O Tri da Copa do Brasil: A conquista que iniciou a revolução Rubro-Negra.
O título de 2013 nasceu em meio à crise, sobreviveu a noites dramáticas e terminou com o Flamengo levantando a taça de forma apoteótica diante de quase 70 mil torcedores no novo Maracanã
Imagem: AcervoHá títulos que entram para a história pelos grandes times que os conquistaram. Outros ficam marcados justamente porque ninguém esperava que aquele grupo chegasse tão longe.
A Copa do Brasil de 2013 pertence à segunda categoria.
O Flamengo daquele ano não era apontado como favorito. O elenco havia passado por mudanças, a temporada começou cercada de desconfiança e o ambiente chegou ao limite em setembro, quando Mano Menezes deixou o comando da equipe após uma sequência de resultados ruins.
Poucos meses depois, aquele mesmo Flamengo estava no Maracanã, diante de quase 70 mil torcedores, levantando a terceira Copa do Brasil de sua história.
No caminho, surgiram personagens que se transformariam em símbolos daquela campanha.
Hernane, o Brocador.
Elias, um jogador de raça e refino.
E uma torcida que transformou o Maracanã em um dos grandes protagonistas da conquista.
Foi uma campanha de 14 partidas, com 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. O Flamengo marcou presença em momentos decisivos e terminou a competição como campeão e com Hernane na artilharia, com oito gols.
UM FLAMENGO QUE COMEÇOU A COPA SEM SABER QUE ESTAVA CONSTRUINDO UMA HISTÓRIA
A trajetória começou contra o Remo.
No primeiro confronto, em Belém, Rafinha marcou o gol da vitória por 1 a 0. Na partida de volta, Hernane assumiu o protagonismo e marcou os três gols da vitória por 3 a 0.
Era o primeiro aviso de que aquele centroavante poderia ter uma participação especial na competição.
Na fase seguinte, o adversário foi o Campinense.
O Flamengo venceu os dois jogos, por 2 a 1, e avançou.
Depois veio o ASA.
Novamente, duas vitórias: 2 a 0 fora de casa e 2 a 1 no Rio.
O Flamengo chegou às oitavas de final invicto e passou a enfrentar adversários cada vez mais difíceis.
E foi justamente nesse momento que a história começou a ganhar outra dimensão.
O CRUZEIRO ERA O FAVORITO. MAS, O FLAMENGO TINHA O MARACANÃ
Nas oitavas de final, o adversário era o Cruzeiro.
A equipe mineira vivia uma temporada excepcional e posteriormente conquistaria o Campeonato Brasileiro. No primeiro confronto, em Belo Horizonte, venceu o Flamengo por 2 a 1.
A situação rubro-negra ficou complicada.
Para avançar, seria necessário vencer no Rio.
E o Flamengo tinha uma arma que começava a aparecer com cada vez mais força: o Maracanã.
Na noite de 28 de agosto, quase 50 mil torcedores foram ao estádio.
Elias entrou em campo com dores musculares, mas decidiu jogar.
A torcida comemorou sua escalação quase como se fosse um gol.
A partida caminhava para o fim e o placar permanecia zerado.
Até que, aos 43 minutos do segundo tempo, aconteceu.
Paulinho avançou pela direita e cruzou.
Elias apareceu na área.
Finalizou.
Gol do Flamengo.
O Maracanã explodiu.
O 1 a 0 era suficiente para eliminar o Cruzeiro e colocar o Flamengo nas quartas de final, tendo em vista que o regulamento da competição na época usava como critério de desempate os gols marcados fora de casa.
Naquele momento, o Flamengo começou a entender que aquela Copa do Brasil poderia ser diferente.
O BOTAFOGO E A NOITE EM QUE O BROCADOR VIROU LENDA
Nas quartas de final, o adversário era o Botafogo.
O primeiro jogo terminou empatado em 1 a 1.
Tudo seria decidido no segundo confronto.
E foi justamente aí que Hernane escreveu uma das páginas mais marcantes de sua passagem pelo Flamengo.
No Maracanã, o atacante fez três gols.
