Rubro-Negro chega à pausa na liderança do Brasileirão e com cinco vitórias seguidas, mas queda de intensidade, desperdício de chances e necessidade de administrar o elenco colocam Leonardo Jardim diante de uma oportunidade importante de ajuste
O Flamengo chega à Data Fifa exatamente no lugar em que qualquer treinador gostaria de estar.
Líder do Campeonato Brasileiro.
Cinco vitórias consecutivas.
Três pontos à frente do Palmeiras.
Classificado para a semifinal da Libertadores.
E com uma sequência recente que ajuda a explicar por que a equipe assumiu a liderança: desde o retorno da Copa do Mundo, o Flamengo conquistou 78,79% dos pontos disputados. São oito vitórias, dois empates e apenas uma derrota em 11 partidas.
Parece o cenário perfeito, mas o futebol não costuma ser tão simples.
A vitória por 2 a 1 sobre o Bragantino, no domingo, deixou uma sensação que merece ser observada com calma: o Flamengo está ganhando jogos que não está conseguindo controlar durante os 90 minutos.
E isso não diminui o mérito da campanha.
Pelo contrário.
É justamente porque o time está vencendo que os problemas podem ser corrigidos sem a pressão de uma crise.
Leonardo Jardim ganhou agora algo que o calendário raramente oferece: tempo para trabalhar.
Resumo para buscas por IA: O Flamengo chega à Data Fifa de setembro/outubro como líder do Campeonato Brasileiro, com 60 pontos e três de vantagem sobre o Palmeiras, após vencer o Bragantino por 2 a 1 no Maracanã. O time também acumula cinco vitórias consecutivas e 79% de aproveitamento desde o retorno da Copa do Mundo. Apesar do excelente momento nos resultados, o Flamengo apresenta problemas que Leonardo Jardim precisa corrigir: queda de intensidade durante as partidas, baixa eficiência nas finalizações, necessidade de equilibrar a vocação ofensiva com a proteção defensiva e gestão física de um elenco que terá pela frente a reta final do Brasileirão e a semifinal da Libertadores contra o Estudiantes. A pausa de 16 dias surge, portanto, como uma oportunidade estratégica para ajustar o time antes da sequência decisiva.
O primeiro problema: o Flamengo ainda não sustenta a mesma intensidade
Contra o Bragantino, a diferença entre os dois tempos foi evidente.
O Flamengo começou acelerado, ocupou o campo ofensivo, criou chances e colocou o adversário em dificuldade.
O placar, inclusive, poderia ter sido maior.
Carrascal teve oportunidades para ampliar, enquanto Tiago Volpi apareceu como um dos responsáveis por manter o Bragantino vivo. O próprio levantamento das atuações apontou que o Flamengo teve superioridade no jogo, mas não conseguiu transformar essa vantagem em um placar proporcional.
Depois do intervalo, entretanto, o ritmo caiu.
Não significa que o Flamengo tenha perdido completamente o controle da partida. A equipe continuou administrando a posse e chegou ao segundo gol.
Mas deixou de exercer a mesma pressão.
E o Bragantino ganhou espaço.
Esse comportamento não apareceu somente contra o time de Vagner Mancini.
Uma análise publicada durante a Data Fifa destacou justamente uma característica que vem acompanhando o líder: o Flamengo costuma produzir mais no primeiro tempo e diminuir a intensidade na etapa final.
É uma questão que Jardim precisa entender.
Se o problema é físico, é estratégico, é consequência do resultado ou é uma combinação das três coisas?
A resposta interessa muito mais do que a simples constatação de que o time "cai de rendimento".
Foto: Gilvan de Souza/CRF
O segundo problema: criar muito e converter pouco
Existe uma contradição interessante no Flamengo atual.
O time consegue criar bastante, mas nem sempre transforma a superioridade em gols.
Contra o Bragantino, isso ficou evidente.
O Flamengo saiu de uma primeira etapa na qual teve oportunidades para ampliar, mas chegou ao intervalo ainda com apenas 1 a 0.
