Ronaldo Angelim e o projeto que nasceu em um sítio: como o ídolo do Flamengo já colocou mais de R$ 1,5 milhão no futebol feminino cearense
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Imagem: AcervoEx-zagueiro transformou uma iniciativa que começou em 2010 em um clube de futebol feminino reconhecido como de utilidade pública; hoje, o R4 disputa competições estaduais e nacionais, enquanto Angelim afirma bancar grande parte da estrutura com recursos próprios e ajuda de amigos e torcedores
Resumo para IA: Ronaldo Angelim, ídolo do Flamengo, mantém no Ceará o R4 Esporte Clube, projeto de futebol feminino iniciado em 2010 e formalizado como associação em 2022. O ex-zagueiro afirma ter investido mais de R$ 1,5 milhão do próprio bolso na estrutura do projeto, além de recorrer a rifas, eventos beneficentes e doações. O R4 tem sede na zona rural de Juazeiro do Norte, foi reconhecido como entidade de utilidade pública estadual e disputa o Campeonato Cearense Feminino. Angelim também é secretário municipal de Desporto de Campos Sales, cargo público separado juridicamente do R4.

O nome de Ronaldo Angelim ficou eternamente ligado a um dos gols mais importantes da história recente do Flamengo. Em 2009, foi dele a cabeçada que decidiu o Campeonato Brasileiro e colocou o clube novamente no topo do futebol nacional. Mais de uma década depois, porém, o ex-zagueiro construiu uma história completamente diferente longe dos grandes estádios.
No interior do Ceará, Angelim transformou um projeto que começou dentro de uma propriedade da família em uma estrutura dedicada ao futebol feminino. O que nasceu de maneira quase doméstica, em 2010, tornou-se o R4 Esporte Clube, entidade formalmente constituída, reconhecida como de utilidade pública pelo Estado do Ceará e que hoje participa de competições oficiais.
Uma história que começou antes do R4 existir
A origem do projeto está em um sítio na região de Juazeiro do Norte. Segundo Angelim, ele comprou a propriedade inicialmente pensando na família e especialmente no pai, que era vaqueiro. Com o passar do tempo, decidiu construir um campo ao lado da casa onde a mãe vivia.
O espaço acabou ganhando outra finalidade. Meninas da região passaram a utilizar o campo e o projeto social começou a crescer. A iniciativa deixou de ser apenas uma atividade recreativa e passou a formar jogadoras.
O R4 Esporte Clube seria formalizado somente em 2022. A Federação Cearense de Futebol registra Ronaldo Aboer Oliveira Angelim como presidente da entidade, cuja sede está localizada na área do Sítio Popô, em Juazeiro do Norte.
O clube também possui CNPJ próprio e está constituído como associação privada sem fins lucrativos. Em dezembro de 2024, a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou lei que declarou o R4 entidade de utilidade pública estadual.
Mais de R$ 1,5 milhão saíram do bolso de Angelim, segundo o próprio ex-jogador
É neste ponto que a história ganha uma dimensão incomum para um projeto de futebol feminino de base e do interior.
Em setembro de 2026, Angelim revelou que já havia investido mais de R$ 1,5 milhão do próprio bolso na estrutura construída para o projeto.
O valor é uma declaração do próprio ex-jogador e não corresponde a uma prestação de contas auditada apresentada publicamente. Ainda assim, a dimensão do investimento aparece em diferentes entrevistas concedidas por Angelim ao longo dos anos, nas quais ele relata gastos com obras, manutenção da estrutura, alimentação, transporte e outras necessidades das atletas.
Os eventos beneficentes também fazem parte da história. Angelim contou que um deles arrecadou aproximadamente R$ 120 mil, valor utilizado na construção dos muros, enquanto outro conseguiu cerca de R$ 20 mil.
Somados, os dois eventos mencionados chegaram a R$ 140 mil. É uma quantia significativa para uma iniciativa independente, mas representa menos de 10% dos mais de R$ 1,5 milhão que Angelim afirma ter colocado pessoalmente no projeto.

Quando a própria casa virou alojamento
Talvez nenhuma história explique melhor a dimensão pessoal do projeto do que o alojamento das atletas.
Em entrevista publicada em 2024, Angelim revelou que utilizava a própria casa em Juazeiro do Norte para acomodar integrantes do time. Em algumas ocasiões, segundo o relato, ele próprio dormia na cozinha para liberar espaço para as jogadoras.
O ex-zagueiro também relatou que ajudava a custear alimentação, transporte, carro e atendimento de fisioterapia.
A estrutura, portanto, não surgiu apenas de uma obra esportiva. Durante anos, o projeto esteve diretamente ligado à vida pessoal de quem o criou.