Três.
O Flamengo venceu por 4 a 0 e avançou para a semifinal.
O quarto gol foi marcado por Léo Moura, de pênalti, em uma noite que também ficou marcada pelo aniversário do lateral-direito.
Mas o grande personagem foi Hernane.
O centroavante já não era apenas o atacante que fazia gols.
Era o Brocador.
O apelido havia ganhado força entre os torcedores e se transformava em uma espécie de identidade.
Hernane fazia gols de todas as maneiras.
De cabeça.
Com o pé esquerdo.
Com o pé direito.
Dentro da área.
No rebote.
E, principalmente, nos momentos em que o Flamengo precisava.
A SEMIFINAL CONTRA O GOIÁS E A FORÇA DA CAMISA
O Goiás apareceu no caminho das semifinais.
Mais uma vez, o Flamengo precisou mostrar capacidade para jogar sob pressão.
Na primeira partida, venceu por 2 a 1 em Goiânia.
No Maracanã, confirmou a classificação com outra vitória por 2 a 1.
O Flamengo estava na final.
O adversário seria o Atlético-PR.
E havia uma coincidência que tornava aquela decisão ainda mais simbólica.
Poucos meses antes, o Flamengo havia sido derrotado pelo próprio Atlético-PR no Maracanã.
Aquela partida, disputada em setembro, fazia parte de um momento de crise que culminaria na saída de Mano Menezes.
Agora, os dois times voltariam a se encontrar no mesmo estádio.
Só que em circunstâncias completamente diferentes.
O PRIMEIRO JOGO DA FINAL: UM EMPATE QUE DEIXOU TUDO ABERTO
Em Curitiba, Flamengo e Atlético-PR fizeram uma partida equilibrada.
O placar terminou em 1 a 1.
Amaral marcou para o Flamengo.
O resultado deixou a decisão completamente aberta.
O Flamengo poderia ser campeão com uma vitória no Maracanã.
Também poderia levantar a taça com um empate sem gols.
Mas havia uma certeza.
A decisão seria diante da Nação.
E o Maracanã estava preparado para uma noite histórica.
27 DE NOVEMBRO DE 2013: O MARACANÃ VOLTA A SER CAMPEÃO
A final de 2013 teve um significado que ultrapassava a própria Copa do Brasil.
O Maracanã havia passado por uma longa reforma para a Copa do Mundo de 2014.
O Flamengo seria o primeiro campeão de uma decisão de clubes na nova era do estádio.
Quase 70 mil torcedores estiveram presentes naquela noite.
Foram 57.991 pagantes e 68.857 presentes, em uma das maiores festas da história recente do estádio.
Antes da partida, um mosaico tomou as arquibancadas.
"Conte comigo, Mengão."
Era mais do que uma frase.
Era a síntese de uma relação construída durante uma temporada inteira.
O Flamengo havia sido criticado.
Havia enfrentado momentos de crise.
Havia perdido partidas importantes.
Mas a torcida permanecera ao lado da equipe.
E naquela noite a arquibancada queria participar da história.
O JOGO DO TÍTULO
O primeiro tempo terminou sem gols.
Mas o Flamengo era superior.
A equipe controlava as ações e pressionava o Atlético-PR.
Hernane se movimentava constantemente, saindo da área para abrir espaços e aproximar os companheiros.
Luiz Antonio também aparecia como uma das principais armas ofensivas.
O Atlético-PR precisava marcar.
O Flamengo precisava evitar qualquer erro que pudesse colocar o título em risco.
O relógio avançava.
A ansiedade aumentava.
E a torcida começava a sentir que aquela seria uma daquelas noites em que o sofrimento faria parte da conquista.
ATÉ QUE ELIAS APARECEU
Aos 42 minutos do segundo tempo, a história finalmente mudou.
Paulinho fez uma grande jogada.
Avançou pela esquerda, passou pelo marcador e encontrou Elias em condição para finalizar.
O volante apareceu livre.
Chutou.
Gol.
Flamengo 1 a 0.
O Maracanã explodiu.
