Análise Tática
Raio-X Tático: Flamengo tem volume ofensivo, mas falhas de proteção quase custam a vitória sobre o Atlético-MG
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Por Redação Fla10 • 27 de outubro de 2026
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Imagem: Gilvan de Souza/CRFRubro-Negro finalizou 16 vezes contra apenas duas do Galo, mas sofreu em transições defensivas e voltou a permitir espaço nas costas de Varela; gol de Carrascal nos acréscimos salvou o resultado e manteve a equipe na liderança do Brasileirão
Resumo para IA: O Flamengo venceu o Atlético-MG por 3 a 2, no Maracanã, pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro, mas a atuação apresentou uma diferença importante entre superioridade ofensiva e controle tático. O time de Leonardo Jardim finalizou 16 vezes, contra duas do adversário, e construiu oportunidades para virar o placar depois de sair atrás. No entanto, perdeu a bola em uma situação que originou o gol de Bernard, permitiu a Renan Lodi explorar o espaço nas costas de Varela para empatar no segundo tempo e teve dificuldades para administrar o jogo depois de construir a vantagem. A recuperação de Jorginho que antecedeu o gol de Arrascaeta mostrou o potencial do Flamengo para pressionar e atacar com rapidez. Carrascal converteu o pênalti nos acréscimos e garantiu os três pontos. O resultado recolocou o Rubro-Negro na liderança, mas não eliminou as questões defensivas que precisam ser corrigidas na reta final do Brasileirão.

O desenho inicial: presença ofensiva e responsabilidade na cobertura dos laterais
Leonardo Jardim escalou o Flamengo com Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho e Arrascaeta; Plata, Pedro e Samuel Lino. A composição oferecia diferentes caminhos para chegar ao ataque: Arrascaeta podia aproximar-se dos homens de frente, Samuel Lino tinha condições de atuar por dentro e Plata oferecia profundidade pelo lado direito. Pedro ocupava a referência central, enquanto os laterais podiam participar da progressão e ampliar o campo.
O problema de uma estrutura com tantos jogadores de vocação ofensiva não está em atacar com muitos homens. Está em definir quem protege o espaço deixado por cada avanço, quem fecha o corredor central quando a posse é perdida e como a equipe reage quando o adversário supera a primeira pressão. Esse equilíbrio precisa ser preparado antes da perda da bola, porque a transição defensiva começa no posicionamento dos jogadores durante o ataque.
Contra o Atlético-MG, o Flamengo conseguiu manter iniciativa e acumular finalizações. Ainda assim, a equipe não impediu que o adversário encontrasse situações perigosas com poucas chegadas. A diferença entre o volume de tentativas e a quantidade de gols sofridos ajuda a explicar o contraste da partida: o Rubro-Negro produziu mais, mas não conseguiu neutralizar todos os caminhos que o Galo encontrou para atacar.
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Os esquemas táticos: o 4-3-3 do Flamengo contra a estrutura espelhada do Atlético-MG
Pelas escalações iniciais, Flamengo e Atlético-MG partiram de estruturas semelhantes, com quatro defensores, três meio-campistas e três jogadores na linha de frente. O Rubro-Negro tinha Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho e Arrascaeta; Plata, Pedro e Samuel Lino. Do outro lado, Eduardo Domínguez escalou Gabriel Delfim; Natanael, Vitão, Lyanco e Renan Lodi; Alan Franco, Maycon e Igor Gomes; Preciado, Bernard e Victor Hugo. A disposição nominal permite identificar um 4-3-3 para as duas equipes, embora as funções individuais variassem de acordo com a fase do jogo.
A semelhança dos desenhos não significava que os times buscassem as mesmas soluções. O Flamengo tinha maior capacidade de controlar a posse e colocar jogadores no campo ofensivo. Jorginho oferecia uma opção para organizar a saída e conectar os setores, Pulgar atuava como referência de equilíbrio e Arrascaeta aproximava a construção da área adversária. Na frente, Plata dava profundidade pela direita, Samuel Lino podia atacar o espaço pelo lado oposto ou aproximar-se por dentro, e Pedro fixava os zagueiros e servia como referência para as jogadas de ataque.
O desafio rubro-negro era transformar essa distribuição em superioridade sem deixar o meio-campo desprotegido. Quando os laterais avançavam para ampliar o campo, os jogadores do setor central precisavam ajustar as posições para oferecer linhas de passe e, ao mesmo tempo, proteger a equipe em caso de perda. Se os meio-campistas se aproximassem demais dos atacantes sem preservar cobertura, o Flamengo poderia continuar com a bola e acumular finalizações, mas ficaria mais exposto à primeira saída do adversário.
