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Flamengo na História

Relembre os momentos que marcaram nossa trajetória.

História

O urubu: Como a Nação transformou o preconceito em um símbolo de orgulho

O que começou como uma tentativa de ofensa por parte das torcidas rivais transformou-se em um dos maiores símbolos de orgulho da Nação Rubro-Negra. Conheça a história do dia em que um urubu sobrevoou o Maracanã e mudou para sempre a identidade do Flamengo

Publicado em 06 de agosto de 2026
56 visualizações
Por Redação Fla10
O urubu: Como a Nação transformou o preconceito em um símbolo de orgulhoImagem: Guilherme e o urubu - Arquivo/Agência O GLOBO

Hoje, basta olhar para qualquer arquibancada do Maracanã para encontrar bandeiras, camisas, tatuagens e mosaicos estampando o urubu.

O animal tornou-se um dos maiores símbolos da identidade rubro-negra e é tratado pela torcida como sinônimo de raça, resistência e paixão. Mas poucos sabem que essa história começou de maneira completamente diferente.

Antes de ser um motivo de orgulho, o urubu era utilizado como forma de preconceito e provocação contra o Flamengo e sua torcida.

O preconceito por trás do apelido

Nas décadas de 1950 e 1960, o Flamengo já era o clube mais popular do Rio de Janeiro e reunia torcedores de todas as classes sociais.

A presença massiva de trabalhadores, moradores dos subúrbios e da população negra nas arquibancadas incomodava parte das torcidas rivais, que passaram a utilizar o urubu de forma pejorativa para atacar o clube.

Na época, o animal era associado a locais pobres, lixões e periferias. O apelido carregava um forte componente de preconceito racial e social, numa tentativa de diminuir justamente a diversidade que fazia do Flamengo um fenômeno popular.

Durante anos, gritos de "urubu" ecoaram nos estádios como forma de insulto à torcida rubro-negra.

O dia que mudou tudo

A transformação aconteceu em 1º de junho de 1969, em um clássico entre Flamengo e Botafogo, no Maracanã.

Naquele domingo, um grupo de torcedores rubro-negros decidiu responder às provocações de maneira inusitada.

Eles capturaram um urubu, pintaram suas patas de vermelho e preto, penduraram uma bandeira nele e levaram o animal escondido até o estádio.

Pouco antes do início da partida, o urubu foi solto no gramado do Maracanã.

O Maracanã parou

Assim que ganhou liberdade, o urubu começou a sobrevoar o estádio.

O animal circulou lentamente sobre o gramado diante de mais de 100 mil pessoas, chamando a atenção de jogadores, dirigentes, jornalistas e torcedores.

Em seguida, pousou justamente próximo ao lado da trave defendida pelo Botafogo.

As arquibancadas explodiram.

A torcida do Flamengo passou a cantar, pela primeira vez de forma espontânea e orgulhosa:

"É urubu! É urubu!"

Naquele instante, o insulto deixava de existir.

Nascia um símbolo.

Uma vitória que virou lenda

Como acontece em quase toda boa história do futebol, o roteiro ficou ainda melhor.

Naquele mesmo dia, o Flamengo venceu o Botafogo por 2 a 1, aumentando ainda mais a superstição em torno do episódio.

Para a torcida rubro-negra, não havia mais dúvidas: o urubu havia dado sorte.

A partir daquele momento, ninguém mais conseguiria utilizar o apelido como ofensa.

Da provocação ao orgulho

Imagem secundária para O urubu: Como a Nação transformou o preconceito em um símbolo de orgulhoImagem: O urubu solto no Maracanã em 1º de junho de 1969 - Arquivo/Agência O GLOBO
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O episódio ganhou enorme repercussão na imprensa esportiva da época.

Nos dias seguintes, jornais de todo o país destacavam a criatividade da torcida rubro-negra ao transformar um ataque preconceituoso em um símbolo de identidade.