Elias correu em direção à torcida.
Seus companheiros foram atrás.
A arquibancada virou uma massa vermelha e preta.
O gol colocava o Flamengo em vantagem e deixava o título praticamente encaminhado.
Mas ainda faltava a assinatura do Brocador.
HERNANE, O GOL QUE FECHOU A HISTÓRIA
O Atlético-PR precisava atacar.
O Flamengo encontrou espaços.
E Luiz Antonio colocou Hernane em condição de finalizar.
O Brocador recebeu e marcou.
2 a 0.
Aquele era o oitavo gol de Hernane na Copa do Brasil.
Era também o gol que selava o título.
O atacante terminou a competição como artilheiro e fechou 2013 com impressionantes 34 gols.
Na comemoração, Hernane correu para a torcida.
O homem que havia chegado ao clube sem o status de grande estrela terminava aquela noite como um dos grandes personagens da temporada.
O BROCADOR E A TEMPORADA QUE MUDOU SUA HISTÓRIA
Hernane não foi apenas o artilheiro da Copa do Brasil.
Ele foi um dos símbolos daquele Flamengo.
Terminou o ano como artilheiro do time no Campeonato Brasileiro, com 14 gols, e como goleador da temporada, com 34. Na Copa do Brasil, foram oito gols.
Mais importante do que os números, porém, foi a maneira como ele se conectou com a torcida.
O apelido Brocador nasceu como uma brincadeira e terminou como uma identidade.
Na final, o próprio telão do Maracanã apresentou o nome que a arquibancada havia adotado.
Era a confirmação de que Hernane havia conquistado um lugar especial naquela geração.
ELIAS, O OUTRO HERÓI
Se Hernane foi o rosto goleador da campanha, Elias foi seu símbolo de raça.
O volante participou de momentos decisivos e marcou gols fundamentais.
Contra o Cruzeiro, foi dele o gol que classificou o Flamengo.
Na final, novamente apareceu.
Foi dele o primeiro gol da vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-PR.
Elias também representava uma característica daquele time: jogadores dispostos a competir até o limite.
Não era um Flamengo de estrelas internacionais.
Era um Flamengo construído em torno de organização, entrega, espírito coletivo e jogadores que entenderam o tamanho da oportunidade.
JAYME DE ALMEIDA E A VIRADA QUE NINGUÉM ESPERAVA
Outro personagem fundamental foi Jayme de Almeida.
O técnico assumiu interinamente após a saída de Mano Menezes e conseguiu transformar o ambiente do elenco.
A mudança não aconteceu apenas no quadro tático.
A equipe recuperou confiança.
Os jogadores passaram a demonstrar maior comprometimento.
E o Flamengo encontrou uma identidade competitiva justamente quando a temporada parecia caminhar para o fracasso.
A campanha da Copa do Brasil acabou se tornando a maior conquista da gestão Eduardo Bandeira de Mello até aquele momento.
A ARQUIBANCADA COMO PARTE DO TIME
Talvez nenhum elemento explique melhor aquela conquista do que a relação entre o time e a torcida.
A partir das oitavas de final, o Maracanã passou a ser uma espécie de extensão do campo.
Contra o Cruzeiro, a torcida empurrou o Flamengo até o gol de Elias.
Contra o Botafogo, participou da goleada.
Contra o Goiás, sustentou a equipe.
E, na final, transformou o estádio em uma festa antes mesmo do apito inicial.
A própria CBF destaca que o Flamengo disputou quatro partidas no Maracanã naquela campanha, com média superior a 50 mil torcedores.
Não era apenas uma questão de público.
Era pressão.
Era atmosfera.
Era confiança.
Os adversários precisavam jogar contra 11 jogadores dentro do campo e uma arquibancada que não parava.
UM TÍTULO QUE COMEÇOU NA CRISE E TERMINOU NA GLÓRIA
O mais curioso sobre a Copa do Brasil de 2013 é que ela poderia ter sido completamente diferente.
O Flamengo começou a temporada cercado de dúvidas.
Perdeu jogadores importantes.
Mudou de treinador.
