Rubro-Negro encontra superioridade pelos corredores, transforma Carrascal em peça-chave da criação e usa Varela e Pedro para abrir vantagem, mas queda de intensidade no segundo tempo permite reação do Bragantino
Resumo: O Flamengo venceu o Bragantino por 2 a 1, mas o resultado esconde dois momentos taticamente diferentes. No primeiro tempo, Leonardo Jardim montou o time em um 4-2-3-1 que encontrou espaços principalmente pelos lados, com Carrascal participando diretamente da construção e Varela aparecendo como homem surpresa para abrir o placar. Depois do intervalo, o Flamengo reduziu a intensidade, perdeu parte da pressão após a perda e permitiu que o Bragantino avançasse mais. O segundo gol, marcado por Pedro em bola parada, devolveu segurança ao time, mas o gol contra de Bruno Henrique recolocou o adversário na partida e obrigou o líder a administrar os minutos finais.
Jardim mantém o 4-2-3-1 como ponto de partida
Leonardo Jardim iniciou o jogo com Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas; Jorginho e Saúl; Carrascal, Arrascaeta e Plata; Pedro.
A estrutura inicial foi o 4-2-3-1, com Jorginho e Saúl formando a dupla da base, Arrascaeta atuando entre as linhas e Carrascal e Plata partindo dos corredores.
A escolha tinha uma lógica clara.
Com Paquetá, Pulgar e Samuel Lino suspensos, Jardim precisou reconstruir o meio-campo e o setor ofensivo. Saúl assumiu uma função mais ligada ao equilíbrio, enquanto Jorginho ficou responsável por organizar a saída e dar continuidade à circulação.
Arrascaeta recebeu liberdade para se aproximar de Pedro e aparecer nas zonas de criação.
A grande chave, entretanto, esteve nos lados.
Foto: Gilvan de Suza/CRF
Carrascal foi a peça que mais desequilibrou a estrutura
O colombiano foi um dos jogadores mais importantes do Flamengo no primeiro tempo.
Carrascal não ficou preso à faixa esquerda. Ele recebeu aberto, conduziu para dentro, procurou combinações e atacou espaços entre lateral e zagueiro.
Foi exatamente assim que nasceu o primeiro gol.
Aos 12 minutos, o colombiano recebeu pela esquerda, conduziu para dentro e cruzou para Varela, que atacou a área como elemento surpresa. O lateral-direito apareceu nas costas da defesa e abriu o placar.
O lance demonstra uma das características mais interessantes do modelo de Jardim: o lateral não precisa permanecer permanentemente atrás da linha da bola.
Quando o extremo ou meia ocupa o corredor interno, o lateral pode atacar o espaço externo ou entrar na área.
O Bragantino também começou em um 4-2-3-1, mas teve dificuldades para controlar as movimentações ofensivas do Flamengo.
Quando Carrascal recebia pela esquerda, a defesa precisava decidir entre acompanhar o colombiano por dentro ou proteger a subida de Ayrton Lucas.
Do outro lado, Plata oferecia amplitude e profundidade.
Essa movimentação abriu espaço para Arrascaeta circular por dentro.
O Flamengo, portanto, não dependia exclusivamente de uma jogada centralizada.
A construção podia acontecer por fora, entrar no meio e retornar ao corredor.
Essa foi uma das razões para o domínio territorial rubro-negro no primeiro tempo. A equipe criou diversas oportunidades e chegou a acertar a trave com Arrascaeta. Tiago Volpi também realizou defesas importantes para manter o Bragantino vivo.
Foto: Gilvan de Souza/CRF
Pedro participou menos da construção, mas continuou sendo decisivo
Uma diferença importante em relação a outros jogos recentes foi a maneira como Pedro participou do ataque.
Em vez de precisar sair constantemente da área para organizar as jogadas, o camisa 9 teve momentos em que permaneceu mais próximo da última linha.
Isso fez sentido diante da característica da equipe.
Com Arrascaeta, Carrascal e Plata capazes de criar, Pedro podia concentrar sua movimentação na ocupação da área.
O resultado apareceu no segundo gol.
Aos 25 minutos da etapa final, Jorginho desviou cobrança de escanteio na primeira trave e Pedro atacou o espaço para finalizar.
É uma situação que mostra outra arma do Flamengo: a capacidade de transformar a superioridade territorial em ameaça também através da bola parada.
O ponto de ruptura aconteceu no intervalo
O Flamengo foi superior no primeiro tempo.
Mas a equipe voltou do intervalo em outro ritmo.
A pressão ofensiva perdeu intensidade, as recuperações de bola passaram a acontecer mais longe da área adversária e o Bragantino ganhou tempo para avançar.
O problema não foi simplesmente "recuar".
A questão foi que o Flamengo deixou de controlar o jogo com a mesma frequência.
No primeiro tempo, a equipe recuperava a bola e rapidamente procurava o ataque.
Na segunda etapa, algumas posses terminaram sem progressão e o Bragantino começou a encontrar mais espaço para atacar.
A consequência foi uma partida mais aberta.
Bragantino encontra espaço para atacar de fora
Vagner Mancini manteve sua estrutura e procurou explorar principalmente as situações em que o Flamengo não conseguia pressionar imediatamente após perder a bola.
Lucas Barbosa e Rodriguinho participaram de algumas dessas progressões.
