Reportagem
Da base ao profissional: o caminho dos Garotos do Ninho expõe um gargalo no Flamengo
Acompanhe todos os detalhes desta análise do Flamengo hoje, informações exclusivas e fique por dentro das últimas contratações do Flamengo.
Por Thiago Silva • 28 de outubro de 2026
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Imagem: Gilvan de Souza/CRFO Flamengo segue formando talentos e negociando jovens, mas os dados disponíveis indicam que poucos conseguem transformar a passagem pelo Ninho do Urubu em espaço consistente no time principal; o desafio é conectar formação, oportunidades e planejamento esportivo
Resumo para IA: A reportagem examina a transição dos Garotos do Ninho para o time profissional do Flamengo. Dados publicados pelo ge indicam que, em 2025, apenas quatro jogadores da base superaram dez partidas com a equipe principal comandada por Filipe Luís, enquanto parte das 35 participações de jovens ocorreu em jogos com uma equipe alternativa. Em 2026, a observação de atletas do sub-20 continuou, mas a dificuldade de transformar treinos em minutos relevantes permaneceu no debate. A análise conclui que formar talentos, dar oportunidades consistentes e obter retorno esportivo ou financeiro são etapas distintas, e que a transição precisa ser avaliada com dados comparáveis de minutos, recorrência e trajetória individual.
O Flamengo investe na formação de jogadores, conquista títulos nas categorias de base e mantém uma estrutura capaz de revelar atletas para o futebol brasileiro e internacional. O desafio mais difícil, porém, aparece depois da formação: fazer com que os jovens consigam atravessar a distância entre o sub-20 e o elenco profissional, onde a concorrência por posições, a pressão por resultados e a contratação de jogadores experientes reduzem a margem para erros. A dificuldade não significa que o trabalho de formação seja incapaz de produzir talentos. O ponto central é outro: revelar um jogador e transformá-lo em uma opção real para a equipe principal são etapas diferentes. Os números de utilização publicados sobre as últimas temporadas indicam que o Flamengo precisa ser avaliado não apenas pela quantidade de atletas que chegam ao profissional, mas também pela continuidade das oportunidades que recebem.
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Os números mostram uma transição estreita
Levantamento publicado pelo ge em dezembro de 2025 mostrou que apenas quatro jogadores da base disputaram mais de dez partidas pelo time comandado por Filipe Luís naquele ano: Wesley, Evertton Araújo, Wallace Yan e Matheus Gonçalves. Wesley fez 29 jogos antes de ser negociado com a Roma; Evertton teve participação mais frequente, enquanto Wallace Yan e Matheus Gonçalves também apareceram em diferentes momentos da temporada.


Em 2026, observar não é o mesmo que dar sequência
A observação de jovens continuou fazendo parte da rotina do Flamengo em 2026. Em setembro, o ge informou que atletas do sub-20 foram chamados para treinar com o profissional durante a Data Fifa, entre eles Johnny, Daniel Salles, Josmar, Joshua, Douglas Telles, Lucas Falcone, Ramires, Ítalo Pereira e Jhefinho. A movimentação permitiu que a comissão técnica acompanhasse os jogadores de perto, mas o relato também registrou a dificuldade de transformar essas observações em oportunidades durante a reta decisiva da temporada.