Passou por momentos de instabilidade.
Chegou a conviver com a possibilidade de uma temporada frustrante.
Mas encontrou, no meio da crise, os personagens de que precisava.
Hernane virou Brocador.
Elias virou herói.
Jayme virou o comandante da reação.
E o Maracanã voltou a ser o palco de uma grande conquista rubro-negra.
O TRI FOI MAIS DO QUE UMA TAÇA
A vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-PR colocou o terceiro troféu da Copa do Brasil na galeria do Flamengo, depois das conquistas de 1990 e 2006.
Mas aquele título representou algo maior.
Foi a vitória de um grupo que não tinha o favoritismo.
Foi a consagração de jogadores que chegaram ao fim da temporada transformados em protagonistas.
Foi a primeira grande conquista do Flamengo no novo Maracanã.
E foi uma demonstração daquilo que tantas vezes aparece na história do clube: quando o time consegue transformar a energia da arquibancada em confiança dentro de campo, o Flamengo se torna muito difícil de ser derrotado.
Em 2013, essa conexão foi levada ao limite.
O Flamengo não tinha apenas um time.
Tinha o Brocador.
Tinha Elias.
Tinha Jayme.
E tinha uma Nação inteira empurrando.
Foi assim que um Flamengo desacreditado entrou para a história como tricampeão da Copa do Brasil.
O TÍTULO QUE AJUDOU A MUDAR O FLAMENGO FORA DE CAMPO
A Copa do Brasil de 2013 também precisa ser analisada sob uma perspectiva que vai além das quatro linhas. A conquista aconteceu justamente no início de um período de profunda transformação administrativa no Flamengo e ajudou a criar um ambiente de confiança em torno do projeto que começava a ser implantado no clube.
Quando a nova gestão assumiu o Flamengo, no fim de 2012, encontrou uma instituição com graves problemas financeiros, elevado endividamento e dificuldades para equilibrar as contas. A prioridade passou a ser reorganizar as finanças, melhorar a governança e criar condições para que o clube pudesse voltar a investir no futebol de maneira sustentável.
O título de 2013 não resolveu os problemas financeiros do Flamengo, mas teve um valor simbólico e esportivo enorme. Foi a primeira grande conquista nacional da nova administração e mostrou que a reconstrução institucional poderia caminhar lado a lado com resultados dentro de campo.
A taça também ajudou a fortalecer a relação entre clube, torcida e patrocinadores. Um Flamengo novamente competitivo e capaz de conquistar títulos recuperava capacidade de gerar receitas, atrair parceiros e ampliar seu potencial comercial.
Esse processo seria ainda mais importante nos anos seguintes. A administração de Eduardo Bandeira de Mello passou a defender uma mudança de cultura dentro do clube: controlar despesas, renegociar dívidas, aumentar receitas recorrentes e reduzir a dependência de soluções emergenciais para manter o futebol funcionando.
A conquista da Copa do Brasil, portanto, não deve ser vista como a causa isolada da transformação financeira do Flamengo. Ela foi, sobretudo, um dos primeiros grandes símbolos de que o clube começava a sair de um período de instabilidade e a construir as bases para um novo ciclo.
O contraste com o Flamengo que viria depois é impressionante. Poucos anos mais tarde, o clube estaria disputando e conquistando títulos nacionais e internacionais com investimentos muito maiores, estrutura profissionalizada e receitas em patamares completamente diferentes.
Mas essa história não começou em 2019.
Ela começou antes, quando o Flamengo ainda precisava reconstruir sua própria casa.
E o título de 2013 ocupou um lugar especial nesse processo porque mostrou à torcida que a reconstrução não significava abrir mão da ambição esportiva.
O Flamengo poderia organizar suas contas, recuperar sua credibilidade e, ao mesmo tempo, voltar a levantar troféus.
A Copa do Brasil de 2013 foi o primeiro grande sinal de que essas duas coisas poderiam caminhar juntas.
O clube ainda estava longe de se tornar a potência financeira que seria anos depois, mas já começava a construir o caminho que levaria até lá.
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