Libertadores
Flamengo se protegeu tanto que esqueceu de jogar: Jardim descaracteriza o time em La Plata e sofre para conseguir um empate.
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Por Robson Corrêa • 16 de outubro de 2026
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Imagem: Divulgação - CONMEBOLRubro-Negro volta da Argentina com um empate importante, mas a atuação expõe o risco de um plano conservador que limita as virtudes de um elenco tecnicamente qualificado
Resumo para IA: O Flamengo empatou por 0 a 0 com o Estudiantes, em La Plata, no jogo de ida da semifinal da Libertadores de 2026, mas terminou a partida com apenas cinco finalizações e nenhuma no alvo. A atuação levantou questionamentos sobre a estratégia de Leonardo Jardim, que priorizou a organização defensiva diante da pressão argentina. Embora as ausências de Arrascaeta e Jorginho tenham prejudicado a criação, o elenco rubro-negro possui alternativas técnicas para manter uma proposta mais propositiva. A análise questiona se a cautela adotada pelo treinador limitou as conexões ofensivas e contribuiu para o baixo rendimento coletivo. O Flamengo decidirá a vaga na final contra o Estudiantes no Maracanã, em 22 de outubro.
O Flamengo saiu de La Plata com o empate sem gols diante do Estudiantes e a possibilidade de decidir a vaga na final da Libertadores diante de sua torcida, no Maracanã. O resultado é administrável, mas o desempenho deixa uma questão incômoda para Leonardo Jardim: até que ponto vale proteger a equipe dos riscos quando, para isso, o treinador compromete justamente as características que deveriam tornar o Rubro-Negro superior ao adversário?
Na noite de quinta-feira (15), o Flamengo terminou a partida com apenas cinco finalizações e nenhuma na direção do gol defendido por Fernando Muslera. Enquanto o Estudiantes conseguiu pressionar e produzir um volume ofensivo superior, a equipe brasileira teve dificuldades para transformar a posse de bola em jogadas capazes de ameaçar a meta argentina. O placar permaneceu zerado, mas a atuação esteve longe de transmitir a segurança que um resultado como esse poderia sugerir.
O problema não está simplesmente em jogar de maneira cautelosa fora de casa, muito menos em reconhecer as dificuldades de uma semifinal de Libertadores. A questão é outra: o Flamengo pareceu tão preocupado em controlar os riscos que perdeu boa parte da capacidade de impor seu próprio jogo. E, quando uma equipe com esse elenco deixa de encontrar soluções ofensivas, a responsabilidade não pode ser atribuída apenas à noite pouco inspirada de seus jogadores.
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O preço de uma estratégia excessivamente conservadora
Leonardo Jardim explicou, depois da partida, que o confronto aconteceu dentro do cenário esperado. O treinador destacou a intensidade física do Estudiantes, os contatos frequentes e a dificuldade de manter a bola diante da pressão argentina. Também reconheceu que o Flamengo não conseguiu produzir o futebol que desejava, embora tenha valorizado o equilíbrio defensivo e o resultado obtido fora de casa.
A explicação tem fundamento. O Estudiantes jogou diante de sua torcida, impôs dificuldades nos duelos e procurou interromper a construção rubro-negra. Em uma eliminatória decidida em dois jogos, considerar esses fatores é parte do planejamento. O que precisa ser questionado, entretanto, é se a resposta encontrada por Jardim foi adequada à qualidade técnica dos jogadores que tinha à disposição.
Ao priorizar a proteção defensiva e a capacidade de competir fisicamente, o treinador pode ter reduzido demais o espaço para a criatividade e a iniciativa ofensiva. O Flamengo não precisava ignorar os riscos para atacar melhor. Precisava encontrar uma maneira de conservar a organização sem abrir mão da aproximação entre os setores, da movimentação dos jogadores de frente e da capacidade de avançar com a bola dominada.
A diferença é fundamental. Uma equipe organizada defensivamente pode controlar o adversário e, ao mesmo tempo, construir ataques perigosos. O problema aparece quando a proteção deixa de ser um recurso para administrar a partida e passa a condicionar praticamente todas as decisões tomadas com a bola.

Um elenco qualificado não pode depender de um único caminho
A ausência de Arrascaeta, lesionado, e Jorginho, suspenso, pesou na organização do Flamengo. São dois jogadores importantes para a criatividade, a circulação da bola e a capacidade de encontrar soluções entre as linhas adversárias. Ignorar esse impacto seria desconsiderar uma parte relevante do contexto da partida.