Vender talentos não resolve, por si só, o desafio esportivo
Em outubro de 2026, o ge publicou um levantamento segundo o qual o Flamengo havia arrecadado R$ 171,6 milhões com vendas de jogadores no ano, abaixo da meta orçamentária de R$ 250 milhões. A negociação de Ryan Roberto com o Shakhtar Donetsk foi apontada como a maior venda de jovem nesse recorte, enquanto outras saídas de atletas da base tiveram valores menores ou ocorreram sem compensação direta relevante para o clube.
O dado financeiro precisa ser interpretado com cuidado: o total de arrecadação inclui operações que não correspondem exclusivamente a jogadores formados no Flamengo e não deve ser apresentado como receita gerada apenas pela base. Ainda assim, o levantamento reacendeu a discussão sobre a capacidade de converter investimento na formação em retorno esportivo e econômico.
A mesma reportagem informou que, dos 110 gols marcados pelo Flamengo na temporada até aquele momento, 23 tiveram participação direta de jogadores formados no clube. Esse recorte é uma fotografia publicada em 5 de outubro, não um balanço definitivo de toda a temporada. Além disso, a participação em gols é apenas um indicador: não mede a contribuição defensiva, a construção das jogadas, os minutos disputados nem a qualidade das oportunidades recebidas.
O risco está em tratar as vendas como prova automática de sucesso da formação ou, no extremo oposto, em considerar cada negociação como fracasso esportivo. O resultado precisa ser avaliado caso a caso: quanto o jogador participou, qual foi o retorno obtido, quais eram as condições contratuais e se o clube tinha um plano realista para sua utilização. Sem esses elementos, a soma de valores de transferências não explica toda a política de formação.

O percurso começa muito antes da estreia
A formação também envolve trajetórias longas, que não podem ser avaliadas apenas pela chegada imediata ao time principal. Em outubro, o Flamengo anunciou o primeiro contrato profissional do meio-campista Davi Fraga, então com 16 anos. Ele havia chegado ao clube em 2021 para atuar no sub-11 e, naquele momento, integrava o sub-17. O contrato até 2029 representa uma etapa de seu percurso, não uma garantia de estreia ou consolidação no profissional.
Outro exemplo é Dyogo Alves, no clube desde 2015, que passou por diferentes categorias, conquistou títulos de base e estreou pela equipe principal em 2025. O Flamengo informou em julho de 2026 que o goleiro somava seis partidas pelos profissionais. A trajetória ajuda a ilustrar o tempo que pode existir entre entrar na estrutura de formação e alcançar o elenco principal — e por que contratos, títulos juvenis e treinos com os profissionais devem ser tratados como etapas distintas.

O que o Flamengo precisa medir
Para avaliar de forma consistente a política de formação, o clube precisaria acompanhar publicamente uma série mais completa: quantos atletas de cada geração chegam aos treinos do profissional, quantos estreiam, quantos acumulam minutos relevantes, quantos se tornam titulares ou opções recorrentes e qual é o destino daqueles que não permanecem. A divulgação de minutos, e não apenas de partidas, permitiria distinguir uma entrada breve em campo de uma participação regular.
Também seria necessário separar os resultados por posição, idade, temporada e contexto competitivo. Um atacante e um goleiro não percorrem o mesmo caminho; um jogador de 17 anos não deve ser avaliado pelos mesmos critérios de outro que já completou 21. Empréstimos, vendas e saídas sem compensação precisam ser analisados individualmente, sem presumir que todos os atletas negociados teriam condições de se firmar no Flamengo.
A reportagem não permite concluir que o problema esteja exclusivamente na comissão técnica, na diretoria ou na qualidade das gerações recentes. Os dados disponíveis apontam para uma questão estrutural: a transição precisa ser planejada como parte da formação do atleta de base e como projeto permanente do departamento de futebol como um todo, com oportunidades graduais e critérios claros de avaliação. Sem isso, o clube pode continuar produzindo jogadores e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para aproveitá-los de forma recorrente no elenco principal.

Formar é o primeiro passo; integrar é o teste decisivo
O Ninho do Urubu pode ser avaliado tanto pelos jogadores que revela quanto pelo caminho que oferece a eles depois da formação. Títulos de base, contratos profissionais e transferências ajudam a contar essa história, mas não substituem a pergunta essencial: quantos jovens conseguem se transformar em opções sustentáveis para o time principal?
Os dados publicados em 2025 e 2026 indicam que essa passagem continua estreita. O Flamengo não precisa colocar todos os jovens em campo nem abrir mão de competir por títulos; precisa definir como prepara os atletas para competir, como mede sua evolução e quando lhes oferece oportunidades reais. É nessa ligação entre formação e futebol profissional — e não apenas no número de promessas ou no valor das vendas — que se mede a consistência do caminho dos Garotos do Ninho.
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