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História
Ubirajara Alcântara: Um gol histórico dentro e fora de campo
Há exatos 56 anos, o goleiro rubro-negro marcou um gol de 120 metros que entrou para a história do Flamengo, do futebol e ajudou a resgatar o protagonismo dos goleiros negros no futebol brasileiro
Publicado em 19 de setembro de 2026
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Por Carlão Azevedo
Imagem: Acervo
Em resumo: Em 19 de setembro de 1970, Ubirajara Alcântara marcou um dos gols mais extraordinários da história do Flamengo: um chute de sua própria área que percorreu cerca de 120 metros e terminou nas redes do Madureira. O feito entrou para o Guinness Book e ganhou dimensão ainda maior por ter sido protagonizado por um goleiro negro, apenas duas décadas após a traumática Copa de 1950, ajudando a romper o preconceito que durante anos afastou goleiros negros dos grandes clubes brasileiros.
Acervo
A alegria de voltar a escrever para o “Flamengo na História” coincide com um fato histórico que faz 56 anos no dia de hoje: o gol de Ubirajara Alcântara, goleiro do Flamengo naquele 19 de setembro de 1970.
O Flamengo já vencia o Madureira por 1 a 0 quando, após receber uma bola recuada da defesa, o pé número 46 de Bira desferiu um chute potente em direção ao campo de ataque rubro-negro. O quique da bola, a movimentação do atacante Nei e o forte vento que soprava no Luso-Brasileiro, estádio da simpática Portuguesa da Ilha do Governador, enganaram o goleiro do tricolor suburbano Paulo Roberto.
1965, Maracanã. Em pé, da esquerda para a direita: Mario Braga, Ubirajara, Paulo Lumumba, Itamar, Jarbas e Leon. Agachados: Neves, Juarez, Cezar Marques, Fio Maravilha e Osmar - arquivo pessoal de Cezar Marques
Era o segundo gol do Flamengo, consignado pelo seu arqueiro. Um gol histórico por diversos aspectos: foi o primeiro gol de um goleiro na história do Flamengo, o primeiro de um goleiro no futebol brasileiro e mundial com bola rolando e o primeiro gol de um goleiro dentro de sua própria área registrado na história do futebol, feito que parou no livro dos recordes. Some-se a isso que os campos da época não eram os campos “padrão FIFA” dos dias atuais: a bola percorreu impressionantes 120 metros até morrer na rede do Madureira.
Por conta do feito impressionante e pelo efeito dado pelo vento no desfecho da jogada, até hoje o Luso-Brasileiro é conhecido como “O Estádio dos Ventos Uivantes”, em alusão ao romance “O Morro dos Ventos Uivantes”, de 1847, da escritora britânica Emily Bronthë, adaptado para o cinema em 1939 e refilmado neste ano.
1970. Maracanã. Em pé: Onça, Ubirajara Alcântara, Washington, Reyes, Zanata e Paulo Henrique; agachados: Doval, Liminha, Nei, Fio e Caldeira - Acervo
Além do registro no Guinness Book, Ubirajara, que também atuou por América, Botafogo, Avaí e Itabaiana, ganhou uma placa do Flamengo pelo seu inesquecível feito.
Entretanto, há uma outra questão que envolve esse gol: o fato ocorreu pouco tempo após a tragédia da Copa de 1950, atribuída a Moacir Barbosa, um goleiro negro, como Ubirajara, ter completado 20 anos. Quase 50 anos depois da trágica final, o maior goleiro brasileiro da história morreria penalizado pelo erro contra o Uruguai, o que fechou as portas para goleiros negros em grandes clubes do nosso futebol.
Após a Copa de 1950, apenas Veludo, reserva de Carlos Castilho no Fluminense e na Seleção de 1954, e Barbosinha, no Corinthians, foram goleiros negros em destaque nos grandes clubes brasileiros.
O gol de Ubirajara não somente ficou marcado na história do Flamengo e do futebol, mas também ajudou a reabrir as portas para os arqueiros negros, os mesmos que “não serviam para jogar no gol”.
Justiça seja feita ao Corinthians, que posteriormente teve Tobias, homenageado ontem com o lançamento de uma camisa retrô em alusão à “Invasão ao Maracanã” de 1976, e Jairo.
Também surgiram nessa esteira outros grandes nomes, como o campeão brasileiro de 1978 pelo Guarani, Neneca, os excelentes Dida, Hélton e Jefferson, com Hugo Souza, ainda em afirmação na carreira, voltando a representar a negritude no gol da Seleção Brasileira.
Atualmente com 80 anos, Ubirajara Alcântara pode bater no peito e dizer que fez um golaço dentro e fora dos gramados.
Wania Corredo/Extra