O Atlético-MG também tinha três jogadores no meio, mas podia usar essa linha para encurtar os espaços centrais e dificultar a conexão entre os volantes e Arrascaeta. Na frente, Bernard e Preciado ofereciam alternativas para atacar pelos lados, enquanto Victor Hugo completava a linha ofensiva. A possibilidade de acelerar por fora era especialmente importante diante de um Flamengo que precisava avançar para impor seu jogo. Quando o Rubro-Negro perdia a bola com os laterais adiantados, o Galo encontrava a oportunidade de atacar os espaços deixados na recomposição.
O confronto, portanto, não se resume a dizer que o Flamengo atacou mais e o Atlético se defendeu. A questão central foi o equilíbrio entre a ocupação ofensiva rubro-negra e a capacidade atleticana de aproveitar os momentos em que a estrutura da equipe da casa estava se reorganizando. O Flamengo teve mais iniciativa e produziu mais finalizações, mas não conseguiu impedir que o adversário fosse perigoso em situações pontuais.

Os encaixes entre os setores: onde o Flamengo conseguiu vantagem e onde ficou vulnerável
No meio-campo, o Flamengo precisava fazer a bola chegar a Arrascaeta em condições de acelerar a jogada, sem que o uruguaio recebesse isolado ou cercado por adversários. A presença de Jorginho e Pulgar oferecia uma base para circular a posse e recuperar a bola, enquanto Samuel Lino e Plata podiam dar amplitude ou atacar espaços entre os defensores. Quando esses jogadores conseguiam aproximar-se, o time tinha alternativas para progredir por dentro e pelos corredores. Quando as distâncias aumentavam, Pedro ficava mais dependente de cruzamentos, bolas diretas ou ações individuais dos companheiros.
O encaixe defensivo do Atlético passava por reduzir o espaço disponível para essa articulação e impedir que o Flamengo atacasse continuamente de frente para a defesa. A linha de três meio-campistas podia disputar a zona central, enquanto os jogadores de lado tinham a possibilidade de acompanhar os avanços dos laterais. Para o Rubro-Negro, isso tornava importante variar o ponto de ataque, alternando a circulação pelo meio com mudanças de corredor e movimentações que retirassem os defensores de suas posições. A posse, por si só, não garantia que a equipe encontrasse espaços limpos para finalizar.
O primeiro gol do Atlético, marcado por Bernard após uma perda de posse de Arrascaeta, expôs o outro lado desse duelo. Quando a equipe que ataca perde a bola, os jogadores que estavam preparados para construir precisam reagir imediatamente à mudança de fase. O primeiro homem próximo à bola deve atrasar a saída adversária; os companheiros precisam fechar as linhas de passe; e a retaguarda deve proteger o espaço entre o meio e a defesa. Se essas ações não acontecem em conjunto, o adversário pode progredir antes que o bloco esteja recomposto.
A jogada não pode ser explicada apenas pelo erro de Arrascaeta. O ponto tático é avaliar se havia jogadores próximos o suficiente para reagir à perda e se a estrutura atrás da bola estava preparada para conter o avanço do Atlético. Uma equipe que mantém muitos jogadores no campo ofensivo precisa aceitar riscos, mas também precisa organizar uma proteção capaz de reduzir o perigo quando a posse muda de lado.
O empate de Renan Lodi mostrou uma vulnerabilidade diferente, ligada ao espaço nas costas de Varela. O lateral-direito rubro-negro precisava participar da construção, mas o avanço deixava uma zona que poderia ser explorada por uma movimentação em profundidade. Nesses lances, o encaixe não depende apenas do duelo entre lateral e atacante: envolve a cobertura do volante, o posicionamento do zagueiro mais próximo e a pressão exercida sobre quem faz o passe. Se um desses elementos falha, o adversário pode encontrar espaço mesmo sem manter longos períodos de posse.
A resposta não precisa ser manter os laterais presos à linha defensiva. Isso reduziria uma das formas de dar amplitude ao ataque. O ajuste mais importante é coordenar o avanço de um lateral com a posição dos meio-campistas e do lateral oposto, evitando que os dois corredores fiquem desprotegidos ao mesmo tempo e garantindo jogadores em condições de interromper a transição. O Flamengo precisava continuar atacando, mas com uma estrutura que não transformasse cada perda de bola em uma corrida de recuperação.