A ideia rapidamente ganhou força.

Bandeiras com urubus começaram a aparecer nos estádios.

Faixas passaram a ser produzidas.

Canções surgiram nas arquibancadas.

Pouco tempo depois, o animal já fazia parte da cultura do clube.

Henfil eternizou o Urubu como símbolo da Nação

Se o voo do urubu sobre o Maracanã, em 1969, marcou o nascimento do mascote nas arquibancadas, foi o cartunista Henfil quem lhe deu personalidade e o transformou em um ícone da cultura popular brasileira.

No fim da década de 1960, Henfil criou um personagem que retratava um torcedor fanático do Flamengo, que ganhou justamente o nome de Urubu, inspirado na forma como a própria torcida havia ressignificado o apelido que antes era usado de maneira preconceituosa.

O traço irreverente de Henfil apresentava um personagem debochado, provocador, irreverente e extremamente confiante — características que rapidamente passaram a ser associadas ao espírito da torcida rubro-negra. O personagem tornou-se um enorme sucesso, aparecendo frequentemente em charges sobre os clássicos cariocas e ajudando a consolidar o urubu como a representação definitiva do Flamengo no imaginário popular.

Mais do que um desenho humorístico, o Urubu de Henfil tornou-se um símbolo de afirmação cultural. Em uma época em que o clube consolidava sua popularidade nacional, o cartunista ajudou a transformar definitivamente um antigo insulto em motivo de orgulho. Décadas depois, sua criação continua sendo lembrada como uma das mais importantes contribuições da imprensa esportiva e do humor gráfico para a identidade do Flamengo e de sua torcida.

O nascimento dos mascotes

Na década de 1970, o Flamengo passou a explorar oficialmente a imagem do urubu.

Nos anos seguintes surgiram diversas versões do mascote, até que foi criado o tradicional Urubão, personagem musculoso, de peito estufado e expressão desafiadora que se tornou conhecido em todo o Brasil.

Posteriormente vieram outras releituras, como o Uruba, o Urubinha e versões utilizadas em campanhas publicitárias e ações voltadas ao público infantil.

Muito além de um mascote

O urubu representa exatamente aquilo que o Flamengo sempre simbolizou: resistência.

Um clube que nasceu popular, enfrentou preconceitos sociais ao longo de sua história e construiu uma das maiores torcidas do planeta justamente por acolher pessoas de todas as origens.

Aquilo que tentaram transformar em vergonha acabou sendo convertido em orgulho.

Poucos mascotes do futebol possuem uma origem tão significativa.

O maior exemplo de ressignificação do esporte brasileiro

Especialistas em cultura esportiva frequentemente apontam o caso do Flamengo como um dos maiores exemplos de ressignificação de um símbolo negativo no esporte mundial.

Enquanto outros clubes adotaram mascotes por escolha institucional, o Flamengo viu sua torcida transformar uma ofensa em identidade coletiva.

Foi uma resposta espontânea, criativa e carregada de significado social.

Um símbolo eterno da Nação

Mais de cinco décadas depois daquele voo histórico sobre o Maracanã, o urubu continua presente em praticamente todas as manifestações da torcida rubro-negra. Está nas bandeiras, nos mosaicos, nos cantos das arquibancadas, nos produtos oficiais e até na forma como o Flamengo é reconhecido internacionalmente.

A história do mascote rubro-negro mostra que os maiores símbolos nem sempre nascem de campanhas de marketing ou decisões administrativas. Às vezes, eles surgem da criatividade da torcida, da união diante da adversidade e da capacidade de transformar preconceito em orgulho.

Desde aquele 1º de junho de 1969, o urubu deixou de ser apenas uma ave comum para se tornar um emblema da Nação Rubro-Negra. Mais do que um mascote, ele representa a força de um clube que aprendeu a transformar ataques em identidade e que fez da própria história uma demonstração de resistência, paixão e pertencimento.

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