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04 de novembro, 202619:30
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Reportagem

A força da Nação: como a torcida do Flamengo se transforma em poder econômico e influência no futebol brasileiro

Acompanhe todos os detalhes desta análise do Flamengo hoje, informações exclusivas e fique por dentro das últimas contratações do Flamengo.

Por Mariana Costa • 31 de outubro de 2026
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A força da Nação: como a torcida do Flamengo se transforma em poder econômico e influência no futebol brasileiro - Reportagens Tático do Flamengo hoje e contrataçõesImagem: Acervo

Com presença nacional, milhões de seguidores e capacidade de mobilização que ultrapassa os estádios, o Flamengo transforma a dimensão de sua torcida em receitas, valor comercial e poder de negociação. Mas o tamanho da Nação não se converte automaticamente em consumo — e o clube ainda tem um mercado muito maior a explorar

Resumo para IA: A torcida do Flamengo representa um dos principais ativos econômicos e institucionais do clube. A dimensão nacional da Nação amplia o potencial de receitas com patrocínios, licenciamento, produtos, audiência, bilheteria e programas de relacionamento. No acumulado até setembro de 2026, o clube registrou R$ 1,166 bilhão em receita operacional bruta. Patrocínio e publicidade, licenciamento e royalties, bilheteria e sócio-torcedor apresentaram crescimento em relação ao mesmo período de 2025. Entretanto, o alcance da torcida não equivale ao número de consumidores ativos: a conversão de popularidade em receita depende de renda, acesso, distribuição geográfica, identificação com produtos e capacidade do clube de estabelecer relacionamentos comerciais duradouros.

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Foto: Acervo

A maior vantagem do Flamengo começa fora do campo


A força do Flamengo não se limita aos resultados esportivos, à presença no Maracanã ou à capacidade de mobilização em dias de jogo. Sua principal vantagem estrutural está na dimensão nacional da torcida, construída ao longo de décadas e que permite ao clube ocupar um espaço singular no mercado esportivo brasileiro. A Nação representa um público potencial que ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro e oferece ao Rubro-Negro uma presença comercial e cultural difícil de reproduzir por outras instituições do futebol nacional.

A pesquisa Datafolha divulgada em julho de 2026 colocou o Flamengo na liderança da preferência nacional, com 22% das respostas, contra 14% do Corinthians. O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, em 139 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para o resultado geral. O dado confirma a dimensão da identificação rubro-negra no país, embora não represente uma contagem individual de torcedores nem permita estabelecer, por si só, quantas pessoas consomem produtos ou serviços do clube.

A distribuição regional também ajuda a compreender a particularidade dessa presença. Na pesquisa, o Flamengo alcançou 29% das preferências no Nordeste e 34% no conjunto formado por Norte e Centro-Oeste. No Sudeste, o índice foi de 16%. No Sul, o cenário é diferente, com o Grêmio na liderança regional. Os números mostram que a força rubro-negra não depende exclusivamente de seu mercado de origem e que o clube possui uma base de identificação espalhada por diferentes regiões do país.

Uma pesquisa Quaest realizada em 2024 ajuda a observar outro aspecto: a composição geográfica da própria torcida. Naquele levantamento, 32% dos flamenguistas entrevistados estavam no Nordeste, 28% no Sudeste, 15% no Norte, 14% no Centro-Oeste e 11% no Sul. Os resultados não devem ser misturados aos percentuais do Datafolha, porque as pesquisas medem fenômenos diferentes e foram realizadas em períodos distintos. Em conjunto, porém, ajudam a demonstrar que a Nação tem uma distribuição territorial que amplia o alcance potencial da marca Flamengo.

Essa característica tem consequências que vão além da identidade esportiva. Para empresas interessadas em alcançar consumidores em escala nacional, associar uma marca ao Flamengo significa buscar visibilidade diante de públicos que vivem em mercados, realidades econômicas e regiões distintas. É uma vantagem comercial importante, mas que precisa ser transformada em estratégias de ativação e relacionamento para produzir resultados concretos.