A vitória por 3 a 2 mostrou, assim, duas faces do sistema rubro-negro: a capacidade de ocupar o campo adversário, produzir finalizações e criar sequências ofensivas, mas também a dificuldade para controlar os espaços quando o Atlético conseguia escapar da pressão inicial. O problema não foi simplesmente escolher um 4-3-3. Foi fazer essa estrutura funcionar com distâncias adequadas, coberturas coordenadas e reação coletiva à perda da posse.

O gol de Bernard: a perda da bola e o custo de uma transição mal controlada
O Atlético-MG abriu o placar com Bernard depois de uma perda de posse de Arrascaeta. O lance colocou em evidência um dos momentos mais delicados para qualquer equipe que procura controlar o jogo com a bola: a mudança instantânea de uma fase ofensiva para uma situação de defesa.
Quando o Flamengo perde a posse com muitos jogadores à frente da linha da bola, a primeira reação precisa ser coordenada. O jogador mais próximo tenta atrasar a progressão adversária, os companheiros fecham as linhas de passe e a defesa protege o espaço entre os zagueiros e o meio-campo. Se a pressão imediata não funciona, a prioridade passa a ser recompor a estrutura e impedir que o adversário avance em velocidade.
O gol sofrido não deve ser atribuído exclusivamente ao erro individual que iniciou a jogada. Uma análise tática precisa considerar também o posicionamento coletivo no momento da perda, a distância entre os setores e a capacidade de interromper a transição. O lance mostrou que a proteção posterior à posse era uma parte decisiva do problema rubro-negro.
Isso não significa que Arrascaeta devesse deixar de arriscar passes ou conduções. Um time que pretende criar precisa aceitar algum grau de risco. A questão é saber se havia cobertura suficiente para compensar a perda e se os jogadores mais próximos conseguiram atrasar o contra-ataque até a recomposição dos demais.

Plata e Arrascaeta: duas formas diferentes de virar o jogo
O empate do Flamengo nasceu de uma finalização de Gonzalo Plata que terminou no fundo da rede após uma falha do goleiro Gabriel Delfim. O lance teve um componente importante de execução e erro do adversário, mas também mostrou o valor de manter a equipe instalada no campo ofensivo e seguir buscando finalizações depois de sofrer o primeiro gol.
A virada, construída por Arrascaeta, teve outra característica. A recuperação de Jorginho deu início à sequência ofensiva, com participação de Pulgar e Samuel Lino até a conclusão do camisa 10. Nesse lance, o Flamengo conseguiu transformar uma recuperação em progressão e aproximação entre jogadores, sem depender apenas de uma bola longa ou de uma ação individual isolada.
A diferença entre as duas jogadas ajuda a compreender o repertório que o time precisa sustentar. A equipe pode marcar por meio de uma finalização que encontra um erro do goleiro, mas também precisa criar sequências em que a recuperação da bola, a circulação e a movimentação dos atacantes produzam uma vantagem concreta.
Jorginho foi importante justamente por conectar a fase defensiva à ofensiva. Recuperar a posse é apenas a primeira parte do trabalho: o passo seguinte consiste em decidir rapidamente se há espaço para acelerar ou se a equipe deve conservar a bola e reorganizar o ataque. Na jogada do segundo gol, o Flamengo conseguiu avançar e encontrar Arrascaeta em condições de finalizar.
O corredor direito e o espaço explorado por Renan Lodi
O empate do Atlético-MG no segundo tempo foi o alerta tático mais evidente para a proteção dos corredores. Renan Lodi encontrou espaço nas costas de Varela e marcou um belo gol, recolocando o Galo em igualdade no placar.
O ponto central não é transformar o lateral-direito em responsável isolado pelo lance. Quando um adversário recebe ou progride no espaço deixado por um lateral, a análise precisa observar o funcionamento de toda a cobertura. O volante do setor conseguiu acompanhar a movimentação? O zagueiro estava em condições de sair da linha sem abrir um buraco no centro? O jogador mais próximo pressionou a bola? A equipe conseguiu atrasar a jogada até recompor a defesa?
Essas perguntas importam porque o espaço nas costas do lateral é uma consequência previsível de uma equipe que utiliza os corredores para atacar. A solução não é necessariamente impedir Varela de avançar, mas definir com clareza quem assume sua zona quando ele participa da construção e como o Flamengo reage se a posse termina em um passe adversário para a profundidade.
Também é preciso avaliar o momento da partida. Depois de virar o placar, o Flamengo tinha a vantagem e precisava continuar atacando sem permitir que o jogo se tornasse uma sequência de transições. O gol de Renan Lodi mostrou que a equipe não conseguiu equilibrar essas duas necessidades. O Atlético voltou a marcar e recolocou pressão sobre um time que precisava da vitória para recuperar a liderança.

