Carlinhos “Violino”, o maestro que encantou em campo e venceu no banco
De meia de toque refinado a treinador multicampeão, Luís Carlos Nunes da Silva construiu uma das trajetórias mais singulares da história do Flamengo
Imagem: AcervoHá jogadores que ficam na memória por um gol. Outros, por uma temporada. Alguns atravessam gerações porque sua maneira de jogar passa a fazer parte da identidade de um clube.
Carlinhos foi desses últimos.
Luís Carlos Nunes da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 19 de novembro de 1937 e construiu praticamente toda a sua trajetória profissional dentro do Flamengo. Vestiu o Manto entre 1958 e 1969, disputou mais de 500 partidas e tornou-se um dos grandes nomes do meio-campo rubro-negro em uma época em que o futebol ainda preservava uma relação quase artesanal com a bola.
Foi naquele futebol de passes curtos, domínio refinado e inteligência para ocupar espaços que surgiu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: Violino.
A comparação não era casual. Carlinhos jogava como quem executava uma melodia. Seu toque de bola, sua elegância e sua precisão fizeram dele um jogador diferente, reconhecido mesmo em um período em que o Flamengo ainda buscava reencontrar a grandeza que alcançaria definitivamente na década seguinte.
Mas a história de Carlinhos no Flamengo não terminaria quando ele deixou os gramados.
Na verdade, aquela seria apenas a primeira parte de uma história que atravessaria mais de quatro décadas.
O menino que recebeu as chuteiras de Biguá
Antes de ser Violino, Carlinhos foi um garoto da Gávea.
Um dos episódios que melhor simbolizam sua trajetória aconteceu ainda no início da década de 1950. Em 20 de janeiro de 1954, o lateral-direito Biguá, ídolo rubro-negro, entregou suas chuteiras ao jovem Carlinhos durante sua despedida. O gesto tinha um significado quase ritualístico: o velho jogador passava ao garoto o instrumento de trabalho.
Anos depois, a história se repetiria.
Quando Carlinhos encerrou sua carreira como jogador, em 1969, também entregou suas chuteiras a um garoto promissor das categorias de base do Flamengo. O nome daquele menino era Arthur Antunes Coimbra.
Zico.
O simbolismo daquela passagem só seria compreendido completamente anos mais tarde. Carlinhos não estava apenas encerrando sua trajetória como jogador. Sem saber, estava entregando parte de seu legado à geração que transformaria o Flamengo em potência mundial.
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O Violino dos anos 1960
Carlinhos chegou ao time profissional em 1958 e permaneceu no Flamengo durante 11 temporadas.
Não era o jogador de força bruta. Tampouco precisava ser.
Seu futebol era baseado na técnica, no entendimento do jogo e na precisão dos movimentos. Atuando no meio-campo, tornou-se referência de um estilo clássico que valorizava o passe e a inteligência antes da velocidade.
Em uma época na qual os números estatísticos ainda não definiam a importância de um jogador, Carlinhos era daqueles que precisavam ser observados para serem compreendidos.
Seu trabalho estava muitas vezes no passe anterior ao passe decisivo. Na cobertura que evitava um ataque. Na escolha de não acelerar quando todos esperavam que acelerasse.
Era um jogador de ritmo.
E talvez por isso o apelido tenha sobrevivido ao tempo.
1961: o primeiro grande título
A primeira grande conquista de Carlinhos pelo Flamengo veio em 1961, no Torneio Rio-São Paulo.
O campeonato reunia algumas das principais forças do futebol brasileiro e tinha enorme peso naquele período. Carlinhos participou dos 12 jogos da campanha rubro-negra e marcou um gol. Na rodada decisiva, o Flamengo venceu o Corinthians por 2 a 0 e confirmou a conquista.
Aquele título ajudou a consolidar o nome do meio-campista entre os principais jogadores do Flamengo.
Mas ainda faltava uma conquista que entraria definitivamente para a memória do clube.
O Fla-Flu de 1963
15 de dezembro de 1963.
Maracanã.