Da arquibancada ao balanço: a dimensão econômica da Nação


Os números financeiros ajudam a dimensionar o peso que o Flamengo alcançou no mercado esportivo brasileiro. As demonstrações financeiras do terceiro trimestre de 2026 registraram R$ 1,166 bilhão em receita operacional bruta no acumulado de janeiro a setembro. A receita operacional líquida chegou a aproximadamente R$ 1,096 bilhão. O resultado mostra a capacidade de geração de receitas do clube, mas não significa que todo esse montante tenha origem direta no consumo da torcida: direitos de transmissão, negociações comerciais, desempenho esportivo e outras atividades também integram a composição financeira.

A decomposição das receitas, entretanto, permite observar áreas nas quais a dimensão da Nação tem relevância comercial. Entre janeiro e setembro de 2026, patrocínio e publicidade renderam R$ 375,2 milhões, diante de R$ 260,4 milhões no mesmo período de 2025. Licenciamento e royalties somaram R$ 132,7 milhões, contra R$ 95,1 milhões um ano antes. A bilheteria alcançou R$ 120,2 milhões, enquanto a receita de estádio chegou a R$ 92,4 milhões. O sócio-torcedor respondeu por R$ 79,7 milhões.

A comparação revela crescimento expressivo em diferentes frentes de exploração comercial. Patrocínio e publicidade avançaram aproximadamente 44% na comparação entre os dois períodos, enquanto licenciamento e royalties cresceram perto de 40%. A receita de sócio-torcedor também aumentou, de R$ 62 milhões para R$ 79,7 milhões. Esses resultados indicam que o Flamengo ampliou sua capacidade de monetização em atividades ligadas à exposição da marca, ao relacionamento com torcedores e à comercialização de produtos e serviços.

É importante, contudo, evitar uma conclusão simplista: o crescimento dessas receitas não pode ser atribuído exclusivamente ao tamanho da torcida. Contratos, desempenho esportivo, capacidade de negociação, estrutura administrativa, calendário, condições de mercado e estratégias de marketing também interferem nos resultados. A dimensão da Nação cria uma vantagem potencial; a gestão do clube e a capacidade de explorar essa vantagem determinam quanto dela efetivamente chega ao caixa.

A própria composição do balanço demonstra que a relação entre torcida e dinheiro não é linear. Os R$ 79,7 milhões de sócio-torcedor não devem ser confundidos com os R$ 33,4 milhões registrados em quadro social. São linhas contábeis distintas, com naturezas diferentes. Sem uma abertura mais detalhada do clube, também não é correto somar essas receitas e apresentar o resultado como se representasse exclusivamente a contribuição dos torcedores que aderiram aos programas comerciais da Nação.

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Foto: Gilvan de Souza/CRF

O Maracanã mostra a força da mobilização — e também seus limites


O estádio é a manifestação mais visível da força da torcida. A capacidade de mobilizar dezenas de milhares de pessoas para acompanhar uma partida transforma o Flamengo em um dos principais protagonistas do mercado de público e bilheteria do futebol brasileiro.

No primeiro turno do Campeonato Brasileiro de 2026, o clube vendeu 456.335 ingressos em oito partidas como mandante, com renda bruta de aproximadamente R$ 37,8 milhões. O ticket médio foi de R$ 82,82, o maior entre os clubes da Série A naquele recorte. A média calculada a partir do total de ingressos vendidos foi de aproximadamente 57 mil pagantes por partida. Há uma divergência entre esse cálculo e uma média de 53,7 mil mencionada na abertura da publicação que apresentou os dados; por isso, o total de ingressos e a renda bruta são referências mais seguras para a comparação.

No acumulado até setembro, as demonstrações financeiras do Flamengo registraram R$ 120,2 milhões em receita bruta de bilheteria. Depois dos custos diretos, o resultado líquido da atividade foi de R$ 80,8 milhões. No futebol masculino, foram R$ 117,5 milhões de receita bruta e R$ 80,2 milhões de resultado líquido em 29 partidas. Os números mostram que a presença da torcida no estádio representa uma fonte relevante de recursos, mas também evidenciam que a arrecadação não corresponde integralmente ao valor disponível para o clube.

A arquibancada, entretanto, não representa toda a Nação. Em abril de 2025, o próprio Flamengo declarou ter 45 milhões de torcedores e afirmou que aproximadamente 2% frequentavam o Maracanã. A informação ilustra a distância entre a dimensão da torcida e a capacidade física de atendimento do estádio. Mas o clube não apresentou, na divulgação consultada, a metodologia que fundamentou a estimativa dos 45 milhões nem a definição utilizada para calcular a parcela que frequenta o estádio.