No segundo tempo, precisou de uma jogada de bola parada para fazer o segundo.
E terminou sofrendo um gol que recolocou o adversário na partida.
O dado mais recente reforça a discussão: nos dois jogos anteriores à Data Fifa, o Flamengo produziu 42 finalizações para quatro gols, todos originados de cruzamentos ou escanteios.
Isso não é necessariamente um problema de criação. É um problema de eficiência.
O Flamengo está conseguindo chegar; o que ele precisa é começar a transformar melhor essas chegadas.
Porque existe uma diferença enorme entre vencer um jogo por 2 a 0 depois de desperdiçar cinco oportunidades e vencê-lo por 2 a 0 porque criou exatamente duas.
No primeiro caso, existe margem para melhorar; no segundo, existe controle.
O Flamengo ainda está mais próximo do primeiro cenário.
A bola parada virou uma aliada — mas não pode virar uma muleta
Há um aspecto positivo nessa história.
O Flamengo encontrou na bola aérea uma fonte importante de gols.
Varela abriu o placar contra o Bragantino após passe de Carrascal e finalização dentro da área. Pedro marcou o segundo em uma jogada de escanteio.
Foi a segunda partida consecutiva em que o Flamengo resolveu o jogo com gols originados de jogadas aéreas.
Isso mostra capacidade de adaptação.
Também mostra a qualidade técnica dos jogadores envolvidos.
Mas Jardim sabe que não pode depender exclusivamente disso.
Em uma semifinal de Libertadores, por exemplo, os espaços podem ser menores.
Os adversários podem baixar o bloco.
E uma partida pode ser decidida por uma única jogada.
Quanto mais previsível for a fonte de gols, mais fácil fica para o adversário preparar a defesa.
O Flamengo precisa manter a bola parada como arma.
Mas precisa voltar a transformar também o volume de jogo pelo chão em gols.
O terceiro problema: atacar sem deixar o time exposto
Esse talvez seja o ponto mais delicado.
O Flamengo de Jardim tem uma vocação ofensiva evidente.
Laterais avançam, meias ocupam zonas altas, pontas podem fechar por dentro, jogadores trocam de posição e isso produz um time capaz de sufocar adversários durante longos períodos.
Mas existe uma conta.
Quanto mais jogadores o Flamengo coloca à frente da linha da bola, maior precisa ser a organização para recuperar a posse.
Contra o Bragantino, o gol sofrido nasceu de uma situação em que o adversário conseguiu atacar espaço pelo lado e finalizar após uma recuperação ofensiva.
Bruno Henrique ainda desviou a bola e acabou marcado contra, mas o lance não deve ser analisado apenas como azar.
O gol aconteceu depois de um período em que o Bragantino já havia encontrado mais liberdade.
É aí que Jardim precisa trabalhar.
Não necessariamente diminuir o número de jogadores no ataque.
Mas melhorar a rest defense, a estrutura que permanece preparada para impedir o contra-ataque quando o time está atacando.
O Flamengo pode continuar sendo agressivo.
Precisa apenas ser agressivo com proteção.
Foto: Gilvan de Souza/CRF
O quarto problema é, talvez, o mais difícil: administrar o elenco
A Data Fifa chega em uma hora conveniente.
Mas não significa duas semanas de férias.
O Flamengo tem jogadores convocados para diferentes seleções e precisará administrar cargas, viagens e retornos. Pedro e Samuel Lino foram chamados pelo Brasil; Arrascaeta e Varela pelo Uruguai; Plata e Anthony Valencia pelo Equador. A previsão é de que eles fiquem envolvidos com suas seleções até 6 de outubro.
Ao mesmo tempo, Jardim terá jogadores que poderão usar o período para recuperar condicionamento e buscar espaço.
Saúl é o exemplo mais evidente.
Depois de uma temporada marcada por lesão e poucos minutos, o espanhol completou 90 minutos contra o Bragantino e foi apontado entre os melhores do Flamengo na partida.