Flamengo e Fluminense entraram em campo para decidir o Campeonato Carioca.
O cenário já seria suficiente para transformar aquela partida em um capítulo especial da história do futebol brasileiro. O que aconteceu nas arquibancadas tornou o jogo ainda maior.
O estádio recebeu 177.020 torcedores, em um dos maiores públicos já registrados na história do futebol mundial entre clubes.
Dentro de campo, o Flamengo precisava do empate.
E conseguiu.
O 0 a 0 garantiu o título carioca ao Rubro-Negro, e Carlinhos foi apontado como um dos grandes protagonistas daquela partida. Sua atuação ajudou a sustentar o equilíbrio do time diante de um dos maiores desafios possíveis para um jogador de sua época.
Era o tipo de jogo que definia reputações.
E o Violino saiu dele ainda maior.
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O jogador que nunca foi expulso
Existe ainda uma distinção curiosa na carreira de Carlinhos.
O meio-campista recebeu o Prêmio Belfort Duarte, tradicional reconhecimento concedido a jogadores que se destacavam pela disciplina e por longos períodos sem expulsões.
A informação combina com a imagem que ficou dele.
Carlinhos era elegante até na maneira de competir.
Não significa que fosse um jogador sem personalidade ou intensidade. Significa que sua maneira de disputar partidas estava muito mais ligada à leitura da jogada do que ao confronto físico.
Ele defendia com inteligência.
E, principalmente, jogava antes que o adversário pudesse chegar.
1965: mais um Carioca e o fim de uma era
Dois anos depois do título de 1963, Carlinhos voltou a conquistar o Campeonato Carioca, em 1965.
Foi o segundo estadual de sua carreira e uma das últimas grandes conquistas de sua trajetória dentro das quatro linhas.
Em 1969, depois de 11 temporadas no profissional do Flamengo, o Violino pendurou as chuteiras.
Foram centenas de partidas, títulos e uma reputação que já ultrapassava as fronteiras da Gávea.
Mas havia uma segunda carreira esperando por ele.
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Do campo para o banco
Carlinhos nunca se afastou verdadeiramente do Flamengo.
A Gávea era, como ele próprio costumava dizer, sua “segunda casa”. Mesmo depois da aposentadoria, permaneceu ligado ao clube e trabalhou em diferentes funções até receber a oportunidade de comandar a equipe profissional.
A estreia aconteceu em 1983.
Paulo César Carpegiani deixou o comando, e Carlinhos assumiu interinamente. Naquele ano, o Flamengo conquistaria o Campeonato Brasileiro sob o comando de Carlos Alberto Torres, mas Carlinhos já começava a construir uma nova identidade dentro do clube.
Inicialmente visto muitas vezes como solução emergencial, o antigo meia logo demonstraria que havia aprendido a comandar equipes com a mesma serenidade com que havia conduzido o meio-campo.
O Violino agora regia do banco.
O “bombeiro” que virou campeão brasileiro
Carlinhos passou por outros clubes, mas sua história no Flamengo seria incomparavelmente maior.
Ao todo, teve sete passagens como treinador do Rubro-Negro. A capacidade de assumir equipes em momentos delicados fez com que recebesse internamente o apelido de “bombeiro”.
O problema é que aquela definição logo ficou pequena.
Carlinhos não era apenas o homem chamado para apagar incêndios.
Ele também sabia construir times campeões.
1987: o tetracampeonato brasileiro
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O grande salto veio em 1987.
À frente de um Flamengo talentoso e marcado pela personalidade de jogadores como Zico, Carlinhos conquistou o Campeonato Brasileiro — título que o clube considera oficialmente como o tetracampeonato nacional.
A conquista carregava um significado especial para o treinador.
Décadas antes, Carlinhos havia entregue suas chuteiras a Zico.
Agora, estava comandando aquele mesmo garoto que se transformara em um dos maiores jogadores da história do Flamengo.
Era como se duas gerações da Gávea finalmente se encontrassem.
O antigo Violino dos anos 1960 comandava, do banco, a geração de ouro que havia começado a mudar a história do clube.