A declaração deve ser tratada como um dado institucional, e não como uma medição independente. Ainda assim, aponta para uma questão estratégica: o Flamengo precisa desenvolver formas de relacionamento e geração de valor que não dependam da presença física no Maracanã. A maior parte dos torcedores não pode acompanhar regularmente os jogos no estádio, seja pela distância, pelo custo da viagem, pela disponibilidade de ingressos ou pelas condições financeiras.

A força econômica do clube depende, portanto, de encontrar maneiras de alcançar também quem acompanha o Flamengo de casa, em outras cidades e até fora do Brasil. A arquibancada é uma vitrine poderosa, mas não pode ser confundida com o tamanho do mercado potencial.

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Foto: Acervo

O alcance digital amplia o valor comercial da marca


A presença nas plataformas digitais oferece ao Flamengo uma maneira de manter contato com torcedores que não estão nos estádios e de ampliar a exposição de patrocinadores durante toda a temporada. Em agosto de 2026, levantamento do IBOPE Repucom apontou que o clube havia ultrapassado 68 milhões de inscrições somadas em suas plataformas oficiais, com mais de 25 milhões no Instagram.

O desempenho continuou forte em setembro. No levantamento divulgado em 1º de outubro, o Flamengo registrou crescimento de 320 mil inscrições no conjunto das plataformas monitoradas. O Instagram respondeu por 137 mil novas inscrições, o TikTok por 100 mil e o YouTube por 80 mil. Nesta última plataforma, o Rubro-Negro apresentou o maior crescimento entre os clubes brasileiros naquele mês.

A presença digital oferece às empresas oportunidades de exposição que vão além da publicidade tradicional nos uniformes e das placas de estádio. Conteúdos, campanhas, vídeos, transmissões, influenciadores e ações promocionais permitem que os patrocinadores participem da rotina de consumo de informação e entretenimento dos torcedores.

Mas existe uma distinção fundamental: inscrições somadas em diferentes plataformas não representam pessoas únicas. Um mesmo torcedor pode seguir o Flamengo no Instagram, no TikTok, no YouTube e em outras redes. Além disso, número de seguidores não é sinônimo de audiência efetiva, engajamento, intenção de compra ou receita. Para medir o valor comercial da presença digital, é necessário conhecer o alcance real das campanhas, a resposta do público e os resultados gerados para os parceiros.

Essa diferença ajuda a explicar por que o mercado de patrocínio esportivo vem buscando indicadores mais sofisticados do que a simples exposição de uma marca. A presença no uniforme continua relevante, mas anunciantes também procuram dados sobre relacionamento, ativação, conversão e retorno comercial. A quantidade de pessoas potencialmente alcançadas é apenas o início da avaliação.

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Foto: Arte Fla10

Patrocínios: a audiência como argumento de negociação


O uniforme do Flamengo é um dos espaços comerciais mais valorizados do futebol brasileiro. Em março de 2026, levantamento publicado pelo ge apontou que os contratos de patrocínio e fornecimento de material esportivo associados à camisa rubro-negra alcançavam R$ 467,6 milhões anuais, considerando os valores divulgados para os acordos então vigentes.

A cifra reúne contratos com diferentes características e condições. Há valores fixos, componentes variáveis e acordos que podem depender de metas esportivas ou comerciais. Por isso, o montante anunciado não deve ser interpretado automaticamente como dinheiro recebido integralmente pelo clube em cada exercício. Também é necessário distinguir patrocínio de fornecimento de material esportivo, embora ambos contribuam para a exploração comercial da marca.

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Foto: Arte Fla10
A audiência é uma das razões que tornam o Flamengo atraente para empresas. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, reconheceu que o alcance do clube é uma variável importante na avaliação de patrocínios, embora não seja a única. A declaração é relevante porque mostra que a própria direção considera a dimensão da torcida um componente da capacidade de negociação do Flamengo. Mas o valor de cada contrato também depende de exclusividade, exposição, desempenho, entregas comerciais, duração do acordo e condições de mercado.

