos montes depois que tudo dá errado. O que falta, às vezes, é uma demonstração convincente de que alguém compreendeu o tamanho do estrago.

Contra o Atlético, o Flamengo mostrou que ainda tem força para reagir. Também mostrou que a tranquilidade continua sendo um artigo raro na Gávea. Abriu-se uma vantagem, veio o empate, voltou a ansiedade e, quando a noite parecia caminhar para mais uma conversa amarga, apareceu o pênalti nos acréscimos. Carrascal bateu, a bola entrou e o Maracanã pôde, enfim, soltar o ar que vinha segurando.

Há uma beleza particular nos gols tardios. Eles chegam quando a esperança já está se preparando para ir embora, devolvem a voz a quem começava a resmungar e fazem desconhecidos se abraçarem como velhos compadres. Durante alguns segundos, ninguém quer saber de sistema tático, planejamento ou entrevista coletiva. Existe apenas a bola na rede e aquela certeza infantil, maravilhosa e passageira de que tudo terminou bem.

Passageira, sim. Porque o torcedor do Flamengo mal termina de festejar e já começa a lembrar do que aconteceu antes do gol. É uma espécie de memória seletiva ao contrário: em vez de esquecer o sofrimento diante da alegria, a gente guarda os dois, lado a lado, como fotografias da mesma noite. O gol de Carrascal não apagou o susto. Apenas impediu que ele fosse a última lembrança.

Eu me lembro de um Maracanã de outras épocas, de tardes em que o rádio carregava a tensão para dentro de casa e o comentário do vizinho chegava antes mesmo da notícia ser confirmada. Mudaram os estádios, as transmissões, os uniformes e até a maneira de discutir futebol. Hoje, o sujeito pode rever o lance em cinco ângulos antes de chegar ao portão. Mas a velha pergunta permanece: por que o Flamengo consegue fazer o caminho mais comprido justamente quando parece ter encontrado a saída?

Não se trata de exigir que todo jogo seja uma exibição impecável. Quem acompanha futebol há tempo suficiente sabe que o campeonato não se ganha com tardes perfeitas, mas com pontos arrancados quando a partida não obedece ao roteiro. O problema começa quando o sofrimento deixa de ser acidente e passa a fazer parte do programa. Uma vitória apertada pode revelar fibra. Uma sucessão de noites em que o time perde o controle também pode revelar algo que precisa ser corrigido.


Leonardo Jardim conhece o peso do cargo que ocupa. No Flamengo, o treinador não administra apenas um elenco talentoso; administra expectativas que atravessam gerações. Isso não significa que deva satisfazer cada impaciência da arquibancada, nem que esteja condenado por uma eliminação. Significa apenas que resultado e convicção precisam caminhar juntos. Depois de Estudiantes, o torcedor queria enxergar uma resposta em campo. Encontrou a vitória, o que já é importante. A serenidade, porém, continua em fase de negociação.

E o campeonato não espera ninguém terminar de organizar os sentimentos. O Palmeiras segue logo atrás, a tabela encurta e cada rodada transforma um detalhe em assunto de primeira página. Na quinta-feira, o adversário será o Vasco. Como se a semana rubro-negra precisasse de mais uma contribuição para a pressão arterial, teremos um clássico pela frente. O calendário brasileiro tem dessas delicadezas: mal deixa o sujeito recuperar a voz e já lhe entrega outro motivo para perdê-la.

Ainda assim, há uma notícia que merece ser recebida sem ressalvas artificiais: o Flamengo venceu. Não foi pouco. Em temporadas longas, títulos também passam por noites em que o futebol não encanta, a equipe precisa insistir e o resultado só aparece quando a paciência parece esgotada. Seria injusto desprezar os três pontos porque eles vieram acompanhados de sofrimento. Seria igualmente ingênuo imaginar que os três pontos resolveram todas as dúvidas.

Talvez seja esse o destino de quem escolhe o Flamengo: aprender a celebrar sem perder a capacidade de enxergar, e cobrar sem deixar que a cobrança roube toda a alegria. Não é uma tarefa simples. A camisa pesa, a história cobra e a torcida, quando ama, raramente sabe fazê-lo em volume baixo. Mas o clube precisa oferecer algo além de sustos e finais dramáticos. Precisa dar ao torcedor motivos para confiar antes que o relógio entre nos acréscimos.

Hoje, o apito final devolveu a liderança ao Flamengo. Por alguns minutos, o Maracanã voltou a ser aquele lugar em que o mundo cabe dentro de um abraço. Depois, cada um levou para casa sua versão da partida: um gol tomado precocemente, a pintura com que Plata igualou a partida, o gol da virada de Arrascaeta, a tensão do empate, a discussão sobre o pênalti, a explosão com Carrascal. E, no meio dessas lembranças, ficou uma esperança que não é nova, mas continua teimosa.

Depois de todos estes anos, aprendi que o coração rubro-negro não precisa de um futebol sem sofrimento. Se precisasse, teria escolhido uma vida mais tranquila. Precisa, isso sim, reconhecer quando o sofrimento faz parte do jogo e quando começa a cobrar a conta de escolhas que poderiam ter sido melhores.

O Flamengo ganhou no último suspiro. A liderança voltou para a Gávea. E eu suspeito que, nesta terça-feira, muita gente vá acordar aliviada, mas ainda com a mão no peito, conferindo se o coração continua no lugar.

Com o Flamengo, meu caro, até o dia seguinte aos jogos precisa de acréscimos.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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