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1992: o Flamengo que voltou a surpreender
Cinco anos depois, Carlinhos escreveria outro capítulo fundamental.
Em 1991, voltou a assumir o Flamengo. No ano seguinte, comandou a equipe que conquistaria o Campeonato Brasileiro de 1992, superando o Botafogo na decisão.
A conquista tinha uma característica diferente.
Não era o Flamengo de 1987.
Era outro time, outra geração, outro contexto.
E Carlinhos mostrou novamente uma de suas maiores virtudes como treinador: a capacidade de construir equilíbrio em torno das características de cada elenco.
O título de 1992 consolidou sua posição entre os grandes treinadores da história rubro-negra.
O maestro ainda tinha mais música para tocar
Quando muitos já poderiam considerar encerrada uma trajetória tão longa, Carlinhos ainda voltaria ao banco do Flamengo.
Vieram os títulos cariocas de 1999 e 2000 e a Copa Mercosul de 1999. Sua última passagem pelo clube aconteceu em 2000.
Ao todo, considerando suas duas funções, Carlinhos acumulou uma marca impressionante: 880 partidas profissionais pelo Flamengo, sendo 517 como jogador e 313 como treinador, segundo registros divulgados pelo próprio clube.
Poucos personagens conseguiram ocupar tanto espaço na história rubro-negra.
Carlinhos conseguiu.
Um legado dividido em duas carreiras
É comum que Carlinhos seja lembrado principalmente pelos títulos como treinador.
E é compreensível.
Os Brasileiros de 1987 e 1992 e a Copa Mercosul de 1999 garantiram seu nome entre os grandes técnicos da história do Flamengo.
Mas existe uma injustiça histórica nessa lembrança quando ela apaga o jogador.
Antes de comandar Zico, Bebeto, Júnior e tantos outros craques, Carlinhos foi ele próprio um dos grandes jogadores do Flamengo.
Seu futebol era de outra época. Não havia vídeos abundantes, redes sociais ou bancos de dados capazes de registrar cada passe e cada movimento.
Restaram os relatos, as fotografias, os jornais e, principalmente, a memória daqueles que o viram jogar.
Um livro publicado em 2017, “Carlinhos Violino: um maestro no meio-campo rubro-negro”, buscou justamente recuperar essa parte menos conhecida de sua história. A obra destacou o jogador que muitas vezes ficou escondido atrás do treinador famoso.
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O homem que atravessou gerações
Talvez a maior dimensão da trajetória de Carlinhos esteja justamente na quantidade de gerações que ele atravessou.
Ele começou recebendo as chuteiras de Biguá.
Depois, tornou-se o Violino do meio-campo rubro-negro.
Mais tarde, entregou suas próprias chuteiras a Zico.
Anos depois, comandou Zico como treinador.
E, já no fim do século, ainda estava no banco conquistando títulos.
É uma linha do tempo que parece escrita para um documentário.
O garoto da Gávea tornou-se jogador. O jogador virou treinador. O treinador virou campeão. E o campeão transformou-se em memória permanente do clube.
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A última nota
Carlinhos morreu em 22 de junho de 2015, aos 77 anos. A notícia encerrou uma vida que havia sido praticamente inseparável da história do Flamengo.
Anos antes, o clube já havia transformado sua memória em patrimônio físico. Em 2011, a Gávea inaugurou a Praça Carlinhos, homenagem a um homem que havia passado boa parte da vida dentro daquela casa.
O nome permanece.
O busto permanece.
Os títulos permanecem.
Mas talvez a melhor maneira de compreender Carlinhos seja voltar ao apelido.
Violino.
Porque ele nunca foi apenas o jogador que tocava a bola com elegância.
Foi o maestro que aprendeu a reger equipes.
Primeiro com os pés.
Depois com as mãos.
E, finalmente, com a memória.
No Flamengo, poucas carreiras conseguiram atravessar tantas épocas sem perder a identidade. Carlinhos foi uma delas.
O Violino não parou de tocar quando pendurou as chuteiras. Apenas mudou o instrumento.
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