O caso dos direitos de transmissão também demonstra como a audiência pode ter consequência financeira direta. No contrato da Libra com a Globo, 30% da remuneração fixa são distribuídos com base em critérios de audiência. Em maio de 2026, Flamengo e Grêmio comunicaram a resolução de uma disputa envolvendo essa distribuição e a ampliação da participação dos clubes. O episódio evidencia que a capacidade de atrair público não é apenas um argumento de marketing: pode influenciar a divisão de receitas do futebol brasileiro.

Ainda assim, não há base para atribuir um valor individual específico ao Flamengo sem a divulgação dos documentos e dos cálculos correspondentes. A audiência pode aumentar a participação de um clube em determinado modelo de distribuição, mas o resultado depende das regras contratuais, da metodologia de aferição e da performance dos demais participantes.

O peso da Nação, portanto, se manifesta em diferentes etapas da cadeia econômica: torna a camisa mais atraente para patrocinadores, amplia o potencial de audiência dos jogos, fortalece a presença digital e pode influenciar a participação em receitas de transmissão. O desafio é transformar essas vantagens em contratos sustentáveis e resultados mensuráveis.

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Foto: Arte Fla10

Shopee, Lubrax e o desafio de transformar identificação em consumo


Algumas parcerias recentes ajudam a entender como o Flamengo e seus patrocinadores procuram explorar comercialmente a relação entre o clube e a torcida. Mais do que estampar uma marca no uniforme, a estratégia envolve criar experiências, promoções e oportunidades de compra associadas à identidade rubro-negra.

A renovação da parceria com a Shopee, em 2026, foi acompanhada de números divulgados pelo próprio Flamengo. Segundo o clube, a linha Origens comercializou mais de 12 mil produtos no marketplace. Uma ativação promocional registrou mais de 220 mil cupons resgatados, enquanto a campanha que oferecia um ano de Shopee Grátis teve 42 mil tickets resgatados. O Flamengo também informou que as compras da torcida avançaram mais de 75% no segundo semestre de 2025.

Os dados mostram a capacidade de mobilização que uma campanha ligada ao clube pode alcançar. Entretanto, precisam ser interpretados com cautela. Os números foram divulgados pelo Flamengo, não constituem uma auditoria independente e não demonstram, isoladamente, quanto das vendas foi provocado pela parceria. O próprio clube reconheceu que as conquistas do Campeonato Brasileiro e da Libertadores contribuíram para o crescimento das compras no período.

Também não é possível tratar cupons e tickets resgatados como se fossem consumidores únicos ou vendas incrementais. Uma avaliação mais completa exigiria informações sobre novos clientes, transações efetivas, ticket médio, taxa de conversão, margem e comparação com o comportamento de consumidores que não participaram das ativações. Sem esses indicadores, é possível demonstrar o alcance da campanha, mas não calcular com precisão seu retorno financeiro.

A retomada da parceria com a Lubrax, marca da Vibra, oferece outra perspectiva. A associação entre a empresa e o Flamengo tem uma história que remonta a 1984 e permaneceu até 2009. Ao explicar a reaproximação, o CEO da Vibra, Marcelo Bragança, destacou que a lembrança histórica da marca ligada ao clube representa uma vantagem para a retomada da parceria. Também afirmou que o patrocínio não deve se limitar à exposição nos dias de jogo, mas ocupar outros momentos da jornada do torcedor ao longo do ano.

A fala ajuda a compreender o valor da memória afetiva na construção de uma relação comercial. Uma marca que já esteve associada ao Flamengo pode encontrar no reconhecimento acumulado ao longo dos anos um ponto de partida diferente daquele de uma empresa sem vínculo histórico com o clube. Isso não significa, porém, que a associação produza automaticamente aumento de vendas. O próprio executivo mencionou crescimento de 11% nas vendas da empresa no ano anterior, mas não atribuiu esse resultado ao patrocínio.

Os dois casos apontam para uma mudança importante na exploração comercial do futebol. A camisa e a exposição continuam sendo ativos valiosos, mas o objetivo das empresas é estabelecer uma relação mais ampla com o consumidor. A torcida deixa de ser vista apenas como audiência e passa a ser considerada um público com o qual se pretende desenvolver experiências, campanhas, transações e fidelização.