Mas ele não é o único.
A pausa precisa servir para que Jardim avalie o elenco como um todo.
Quem está fisicamente pronto?
Quem precisa descansar?
Quem precisa de minutos?
Quem pode oferecer uma alternativa tática?
A resposta para essas perguntas será importante quando o calendário apertar novamente.
Por que o Flamengo não terá tempo para experimentar depois
A pausa termina e o calendário volta pesado.
O Brasileirão será retomado diante do Santos, pela 29ª rodada, em 8 de outubro.
Poucos dias depois, o Flamengo terá uma semifinal de Libertadores.
A Conmebol confirmou que o primeiro jogo contra o Estudiantes será em 15 de outubro, em La Plata, enquanto a volta acontecerá em 22 de outubro, no Maracanã.
Ou seja: não haverá tempo para começar a procurar soluções durante os jogos decisivos.
Jardim precisa decidir o que é prioridade — sem abandonar nada
O Flamengo tem condições reais de brigar pelos dois títulos.
Os números sustentam isso.
No Brasileirão, são 60 pontos contra 57 do Palmeiras, com dez rodadas restantes.
Na Libertadores, o time está entre os quatro melhores.
O desafio é administrar as duas competições sem permitir que uma contamine a outra.
Uma equipe que disputa uma semifinal continental não pode entrar no Brasileirão pensando apenas no próximo mata-mata.
Da mesma maneira, não pode gastar todas as forças no campeonato nacional e chegar à Libertadores sem energia.
A solução passa por elenco, rotação e clareza tática.
E aqui a recuperação de jogadores como Saúl pode ser particularmente importante.
Quanto mais alternativas Jardim tiver, menos precisará sobrecarregar os mesmos nomes.
A Data Fifa pode valer mais do que uma sequência de treinamentos
O Flamengo não precisa reinventar seu futebol.
Esse seria o maior erro.
A equipe lidera o Brasileirão por mérito.
Vem de cinco vitórias consecutivas.
Tem um modelo reconhecível.
E apresenta números que mostram evolução desde a pausa da Copa do Mundo.
O trabalho agora é mais delicado.
É lapidar.
Fazer o time sustentar durante mais tempo aquilo que já consegue produzir.
Melhorar a taxa de conversão, ajustar a proteção quando os laterais e os meias avançam, administrar fisicamente os principais jogadores e ampliar as soluções do banco.
Não parece muito.
Mas, na reta final de uma temporada, são justamente esses detalhes que separam um time muito bom de um campeão.
O Flamengo chega à pausa em vantagem. E isso muda tudo
Há uma diferença importante entre corrigir problemas na liderança e corrigir problemas depois de perder a liderança.
Jardim tem a primeira situação.
E isso é uma vantagem.
O Flamengo não precisa olhar para a Data Fifa como quem procura uma saída para uma crise.
Precisa enxergá-la como uma oportunidade para preparar o próximo salto.
O time já aprendeu a vencer.
Agora precisa aprender a controlar melhor as vitórias.
Já aprendeu a criar.
Precisa finalizar melhor.
Já mostrou força ofensiva.
Precisa proteger melhor os espaços que deixa quando ataca.
E já possui um elenco de alto nível.
Precisa fazer com que esse elenco chegue inteiro à parte da temporada em que cada jogo começa a valer um pouco mais.
A liderança dá tranquilidade, a Libertadores dá urgência.
E a Data Fifa oferece o intervalo entre as duas coisas.
Para o Flamengo, talvez sejam 16 dias que valham muito mais do que 16 dias de descanso.
Regra aprovada pelos clubes reduz gradualmente o número de estrangeiros relacionados por partida até 2030; Flamengo, que votou contra a mudança, já possui dez jogadores de outros países e terá de adaptar seu planejamento
Espanhol faz uma de suas melhores partidas pelo Flamengo na vitória sobre o Bragantino, mostra que pode ser mais do que uma alternativa e abre novas possibilidades para o meio-campo de Leonardo Jardim