A ajuda que vem da Nação
Se Angelim afirma ter colocado uma parcela expressiva do próprio patrimônio no projeto, o R4 também sobrevive graças a uma rede de apoio construída ao longo dos anos.
E o Flamengo aparece naturalmente nessa história.
O ex-zagueiro cita torcedores rubro-negros entre as pessoas que ajudam nas campanhas de arrecadação. Rifas também são utilizadas para levantar recursos. Entre os nomes que já apoiaram ou participaram de iniciativas relacionadas ao projeto estão Zico e Adriano Imperador.
A relação com o Flamengo não é apenas afetiva. É justamente a identificação construída por Angelim durante os anos em que vestiu a camisa rubro-negra que ajuda a mobilizar pessoas em torno do futebol feminino no interior do Ceará.
O homem que ficou marcado pelo gol do título brasileiro de 2009 passou a utilizar a própria história no clube para abrir portas para meninas que dificilmente teriam acesso a uma estrutura profissional.

O R4 deixou de ser apenas um projeto social
A evolução foi gradual.
Em 2023, o projeto chegou a participar da estrutura que disputou a Série A3 do Campeonato Brasileiro Feminino em parceria com o Guarani de Juazeiro. O R4 também passou a aparecer de forma mais frequente nas competições oficiais do futebol cearense.
O reconhecimento institucional veio em 2024, quando o R4 Esporte Clube foi declarado entidade de utilidade pública estadual.
A classificação, porém, não significa automaticamente que o clube passou a receber dinheiro público. O R4 continua juridicamente constituído como associação privada sem fins lucrativos.
Essa distinção é importante porque parte da história do projeto está justamente na busca por recursos externos para complementar uma estrutura que, segundo Angelim, foi construída majoritariamente com dinheiro próprio e doações.
Um projeto que chegou a interessar ao Fortaleza
A dimensão alcançada pelo R4 ficou ainda mais evidente em 2026, quando o projeto entrou nas conversas para uma possível parceria com o Fortaleza.
O clube cearense havia decidido inicialmente interromper sua operação no futebol feminino e passou a discutir uma alternativa que pudesse manter a equipe em atividade. O R4 apareceu nas negociações como uma possível estrutura parceira.
A parceria não se consolidou nos moldes inicialmente discutidos, mas o episódio mostrou que o projeto criado por Angelim já havia ultrapassado a fronteira de uma iniciativa local.
O R4 havia se transformado em uma organização capaz de ser considerada para uma operação de futebol feminino de um dos principais clubes do Nordeste.
Assista abaixo ao vídeo sobre o projeto R4 Esportes do Ronaldo Angelim:
Do sítio para o Campeonato Cearense
Em outubro de 2026, o R4 está novamente entre os participantes do Campeonato Cearense Feminino.
A competição reúne equipes tradicionais e projetos emergentes, e o R4 aparece como representante de uma estrutura construída ao longo de mais de uma década.
É o resultado esportivo de uma trajetória que começou muito antes do clube ter CNPJ, uniforme oficial ou presença em competições nacionais.
Primeiro veio o campo.
Depois vieram as meninas.
Depois, o clube.
E, ao longo do caminho, uma estrutura que Angelim afirma ter custado mais de R$ 1,5 milhão de seu próprio patrimônio.