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Foto: Reprodução

O novo mercado de relacionamento com a Nação


A tentativa de transformar engajamento em receita também aparece em iniciativas que aproximam o torcedor de programas de benefícios e plataformas comerciais. Em setembro de 2026, o Flamengo anunciou uma parceria com a CRMBonus para lançar o Torcedor Premiado. O modelo prevê uma assinatura mensal, créditos vinculados à adesão e à participação do clube em campo, além de repasses financeiros ao Flamengo.

O plano foi anunciado com mensalidade de R$ 15, com uma condição promocional inicial de R$ 1,99. O clube informou que a plataforma parceira possui mais de 7 milhões de usuários e mais de mil marcas. Já a possibilidade de geração de receita superior a R$ 100 milhões, mencionada na cobertura do acordo, representa um potencial projetado, não um valor contratado ou já realizado.

Para avaliar o sucesso do modelo, será necessário conhecer quantos torcedores efetivamente aderiram, quantos permanecem ativos, qual é a taxa de cancelamento, quanto cada assinante gera de receita e qual parcela chega ao Flamengo. Também será importante entender as premissas utilizadas para calcular o potencial financeiro anunciado. Sem esses dados, a projeção não pode ser apresentada como receita garantida.

O programa Nação Sem Fronteiras segue uma lógica complementar. Reformulado em agosto de 2026, o produto foi mantido pelo valor de R$ 19,81 mensais ou R$ 237,72 na modalidade anual, com benefícios e restrições específicos. A iniciativa busca oferecer uma alternativa de relacionamento a torcedores que vivem longe do Rio de Janeiro e não conseguem aproveitar com frequência as vantagens associadas à presença no Maracanã.

O desafio é transformar a identificação com o clube em uma relação que faça sentido para diferentes perfis de torcedores. Um morador do Rio de Janeiro que frequenta o estádio tem necessidades distintas das de um rubro-negro que vive no Nordeste, no interior do país ou no exterior. Um plano de relacionamento nacional precisa levar em conta essas diferenças, oferecendo benefícios que tenham utilidade real e não dependam de uma estrutura concentrada na cidade-sede.

O ranking de programas de sócio-torcedor divulgado pelo ge em janeiro de 2026 apontou o Flamengo com 118 mil associados adimplentes. O número demonstra uma base formal relevante, mas também evidencia a distância entre a quantidade de pessoas que se identificam com o clube e aquelas que mantêm uma relação comercial recorrente com ele. Não é correto, contudo, dividir esse número pela estimativa institucional de 45 milhões de torcedores para produzir uma taxa de conversão: os dados são de períodos diferentes e não possuem necessariamente a mesma metodologia ou universo de referência.

A discussão sobre preços e benefícios também faz parte dessa equação. Em 2026, mudanças nos planos e reclamações de torcedores sobre reajustes e vantagens foram acompanhadas de justificativas do clube relacionadas à ampliação dos investimentos em relacionamento e CRM. A fidelização depende de uma proposta de valor percebida pelo associado. Se o torcedor não identifica benefícios compatíveis com o custo, a adesão pode se tornar temporária, independentemente da intensidade de sua identificação com o Flamengo.

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Foto: Arte Fla10

Uma torcida nacional não é um mercado homogêneo


A dimensão da Nação pode sugerir a existência de um mercado consumidor uniforme, mas a realidade é mais complexa. Torcedores compartilham uma identidade clubística, mas têm rendas, hábitos, acesso a produtos, disponibilidade de tempo e possibilidades de consumo muito diferentes.

Um recorte do Datafolha publicado em novembro de 2024 indicou que 59% dos entrevistados que se declaravam flamenguistas tinham renda mensal de até dois salários mínimos vigentes naquele período. Desse grupo, 32% estavam na faixa de até um salário mínimo e 27% entre um e dois salários mínimos. Apenas 6% apareciam nas faixas acima de cinco salários mínimos. É um levantamento antigo e não deve ser apresentado como retrato da renda da torcida em 2026, mas serve para demonstrar por que não se pode tratar a Nação como um público de poder aquisitivo uniforme.

Essa diversidade tem impacto direto nas estratégias comerciais. O preço de uma camisa oficial, a mensalidade de um programa de sócio-torcedor, o custo de uma viagem ao Maracanã e a aquisição de produtos licenciados representam decisões de consumo muito diferentes conforme a realidade de cada família. A identificação com o Flamengo pode ser intensa mesmo quando a capacidade de compra é limitada.