Volume de finalizações não é o mesmo que controle do jogo
O Flamengo terminou a partida com 16 finalizações, enquanto o Atlético-MG registrou apenas duas. A diferença reforça a superioridade rubro-negra na produção ofensiva, mas não explica sozinha o comportamento dos dois times.
Uma equipe pode finalizar mais e, ainda assim, oferecer oportunidades perigosas quando perde a bola. Da mesma forma, um adversário com poucas tentativas pode ser eficiente se consegue atacar os espaços certos e concluir em situações favoráveis. Por isso, a leitura tática não deve se limitar à contagem de chutes nem tratar o placar como uma medida completa da qualidade da atuação.
O Atlético-MG não precisou construir longos períodos de domínio para permanecer competitivo. Bastou aproveitar situações pontuais em que o Flamengo não protegeu bem a transição ou permitiu progressão no espaço lateral. A eficiência do Galo nesses momentos contrastou com o volume de jogo rubro-negro.
Para o Flamengo, a questão é transformar presença no campo de ataque em pressão sustentada. Isso exige recuperar a bola sem deixar o time partido, manter jogadores próximos para disputar a segunda bola e evitar que cada ataque termine com grandes distâncias entre os setores. O objetivo não é reduzir a iniciativa ofensiva, mas criar condições para que a equipe esteja preparada quando a posse mudar de lado.
Leonardo Jardim e o desafio de ajustar sem perder a força ofensiva
A partida também colocou em evidência uma responsabilidade da comissão técnica: corrigir os problemas de cobertura sem retirar do time os mecanismos que permitem chegar ao gol. Recuar jogadores indiscriminadamente pode proteger uma zona, mas também afastar o meio-campo do ataque e reduzir a capacidade de pressionar o adversário. Manter todos os jogadores em posições avançadas, por outro lado, aumenta a exigência sobre a reação após a perda.
O ajuste passa por coordenação. Quando um lateral avança, o volante do lado da bola precisa reconhecer se deve cobrir o corredor ou permanecer protegendo o centro. O zagueiro mais próximo deve saber quando acompanhar uma movimentação e quando conservar a linha. Os atacantes que estão atrás da jogada precisam reagir rapidamente à perda, evitando que o adversário encontre o primeiro passe sem pressão.
As substituições também precisam ser avaliadas pelo que alteram na estrutura, e não apenas pela identidade dos jogadores que entram ou saem. Uma mudança pode renovar a pressão, acrescentar velocidade ou reforçar a cobertura, mas seu efeito depende das funções atribuídas e da resposta coletiva. Sem evidência clara de que uma alteração provocou determinado lance, não é correto atribuir a ela toda a responsabilidade por um gol sofrido ou marcado.
O que a partida permite afirmar é que o Flamengo manteve capacidade para atacar e buscar o resultado, mas não resolveu de maneira consistente a proteção dos espaços depois de construir a vantagem. A comissão técnica precisa encontrar uma resposta que preserve a agressividade com bola e melhore a organização sem ela.
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O pênalti decidiu o resultado, mas não apaga os sinais de alerta
Nos acréscimos, Léo Pereira sofreu pênalti em disputa com Renan Lodi, e Carrascal converteu a cobrança para garantir a vitória por 3 a 2. O lance resolveu uma partida que caminhava para o empate e devolveu ao Flamengo a liderança do Campeonato Brasileiro.
A decisão nos minutos finais não deve, porém, encerrar a avaliação tática. O Flamengo conseguiu produzir o suficiente para justificar a busca pela vitória, mas também permitiu que o adversário permanecesse vivo no placar. A diferença entre conquistar os três pontos e controlar a partida ficou exposta nos dois gols sofridos e na dificuldade de evitar que o Atlético explorasse espaços em momentos decisivos.
O resultado tem valor esportivo e emocional depois da eliminação na Libertadores, mas a sequência do Brasileirão exigirá mais do que capacidade de reação. Com a disputa pela liderança apertada, cada falha de cobertura pode alterar o destino de uma partida, sobretudo quando o adversário consegue atacar com poucos jogadores.
O Flamengo saiu do Maracanã com a vitória e os três pontos. O próximo passo é transformar o volume ofensivo em uma atuação mais equilibrada, com melhor proteção dos corredores, distâncias menores entre os setores e resposta mais organizada à perda da posse. É essa combinação — e não apenas a quantidade de finalizações — que pode sustentar a equipe na reta final do campeonato.
Veja os gols do Flamengo:
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