O Bragantino também tentou finalizar de média distância. Lucas Barbosa chegou a acertar a quina da trave em uma finalização forte, enquanto Rossi precisou trabalhar em chute de Herrera.
O cenário mudou de um jogo controlado para um jogo administrado.
E essa diferença é fundamental para entender por que o Flamengo terminou sofrendo.
O segundo gol resolveu parcialmente o problema
Quando o Flamengo chegou ao 2 a 0, a tendência natural seria controlar a partida com maior tranquilidade.
A bola parada cumpriu essa função momentaneamente.
Jorginho atacou a primeira trave, desviou e Pedro apareceu no segundo momento da jogada.
O gol deu ao Flamengo a vantagem necessária para administrar.
Mas o time continuou permitindo que o Bragantino tivesse mais iniciativa.
A saída de Pedro mudou a referência ofensiva
Logo depois do gol, Jardim retirou Pedro e colocou Bruno Henrique.
A alteração gerou uma reação visível do centroavante, que demonstrou irritação ao deixar o campo.
Do ponto de vista tático, a mudança também alterou a referência do ataque.
Pedro oferece presença física, jogo de costas e ocupação constante da área.
Bruno Henrique, por sua vez, pode oferecer mais profundidade e ataque ao espaço.
A troca, portanto, não foi apenas uma substituição de jogador por jogador.
Mudou a natureza da ameaça ofensiva.
O Flamengo passou a ter uma referência mais móvel, mas perdeu parte da presença de Pedro na área justamente quando o Bragantino começava a aumentar a pressão.
O gol contra muda completamente o cenário
Aos 40 minutos, Nacho Sosa recebeu pela esquerda depois de uma sobra de escanteio e tentou encontrar um companheiro dentro da área.
A bola desviou em Bruno Henrique e enganou Rossi.
O placar passou para 2 a 1.
O gol não foi consequência de uma grande jogada coletiva do Bragantino, mas expôs um problema que vinha sendo construído: o Flamengo já não controlava a partida como no primeiro tempo.
Com a vantagem reduzida, o time precisou defender mais perto da própria área.
O Flamengo terminou administrando, não controlando
Essa talvez seja a principal conclusão tática da partida.
O Flamengo controlou o primeiro tempo.
No segundo, controlou o placar.
São coisas diferentes.
A equipe criou uma margem suficiente para vencer, mas não conseguiu manter durante os 90 minutos o mesmo nível de domínio apresentado antes do intervalo.
Nos minutos finais, o Bragantino pressionou em busca do empate e Rossi precisou aparecer.
O Flamengo conseguiu fechar os espaços e proteger a vantagem, mas terminou o jogo em uma situação muito menos confortável do que aquela indicada pelo 2 a 0.
Foto: Gilvan de Souza/CRF
O que funcionou
A utilização dos corredores funcionou especialmente bem no primeiro tempo.
Carrascal teve liberdade para conduzir e entrar por dentro, enquanto Plata ofereceu amplitude do outro lado.
A movimentação dos laterais também criou situações interessantes.
Varela foi premiado com o gol justamente porque atacou a área no momento em que a defesa do Bragantino estava concentrada na movimentação de Carrascal.
Arrascaeta também encontrou espaços entre as linhas e participou da criação das principais oportunidades.
Além disso, a bola parada voltou a produzir um gol.
O que precisa ser observado por Jardim
O principal alerta está na queda de intensidade.
O Flamengo não pode depender sempre de abrir uma vantagem para depois administrar.
Contra adversários de maior capacidade de pressão, uma queda semelhante pode produzir um cenário mais perigoso.
Outro ponto é a proteção das transições defensivas.
Quando Carrascal, Plata e os laterais avançam simultaneamente, Jorginho e Saúl precisam controlar o espaço deixado atrás.
Se a primeira pressão falha, o adversário pode encontrar uma equipe com muitos jogadores à frente da linha da bola.
O segundo tempo contra o Bragantino mostrou exatamente esse risco.
Um Flamengo eficiente, mas ainda irregular durante os 90 minutos
A vitória por 2 a 1 é importante porque coloca o Flamengo com 60 pontos e três de vantagem sobre o Palmeiras na liderança.
Taticamente, entretanto, o jogo oferece uma leitura mais complexa.
O Flamengo apresentou um primeiro tempo de alto controle, ocupou bem os corredores, criou chances e poderia ter ido para o intervalo com vantagem maior.
Depois, perdeu intensidade, permitiu que o Bragantino crescesse e precisou defender uma vantagem mínima nos minutos finais.
Leonardo Jardim sai do Maracanã com três pontos e com uma lição importante para a sequência da temporada: o modelo ofensivo produziu o suficiente para vencer, mas o controle do jogo ainda precisa durar mais do que um tempo.
É uma diferença pequena no placar, mas grande na análise.
Foto: Gilvan de Souza/CRF
Rubro-Negro manteve o 4-3-3, mas perdeu conexões entre meio e ataque, ficou espaçado após a vantagem equatoriana e terminou dependente de ações individuais; Papa conseguiu fazer o Del Valle competir melhor no Maracanã, enquanto Jardim precisou corrigir o time depois da expulsão de Jorginho
Rubro-Negro venceu por 2 a 0 em Quito e pode perder por um gol para avançar, mas postura de Leonardo Jardim será decisiva para evitar que a vantagem se transforme em acomodação