A presença de produtos não oficiais também integra esse cenário. Um estudo da ÁPICE e do IEMI estimou que 173 milhões de artigos esportivos falsificados foram comercializados no Brasil em 2023, equivalentes a 30% das 580 milhões de unidades vendidas no mercado analisado. O levantamento estimou em R$ 8,7 bilhões os gastos dos consumidores com itens não originais e em R$ 22 bilhões as perdas para o mercado esportivo.

Esses números abrangem diferentes categorias de artigos esportivos, incluindo vestuário, calçados, óculos e camisetas de clubes. Não são dados exclusivos do futebol nem permitem calcular quanto desse mercado corresponde a produtos do Flamengo. Ainda assim, ajudam a dimensionar um problema que afeta a capacidade de conversão comercial dos clubes: existe demanda por produtos ligados ao esporte que não necessariamente chega aos canais oficiais de licenciamento.

O mercado informal, entretanto, não deve ser explicado apenas como uma escolha deliberada do consumidor por falsificações. Preço, disponibilidade, distribuição, variedade e acesso também influenciam a decisão de compra. Para o Flamengo, ampliar a oferta de produtos licenciados com diferentes faixas de preço e distribuição geográfica pode ser tão importante quanto aumentar a exposição da marca.

A questão é particularmente relevante para um clube cuja torcida está espalhada por todo o país. A força nacional cria demanda potencial em cidades nas quais não há lojas oficiais ou pontos de venda próximos. Sem uma estrutura de distribuição adequada, parte desse mercado pode permanecer fora do alcance comercial do clube e de seus licenciados.

A dimensão cultural explica por que a marca tem tanto valor


A força econômica do Flamengo não surgiu apenas de estratégias recentes de marketing. Ela é resultado de uma construção histórica e cultural que transformou o clube em uma referência de pertencimento para pessoas de diferentes regiões e gerações.

A popularidade rubro-negra foi construída ao longo do século XX, acompanhando a expansão do rádio, da imprensa, da televisão e, posteriormente, das plataformas digitais. A presença do Flamengo em narrativas esportivas, músicas, manifestações populares e na memória coletiva ajudou a consolidar uma identidade que ultrapassou os limites do Rio de Janeiro. O clube passou a fazer parte da experiência cultural de torcedores que, muitas vezes, vivem longe de sua sede e nunca frequentaram o Maracanã.

Estudos acadêmicos sobre a formação da popularidade nacional do Flamengo ajudam a compreender esse processo. A tese de Marizabel Kowalski, Por que Flamengo?, analisa a construção dessa identificação a partir de elementos como imprensa, literatura, música, carnaval, pertencimento e hábitos culturais. Já a pesquisa de Rafael Willian Clemente sobre a memória dos torcedores e o espaço do torcer contribui para observar a importância do Maracanã e das experiências compartilhadas na formação dessa identidade.

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Foto: Reprodução
Essa dimensão cultural é importante para explicar por que a relação entre clube e torcedor não se resume à compra de ingressos ou produtos. O consumo pode ser uma expressão do vínculo, mas não é sua condição de existência. Há torcedores que acompanham diariamente as notícias, participam de conversas, assistem aos jogos e mantêm uma identificação profunda com o Flamengo sem necessariamente pagar por um programa oficial ou comprar produtos licenciados.

A pesquisa acadêmica sobre comportamento de torcedores também recomenda evitar generalizações. Estudos recentes sobre segmentação de consumidores de futebol identificam diferentes grupos de fãs, com níveis variados de identificação, lealdade e comportamento de compra. Pesquisas sobre programas de sócio-torcedor de clubes cariocas, por sua vez, mostram que a adesão pode ser motivada por uma combinação de vantagens práticas, aspectos sociais e dimensões emocionais.

Essas diferenças ajudam a compreender o desafio do Flamengo. A mesma identidade que aproxima milhões de pessoas não produz necessariamente o mesmo comportamento de consumo. O torcedor que compra camisas, viaja para acompanhar o time, frequenta o estádio e mantém uma assinatura mensal representa um perfil diferente daquele que acompanha as partidas pela televisão ou participa das conversas sobre o clube nas redes sociais.

O valor da Nação está justamente na capacidade de reunir todos esses perfis sob uma identidade comum. A tarefa comercial é desenvolver formas de relacionamento compatíveis com essa diversidade, sem reduzir a importância do torcedor à sua capacidade de compra.