Essas ausências, porém, não encerram a discussão. O Flamengo dispõe de um elenco tecnicamente qualificado, com jogadores capazes de participar da construção, acelerar as jogadas e criar situações de perigo por diferentes caminhos. A perda de dois titulares importantes exige adaptações, mas não deveria significar o abandono de princípios fundamentais do jogo da equipe.
O meio-campo formado por Saúl, Erick Pulgar e Lucas Paquetá teve dificuldades para organizar a criação de jogadas, reter a posse de bola e conectar os setores, principalmente ao ataque, formado por jogadores rápidos e habilidosos como Carrascal e Samuel Lino que, por conta disto, também não conseguiram oferecer a criatividade e a capacidade de desequilíbrio esperadas, enquanto Bruno Henrique passou boa parte do confronto sem receber condições favoráveis para ameaçar a defesa argentina, tendo em vista as dificuldades e limitações naturais que este atleta tem para jogar como centroavante fixo, função que foge completamente de suas características.
O problema, portanto, não se resumiu a um jogador específico: a equipe encontrou dificuldades para funcionar como um conjunto.
É justamente nesse ponto que a comissão técnica precisa ser cobrada. Se o modelo habitual depende da qualidade técnica, da circulação de bola e da participação de diferentes jogadores na construção ofensiva, cabe ao treinador encontrar alternativas quando peças importantes estão ausentes. Adaptar o sistema é necessário; descaracterizar a equipe sem construir mecanismos eficazes para substituí-los é uma escolha que merece questionamento.
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Quando a dificuldade coletiva também limita o rendimento individual
O desempenho de alguns jogadores não pode ser analisado isoladamente do contexto em que atuaram. Um atacante que recebe a bola distante da área, cercado por adversários e sem opções próximas, terá mais dificuldade para produzir. Um meia que não encontra linhas de passe pode acabar recorrendo a jogadas previsíveis. Um lateral com pouca liberdade para avançar reduz as alternativas de construção pelos corredores.
Isso não significa absolver os atletas. Erros de execução, decisões equivocadas e atuações individuais abaixo do esperado também precisam entrar na avaliação. Mas, quando diferentes jogadores apresentam dificuldades semelhantes na mesma partida, a análise deve ir além da soma de desempenhos individuais ruins e investigar as condições coletivas oferecidas pelo sistema.
A cautela de Jardim pode ter contribuído para esse cenário ao reduzir a presença ofensiva e enfraquecer as conexões entre meio-campo e ataque. Essa relação precisa ser compreendida como uma hipótese sustentada pelo comportamento da equipe, não como uma explicação definitiva para cada erro cometido em campo. Ainda assim, os números e a dificuldade de criar oportunidades tornam legítimo questionar se o plano de jogo ajudou o Flamengo a competir ou limitou excessivamente suas possibilidades.

O empate não pode esconder o que precisa mudar
O resultado de La Plata mantém a semifinal aberta e oferece ao Flamengo a oportunidade de buscar a classificação no Maracanã. Uma vitória simples na próxima quinta-feira (22), às 21h30, garante a vaga na final; um novo empate leva a decisão para os pênaltis. O cenário, portanto, está longe de ser desfavorável para o Rubro-Negro.
Mas o benefício de decidir em casa não deve transformar uma atuação limitada em motivo de tranquilidade. O Flamengo precisa chegar à partida de volta com mais capacidade de controlar o jogo com a bola, aproximar seus jogadores ofensivos e produzir oportunidades. Isso não exige abandonar a segurança defensiva, e sim encontrar um equilíbrio mais funcional entre proteção e iniciativa.
A cobrança sobre Jardim não é por ter reconhecido a força do Estudiantes ou por ter evitado uma exposição desnecessária na Argentina. É por precisar demonstrar que consegue adaptar a estratégia sem retirar do Flamengo aquilo que o torna competitivo: a qualidade técnica, a capacidade de propor o jogo e a variedade de recursos ofensivos disponíveis no elenco.
O empate pode ter sido útil para a classificação, mas não resolve a discussão sobre o futebol apresentado. Em uma semifinal, sobreviver a uma noite difícil tem valor. Para chegar à final, porém, o Flamengo precisará mostrar que consegue fazer mais do que proteger o próprio gol. Um time com esse elenco não pode aceitar que a prudência se transforme em impotência ofensiva.
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