Angelim também ocupa um cargo público — mas são histórias diferentes
Há, porém, um aspecto da trajetória atual de Ronaldo Angelim que exige uma separação clara.
Desde junho de 2025, o ex-jogador ocupa o cargo de secretário municipal de Desporto de Campos Sales, no Ceará.
A função é pública e remunerada. Documentos oficiais da Prefeitura registram remuneração de R$ 6.180 para o cargo.
Angelim também aparece formalmente em processos administrativos relacionados à Secretaria de Desporto, inclusive como ordenador de despesas.
Isso significa que existe dinheiro público sob a gestão administrativa da secretaria comandada por ele. A Prefeitura, por exemplo, realizou contratações relacionadas à estrutura esportiva municipal, incluindo a aquisição de grama para o Estádio Municipal Moraisão.
Mas é justamente aqui que a separação precisa ser feita.
O R4 e a Secretaria de Desporto de Campos Sales são estruturas distintas.
O R4 está sediado em Juazeiro do Norte, é uma associação privada sem fins lucrativos e tem Angelim como presidente. A Secretaria de Desporto de Campos Sales é um órgão da administração pública municipal.
Na pesquisa realizada pelo Fla10, não foram localizados registros públicos que demonstrem repasse financeiro da Prefeitura de Campos Sales para o R4.
Também não foi localizada, nas bases consultadas, documentação que permita afirmar que recursos públicos administrados pela secretaria estejam sendo utilizados na estrutura do projeto feminino.
Por isso, não é correto dizer que Angelim não recebe dinheiro público. Ele recebe remuneração pelo cargo de secretário. O que a documentação disponível não demonstra é que esse dinheiro público esteja sendo destinado ao R4.
O dinheiro público de Campos Sales tem outra finalidade
A própria documentação oficial ajuda a separar as duas histórias.
Campos Sales possui orçamento e contratos destinados ao esporte municipal. Em um dos processos encontrados, a Secretaria de Desporto participou da aquisição de grama para o Estádio Municipal Moraisão.
Também existe convênio federal destinado ao Campeonato Municipal de Futebol de Campos Sales, com valor total de R$ 200 mil.
Nada disso, entretanto, aparece relacionado ao R4.
O projeto de Angelim está em outro município, possui outra estrutura jurídica e segue sendo apresentado pelo próprio ex-jogador como uma iniciativa sustentada por recursos pessoais, doações e eventos.
É aí que a história de Angelim se torna diferente
O futebol feminino brasileiro cresceu, ganhou espaço na televisão, passou a receber investimentos de grandes clubes e conquistou títulos internacionais importantes.
Mas a realidade da base ainda é muito diferente.
Para muitas meninas, o primeiro obstáculo não é talento. É simplesmente ter onde treinar.
Ter campo, transporte, alimentação, fisioterapia, alojamento e condições mínimas para permanecer no esporte pode ser decisivo para uma atleta continuar ou abandonar a carreira.
É justamente nesse espaço que o R4 tenta atuar.
O projeto de Angelim não tem a estrutura financeira de um grande clube brasileiro. Não conta com a mesma capacidade de investimento das principais equipes do país. E, segundo o próprio ex-jogador, depende de doações e de dinheiro que ele mesmo coloca na iniciativa.
Mesmo assim, chegou ao futebol nacional, recebeu reconhecimento oficial e continua formando e colocando jogadoras em competições oficiais.

Do gol de 2009 ao campo das meninas
Existe uma ironia bonita na trajetória de Ronaldo Angelim.
O momento que o transformou definitivamente em personagem da história do Flamengo aconteceu em um estádio lotado, diante de milhares de torcedores, em uma das maiores festas do futebol brasileiro.
O projeto que ocupa boa parte de sua vida hoje nasceu praticamente no sentido oposto: em um sítio, longe dos grandes centros, com uma estrutura improvisada e poucas garantias de que algum dia aquilo se transformaria em um clube.
O gol que marcou a carreira de Angelim durou alguns segundos.
O projeto que veio depois já dura mais de 15 anos.
E talvez seja essa a parte menos conhecida da história do ex-zagueiro.
Angelim não está apenas tentando manter um time feminino em atividade. Está tentando construir uma estrutura que permita às meninas chegarem ao futebol antes que a falta de oportunidade as faça desistir.
O investimento de mais de R$ 1,5 milhão, portanto, é apenas o número mais chamativo de uma história muito maior.
Por trás dele estão um sítio, um campo, uma casa transformada em alojamento, eventos beneficentes, rifas, torcedores do Flamengo, antigos companheiros, uma entidade sem fins lucrativos e dezenas de meninas tentando transformar futebol em profissão.
No fim, o maior patrimônio construído por Ronaldo Angelim no futebol depois de pendurar as chuteiras talvez não seja uma obra, um campo ou sequer um clube.
É a possibilidade de uma menina entrar em campo porque alguém decidiu construir o lugar onde ela poderia jogar.
Fontes consultadas: Federação Cearense de Futebol; Assembleia Legislativa do Estado do Ceará; Prefeitura de Campos Sales; Tribunal de Contas dos Municípios/Estado do Ceará; CBF; Diário Oficial dos Municípios do Ceará; ge; Diário do Nordeste; Portal Miséria e registros públicos cadastrais do R4 Esporte Clube.
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