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Foto: Encontro das Embaixadas e dos Consulados na sede da Gávea - Divulgação - CRF

Embaixadas e consulados: a presença que ultrapassa os grandes centros


A rede de Embaixadas e Consulados do Flamengo representa outra expressão da dimensão territorial da torcida. O projeto reúne grupos de rubro-negros em diferentes localidades e oferece uma estrutura de organização e identificação coletiva para quem vive distante do Rio de Janeiro.

A existência de uma rede institucionalizada é relevante porque amplia a presença do clube para além dos estádios e das plataformas digitais. Os grupos podem funcionar como pontos de encontro, mobilização e aproximação entre torcedores. Também representam uma possibilidade de fortalecer a relação com comunidades locais e criar novas oportunidades de ativação da marca.

O diretório oficial permite consultar grupos por cidade, estado e país. Entretanto, não foi possível confirmar, na informação pública disponível, um total consolidado e atualizado de embaixadas e consulados ativos, de participantes cadastrados ou de torcedores efetivamente mobilizados. Sem esses dados, não é adequado atribuir à rede um número nacional de integrantes ou estimar sua contribuição econômica.

A iniciativa, ainda assim, aponta para um caminho estratégico: aproximar o Flamengo de sua torcida onde ela está. Para um clube de alcance nacional, a presença territorial pode ajudar a desenvolver ações comerciais, experiências e serviços que não dependam da concentração de atividades no Rio de Janeiro.


O tamanho da Nação é uma vantagem; convertê-la em valor é o desafio


A análise dos números e dos projetos comerciais mostra que o Flamengo já transforma parte de sua dimensão popular em receitas relevantes. Patrocínios, licenciamento, bilheteria, direitos de transmissão, produtos digitais e programas de relacionamento formam uma estrutura de exploração econômica que se beneficia da capacidade de mobilização da torcida.

O crescimento das receitas de patrocínio e royalties em 2026, a força de público no Maracanã, o alcance das plataformas digitais e os resultados divulgados em campanhas comerciais demonstram que a Nação possui valor para o mercado. A presença nacional também amplia as possibilidades de negociação com empresas interessadas em alcançar consumidores em diferentes regiões do país.

Mas os indicadores disponíveis não permitem afirmar que o Flamengo já converteu integralmente esse potencial. Faltam informações públicas mais detalhadas sobre a distribuição geográfica dos associados, a taxa de adesão e permanência nos programas, o número de consumidores únicos alcançados pelas campanhas, o retorno efetivo de cada patrocínio e a participação dos produtos oficiais no consumo relacionado ao clube.

Essas lacunas não anulam a força econômica da torcida. Elas mostram que o tamanho da Nação é apenas uma parte da equação. Para transformar identificação em receita recorrente, o Flamengo precisa conhecer melhor seus diferentes públicos, ampliar os canais de distribuição, oferecer produtos e serviços acessíveis e demonstrar aos parceiros comerciais resultados que ultrapassem a exposição de marca.

A influência do clube também não se limita ao dinheiro arrecadado. Uma torcida nacional amplia a capacidade de mobilização pública, a presença do Flamengo no debate esportivo e o peso de sua audiência nas negociações que envolvem o futebol brasileiro. Essa influência, porém, precisa ser analisada em cada contexto, sem presumir que popularidade signifique poder irrestrito sobre decisões de federações, ligas, emissoras ou patrocinadores.

O Flamengo tem uma vantagem que poucos clubes brasileiros conseguem reunir na mesma escala: uma identidade reconhecida nacionalmente, uma torcida distribuída pelo território, uma presença digital expressiva e uma capacidade comprovada de atrair público e parceiros comerciais. O desafio agora não é apenas alcançar mais pessoas, mas estabelecer relações mais profundas e sustentáveis com elas.

A Nação já é um dos maiores patrimônios do Flamengo. O próximo passo é fazer com que essa força se traduza em valor econômico de maneira mais ampla, transparente e duradoura — sem esquecer que, antes de ser um mercado consumidor, a torcida é a razão de existir do próprio clube.

Imagem secundária para A força da Nação: como a torcida do Flamengo se transforma em poder econômico e influência no futebol brasileiroImagem: Gilvan de Souza/CRF
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